O Real é uma das moedas vencedoras do mercado global desde o início da escalada da guerra no Irã. É o que diz o relatório “Iran War: The winners and losers in FX (Guerra no Irã: os vencedores e perdedores no mercado de câmbio, em uma tradução livre)”, feito pela Ebury Bank, uma fintech focada na oferta de pagamentos internacionais.
Conforme o relatório, o Real é impulsionado pelo status do Brasil como o maior exportador de petróleo da América Latina. A moeda brasileira tem superado a maioria dos pares emergentes e o Euro, beneficiando-se diretamente da disparada nos preços de energia, em um cenário de forte aversão ao risco internacional.
O estudo analisa o comportamento dos mercados desde o início das hostilidades entre Irã, Estados Unidos e Israel, considerando dados desde o dia 27 de fevereiro.
A análise se baseia na criação de uma pontuação que mede a resiliência a choques externos no setor energético de uma economia, que varia de 1 (pior) a 6 (melhor), cruzando essa pontuação com a variação percentual das moedas em relação ao dólar (USD).
O estudo mostra que o Peso Colombiano (COP), a Rúpia da Indonésia (IDR) e o Kwanza Angolano (AOA) têm a maior nota (6) de toda a cesta de moedas selecionadas, assim como o Dólar Canadense (CAD), Dólar Australiano (AUD) e a Coroa Norueguesa (NOK).
A análise mostra o Real (BRL) com uma pontuação de 5, situando-se acima de outros países emergentes como o Chile e a Coreia do Sul. Junto à moeda brasileira no nível 5, estão a Naira Nigeriana (NGN), Ringgit Malaio (MYR), Cedi Ganense (GHS) e o Rand da África do Sul (ZAR).
O estudo aponta o Iene Japonês (JPY), o Wong Sul-coreano (KRW) e o Dólar de Cingapura (SGD) com a pior nota (1). Franco Suíço (CHF), Lira Turca (TRY), Baht Tailandês (THB), Peso Filipino (PHP), Peso chileno (CLP), Florim Húngaro (HUF) e o Euro (EUR) têm uma pontuação um pouco melhor (2) na análise, mas ainda assim demonstram baixa resiliência a choques externos no setor energético.
Matthew Ryan, chefe de Estratégia de Mercado da Ebury, alerta que o cenário de guerra prolongada favorece o dólar americano como porto seguro. “Esperamos uma valorização contínua do par USD/BRL, embora o status do Brasil como exportador líquido de energia, sem mencionar a grande distância geopolítica do país em relação ao conflito, atuaria para limitar as perdas, permitindo que o Real se valorizasse em relação à maioria das outras moedas”, explicou Ryan ao Valor.
O fechamento do Estreito de Ormuz elevou os preços das commodities, beneficiando exportadores fora do Golfo Pérsico, segundo o chefe de Estratégia de Mercado da Ebury.
Para Ryan, a melhora nos termos de troca do Brasil é um fator positivo para a economia brasileira, contribuindo para as posições externa e fiscal. No entanto, ele pondera que os benefícios serão parcialmente compensados pela inflação:
“Acreditamos que um conflito prolongado, no qual os preços globais do petróleo permaneçam acima de US$ 100 por barril, proporcionaria um impulso líquido ao crescimento, ainda que relativamente modesto”, afirmou Ryan.
Atualmente, o Real parece reagir mais ao apetite global por risco do que propriamente ao preço do barril. “O alto risco associado ao Real torna a moeda vulnerável a novas perdas frente ao dólar, principalmente caso os investidores desfaçam posições em operações de ‘carry trade’, para as quais o Real se mostrou particularmente atrativo”, explica o especialista.
Carry trade são operações de arbitragem entre mercados de juros internacionais. Ela consiste em tomar dinheiro emprestado em uma moeda com taxa de juros baixa (chamada de moeda de financiamento) e investi-lo em uma moeda que oferece taxas de juros mais altas.
*Estagiário sob supervisão de Diogo Max
Fonte: Valor Econômico
