A fraqueza do dólar é um “desejo” do atual governo dos Estados Unidos e não deve mudar nos próximos meses. No entanto, no mercado brasileiro de câmbio, esse quadro pode mudar se a preocupação dos investidores com o cenário fiscal aumentar, afirmou Samuel Pessôa, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).
É desejo da nova administração produzir uma desvalorização da moeda americana e isso tem ocorrido no mercado.
“É muito difícil falar de câmbio, mas não vejo para a frente uma tendência de reversão desse processo de enfraquecimento do dólar”, disse ele durante o 3º Seminário de Análise Conjuntural da FGV em parceria com o Estadão. “Parece que essa tendência de enfraquecimento do dólar frente a outras moedas vai prevalecer no horizonte eleitoral. Há alguma possibilidade de mudança no câmbio em função de questões domésticas”, acrescentou.

Segundo Pessôa, dificilmente o quadro fiscal deixará de ser abordado durante a campanha eleitoral do ano que vem, dado o nível elevado dos juros e o aumento da dívida pública ao longo dos últimos anos.
“Dependendo da forma como esse tema for tratado, pode haver preocupação maior ou menor do mercado com relação ao futuro das finanças públicas e pode mudar esse cenário”, disse ele, acrescentando que, para o comportamento do dólar, “será menos relevante a execução fiscal do ano que vem e mais relevante a forma como o tema será tratado no processo eleitoral”.
Inflação
O chefe do centro de estudos monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), José Júlio Senna, afirma que a inflação de serviços no Brasil ainda está elevada e impõe um desafio significativo ao Banco Central (BC), que usará um tom cauteloso no comunicado com a decisão de política monetária desta quarta-feira, 17, evitando sinalizar que um ciclo de corte nos juros está próximo.
Durante o 3º Seminário de Análise Conjuntural da FGV, ele afirmou que a inflação de serviços em base trimestral e anualizada está em 6,7%, bem acima da meta para a inflação cheia, de 3,0% ao ano. Considerando o núcleo da inflação de serviços, há um pequeno alívio, “mas nada extraordinário” — a taxa diminui para 6,0%.
Ele mencionou que fatores como o câmbio, as expectativas de inflação e a perda de fôlego da atividade econômica são componentes atualmente auxiliando o Banco Central no combate à inflação, mas ressaltou que a projeção de inflação para o horizonte relevante ainda está acima de 3,0%.
“O BC se esforçará bastante, como tem feito ultimamente, para sinalizar que não quer ouvir falar de ciclo de queda de juros no Brasil. O mercado embute várias quedas na curva de juros, com Selic terminando ano que vem em 12,50% ou 12,25%. Acho prematuro esse tipo de expectativa. O BC vai continuar sinalizando que a política monetária continuará bastante restritiva por período prolongado e evitará ao máximo discussão ou sinalização sobre queda nos juros”, acrescentou.
Guerra comercial
Durante o evento, a coordenadora do Boletim Macro FGV, Silvia Matos, também avaliou as questões internacionais e o reflexo da guerra comercial de Trump. Ela disse que um acordo comercial entre a China e os Estados Unidos que resultasse numa redução das exportações brasileiras de soja ao mercado chinês seria um fator de preocupação para o Brasil e poderia ter um impacto relevante sobre a economia doméstica.
“Desde o primeiro governo Trump, a China mudou completamente as compras de soja, privilegiando o Brasil. Esse setor tem um peso alto na atividade econômica da agricultura, é metade do nosso PIB agrícola. Se tiver queda na demanda da China, vai gerar muito mais questões, pedidos de subsídios ao governo. Poderia ter efeitos sobre a safra do ano que vem e impacto sobre o PIB”, disse Matos.
Segundo ela, o tarifaço aplicado pelos Estados Unidos ao Brasil ainda não exerce efeito relevante sobre as exportações do País. “Brasil é um país fechado. Vai ter problemas de impacto na exportação, mas quando coloca tudo na conta o impacto é pequeno sobre a atividade”, acrescentou.
Fonte: Estadão