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Renato Otranto, do Banco Daycoval: Operações que saíram em outubro já tiveram um novo nível de preço — Foto: Rogerio Vieira/Valor
O movimento de redução das taxas de remuneração de títulos de crédito privado observado desde o início do ano começa a dar sinais de ter chegado ao limite, com operações enfrentando dificuldade e bancos encarteirando os papéis mais do que gostariam. O efeito maior ao longo das últimas semanas foi visto nas emissões de prazos mais longos, com gestores indicando que a compressão de taxas esgotou. No entanto, não é esperada uma mudança drástica de tendência – ou seja, os “spreads” (prêmio em relação ao título público correspondente ou CDI) seguirão apertados.
Para driblar o momento, os coordenadores das ofertas de títulos decidiram que, em alguns casos, valeria a pena abrir mão da remuneração recebida para viabilizar a distribuição dos papéis, o chamado “fee de canal”, de forma a garantir que a operação saísse nos moldes do que havia sido planejado. Já em outras emissões, optou-se por reduzir o volume da operação, para garantir sua colocação no mercado.
A exceção, diz o executivo da instituição financeira, seriam as emissões que levam mais tempo para serem estruturadas. Uma empresa que iniciou a oferta em agosto, por exemplo, pode ser pega no contrapé com o nível de apetite dos investidores em um patamar diferente. Ou seja, ajustem podem ser necessários nessas captações.
Entre as gestoras, aquelas que não fecharam os fundos para captação como forma de manter a rentabilidade, estão enfrentando dificuldade de encontrar ativos que remunerem o nível de risco, aponta Sami Karlik, responsável pela gestão dos fundos de crédito privado da Tivio. “Em outubro, vimos parte da indústria entregando retornos na cota perto dos 100% do CDI. Nós ficamos um pouco acima. Acontece que esses fundos cobram entre 0,4% e 0,5% de gestão, além dos custos operacionais, e um título a CDI mais 0,6% ao ano é um ativo que não paga as contas”, diz.
Segundo especialistas, o tamanho do ajuste ainda não é claro, mas espera-se que seja pequeno. “À despeito da necessidade de acomodação das taxas, a visão para o mercado de crédito segue sendo positiva, considerando também que as empresas aproveitaram a redução das taxas para a gestão do passivo”, afirma Karlik.
O gestor de crédito privado da ARX Investimentos, Pierre Jadoul, diz que nas últimas semanas o mercado deu um recado de que, mesmo com os fundos com caixa, não há mais espaço para mais queda de spreads, ainda mais em operações mais longas. “Foi uma sinalização positiva e de racionalidade do mercado, mas não vejo uma mudança radical de tendência, mas uma correção de excessos”, afirma Jadoul. O gestor lembra que em momentos de grande fluxo para a renda fixa, como o visto agora, e com os fundos com caixa, empresas forçam taxas cada vez menores, a prazos mais longos. “Mas tem um limite”, diz.
Há ainda outras explicações para o atual momento. A gestora de estratégia de crédito da Ibiuna, Vivian Lee, destaca que as emissões também sentiram um efeito da menor captação da indústria em setembro, momento em que se passou a observar uma abertura, mesmo que marginal, dos spreads no mercado secundário. “Como muitas emissões já tinham sido fechadas com spreads bem apertados, temos vistos reprecificações do book e algumas que não tiveram 100% de alocação”, diz. Fora isso, aponta, o mercado parou de ratificar mais aperto das taxas.
Lee destaca que, no geral, as emissões que tiveram que ser ajustadas não se tratavam de percepção de risco de crédito, mas sim de preço e “duration” – para prazos mais longos a exigência é por um prêmio maior. “O que temos visto ao acompanhar os spreads no mercado é que eles pararam de cair e estão começando esse ajuste. Deixou de ser um cenário só de queda como estávamos vendo desde o início do ano”, diz.
Além disso, a tendência é que a eventual correção das taxas também seja diferente dependendo do perfil das emissoras, sendo que nas ofertas de nomes mais tradicionais e com maior qualidade de crédito, a variação será menor. “Não é algo generalizado, há casos de empresas com abertura mais substancial, com aumento de 0,5% ao ano, mas também casos de nomes óbvios com aumento de 0,1% a 0,15%”, diz Otranto, do Daycoval.
Segundo o executivo do UBS BB, a variação também não deve mexer com o nível de interesse das empresas por captações. “Não é uma ruptura, não é que não vai ter deals. Será um ajuste em níveis saudáveis, na direção certa.” Geralmente, os últimos meses do ano são movimentados no mercado de debêntures porque as companhias querem terminar o calendário “bonitas na foto”, como definiu um gestor.
Até setembro, as emissões de debêntures somaram R$ 315,6 bilhões, volume 122% maior que o apurado no mesmo intervalo de 2023, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Como o ano é de recorde, Podlubny acredita que o volume de emissões nos últimos dois meses de 2024 seja grande, mas não espera um rali. “Muita coisa que iria acontecer já aconteceu”, afirma. Olhando para 2025, diz, o esperado é um ano de estabilidade frente aos volumes deste ano.
Fonte: Valor Econômico
