18/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
De maneira miseravelmente previsível, o governo Jair Bolsonaro avançou no que era até então apenas um flerte com o populismo eleitoral e sinalizou, na semana passada, que a partir de julho todo o funcionalismo público será agraciado com um reajuste salarial de 5%.
A decisão, conforme publicou o Valor, foi tomada em reunião entre os ministros da Casa Civil, Ciro Nogueira, e da Economia, Paulo Guedes. Contou, claro, com o aval do próprio presidente da República – o maior interessado em gerar qualquer notícia positiva que possa alimentar seu projeto de poder. Mesmo que esta não agrade completamente o funcionalismo e, ainda assim, represente um grave risco para as contas públicas.
O aumento de 5% para os funcionários federais deve custar algo como R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões este ano, informa-se nos escalões técnicos. E isso é mais do que o valor inicialmente reservado no Orçamento de 2022 para essa finalidade: R$ 1,7 bilhão. Para o ano que vem essa fatura é estimada em aproximadamente R$ 14 bilhões.
Novamente o governo Bolsonaro age de forma atabalhoada. Dias antes do anúncio, num evento em que falava a agentes do mercado financeiro, Guedes destacou que um aumento para todos poderia destruir a economia e inclusive ressuscitaria a indesejada lógica da indexação do período de hiperinflação anterior ao Plano Real.
“Agora, se começar a dar reajuste para todo mundo, nós estamos empurrando o custo para filhos e netos, além de destruirmos a nossa economia também. Porque nós vamos voltar a lógica da realimentação inflacionária, de indexar tudo outra vez”, disse, corretamente. O problema, porém, é que os argumentos do chefe da equipe econômica foram colocados em segundo plano.
A notícia de que deve haver um reajuste linear de 5% foi dada em meio à crescente insatisfação de diversas categorias com a postura do chefe do Executivo. Num primeiro momento, o presidente havia prometido reajustar os vencimentos de policiais federais, policiais rodoviários federais e de funcionários do sistema carcerário. Essa possibilidade gerou uma revolta generalizada na Esplanada dos Ministérios, autarquias e órgãos federais país afora, cujos servidores, embora também sofram com a redução do poder de compra devido à inflação, enfrentaram a crise decorrente da pandemia com a tranquilidade de quem tem estabilidade no emprego.
Desde então, algumas categorias têm realizado paralisações que afetam os serviços prestados a cidadãos e empresas. As mobilizações vêm impactando, por exemplo, atividades do Banco Central (BC), Tesouro Nacional, Controladoria-Geral da União (CGU), Receita Federal, Secretaria de Orçamento Federal (SOF), Superintendência de Seguros Privados (Susep) e análise de comércio exterior do Ministério da Economia.
Em alguns casos, operadores do mercado financeiro estão sendo obrigados a enfrentar uma espécie de “apagão de dados”. Um exemplo é a falta que o boletim Focus faz para o cálculo das projeções de inflação. Outro é o adiamento da divulgação do IBC-Br, o índice de atividade do Banco Central que serve de referência antes da divulgação oficial do Produto Interno Bruto (PIB). Isso sem falar nos transtornos causados a quem precisa realizar negócios com clientes estrangeiros, em um ambiente internacional já tumultuado pela guerra.
Agora, o governo terá que lidar com outro desafio: fazer caber essa despesa injustificada dentro do teto de gastos. E, neste caso, não surpreende também que as áreas escolhidas para pagar a conta sejam aquelas que já estão sendo tratadas com grande desprezo pelo atual governo: Saúde e Educação, duas pastas que protagonizaram escândalos nos últimos meses. O Ministério da Defesa também será chamado a contribuir, com a redução de seus gastos com custeio. As recentes notícias sobre a compra de remédios e próteses não essenciais darão menos argumentos àqueles que poderiam tentar evitar o corte orçamentário.
Não é de hoje que presidentes em busca da reeleição decidem trilhar caminhos mais do que questionáveis para permanecer no Palácio do Planalto. A ex-presidente Dilma Rousseff, por exemplo, cunhou a conhecida frase segundo a qual reconhecia a possibilidade de “fazer o diabo quando é hora de eleição”. Bolsonaro mostra que, novamente, não foge à regra.
Fonte: Valor Econômico