Diante do início da paralisação (“shutdown”) da máquina pública americana, o ambiente externo de maior instabilidade somou-se às incertezas quanto ao cenário fiscal eleitoral no Brasil, o que alimentou um ambiente negativo para os ativos doméstico na sessão de ontem. Com o peso adicional do cenário doméstico, o real e a bolsa brasileira destoaram de outros emergentes. Da mesma forma, os juros futuros encerraram o pregão em alta, descolados da dinâmica do mercado de Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA).
Agentes financeiros ampliaram o tom de cautela antes da votação, na Câmara dos Deputados, do projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil. Participantes do mercado temem as eventuais compensações que possam ser aprovadas para que a isenção do IR tenha caráter fiscal neutro.
A divulgação de novos levantamentos que mostraram uma melhora na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma fragmentação da oposição também ampliaram o receio dos investidores com o desenrolar eleitoral.
“Se permanecer esse cenário de Lula mais forte, a percepção de risco fiscal deve prevalecer e pressionar os mercados porque se sabe que esse governo não deve endereçar soluções à questão fiscal em um possível novo mandato”, diz um profissional que preferiu não se identificar.
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No fim do dia, o dólar à vista encerrou negociado a R$ 5,3285, em alta de 0,11%, com dados de atividade e do mercado de trabalho americano pesando sobre a moeda. O economista-chefe e sócio da Quantitas, Ivo Chermont, revela que a gestora está neutra em relação ao real neste momento. “Não gostamos de entrar em posições que já avançaram bastante, e o real já valorizou mais de 10% neste ano, o que não é muito comum para uma moeda”, diz. “O movimento, então, aparentemente, ‘já foi’.”
Chermont nota ainda que, no curto prazo, a sazonalidade é algo que deve pesar sobre o real, diante de uma possível saída de recursos do país, comum no fim do ano.
Já os juros futuros encerraram em alta na sessão de ontem: a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 oscilou de 14,045%, do ajuste anterior, para 14,05%; a do DI de janeiro de 2029 subiu de 13,215% a 13,255%; e a do DI de janeiro de 2031 avançou de 13,415% para 13,44%.
Participantes do mercado avaliam que o desempenho dos juros futuros tem encontrado resistência na postura conservadora do Banco Central, em um momento em que os diretores têm se mostrado intransigentes na comunicação de que a Selic deve permanecer em 15% por um longo tempo para ancorar as expectativas de inflação.
“Estão ‘hawkish’ [duros] a semana toda, falando que não vamos ver cortes de juros. Não tem como as taxas prefixadas performarem bem”, observa um trader de renda fixa de um importante banco local, referindo-se aos discursos recentes do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do diretor de política econômica, Diogo Guillen.
Já o Ibovespa encerrou em queda de 0,49%, aos 145.517 pontos. Com o peso das questões locais, o EWZ (que é o principal fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York) fechou com recuo de 1,35%. O movimento foi oposto ao registrado pelo EEM (principal fundo de índice de mercados emergentes negociado em NY), que subiu 0,79%.
Participantes do mercado destacaram a perda de força da bolsa local, logo após a abertura dos negócios, em um movimento que se estendeu pelo terceiro dia seguido. De acordo com um gestor, é possível que os investidores locais tenham atingido, por ora, o limite de alocação no Ibovespa.
Para o analista sênior de ações e renda variável da AZ Quest João Mamede, uma correção do Ibovespa é esperada neste momento. “É natural que, depois de um movimento forte de alta do Ibovespa, tenha um período de realização de lucros para repensar a estratégia, trocar papéis O movimento dos últimos dias no índice talvez seja um pouco disso”, destaca o profissional.
Em meio a um período de revisões na carteira, Mamede conta que a gestora optou por aumentar a posição em bancos com “beta” mais elevado, além de reforçar as apostas em companhias do setor de construção civil.
Já os gestores da Ibiuna Investimentos afirmam, em carta, que mantiveram a alocação em “empresas domésticas com forte resiliência operacional e reduzida alavancagem financeira”, em meio a uma desaceleração marginal da atividade econômica local, com custos financeiros ainda elevados. “Ajustes menores foram feitos dadas as variações nos ‘valuations’ relativos nos setores financeiro, de shopping centers, de geradores de energia elétrica e de incorporadores e construtores”, apontaram.
Fonte: Valor Econômico