Por Toni Sciarretta — De São Paulo
17/11/2022 05h02 Atualizado
A quebra da FTX já contaminou duas outras gigantes de criptoativos, comprometeu uma gestora de ativos digitais, trouxe prejuízos para alguns dos maiores players de venture capital e pode chegar a investidores institucionais das finanças tradicionais do mundo regulado.
Ontem, a corretora de ativos digitais Genesis suspendeu resgates e novas operações de crédito com base em criptoativos. A Gemini, uma das mais antigas corretoras de criptomoedas, suspendeu saques de seu produto de rendimento, uma espécie de conta remunerada em criptomoedas, que tinha como principal parceira a Genesis, dos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss. A Galaxy Digital, que atua com serviços financeiros voltados para ativos digitais, tinha US$ 77 milhões na FTX.
Mais de 1 milhão de clientes e credores têm exposição ao grupo FTX, que tinha 130 subsidiárias e atuava em diversas frentes de negócios digitais – trade, custódia, emissão de tokens, funding de empresas, crédito, tecnologia etc.
Entre os investidores de venture capital, o fundo soberano de Cingapura, Temasek, deve assumir um prejuízo de US$ 200 milhões, segundo a “Bloomberg”. A Sequoia Capital reduziu a zero um investimento de US$ 214 milhões na empresa. Na semana passada, o SoftBank reconheceu uma exposição de US$ 100 milhões na companhia.
Vítimas do colapso do sistema Terra/Luna, a BlockFi e a Voyager Digital, que estavam sendo adquiridas pela FTX, terão agora de procurar outros compradores ou seguir para liquidação.
A FTX era considerada um dos players que mais seguiam as regras de mercado entre as empresas do mundo dos criptoativos. Tinha alto prestígio no Congresso e junto aos reguladores dos EUA, encampando um lobby pró-exchanges centralizadas.
O grupo atuava de forma muito parecida com os intermediários equivalentes no mundo regulado, só que com grande volume de transações envolvendo partes relacionadas, alta alavancagem e parte relevante do lastro em ativos de sua própria emissão – caso do token FTT, que o CEO da rival Binance questionou e, assim, originou uma corrida para sacar investimentos e aplicações.
O fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, conhecido como SMB, era o sexto maior doador de recursos para campanhas políticas nos EUA, a maioria para parlamentares democratas. Segundo a Bloomberg, nos últimos dois anos ele doou quase US$ 40 milhões. Um de seus principais subordinados, Ryan Salame, fez doações de US$ 23,6 milhões, a maior parte para republicanos.
Para especialistas do setor, a quebra da FTX deve minar as iniciativas em curso de regulação no Legislativo dos EUA e mesmo na esfera administrativa, como na SEC (a CVM dos EUA) e CFTC (reguladora de commodities).
O projeto de lei em discussão no Senado dos EUA já enfrentava oposição da comunidade de finanças descentralizadas (DeFi), que opera sem a necessidade de intermediários e considerava que o projeto defendia demasiadamente os players com maior volume e participação de mercado.
Segundo reportagem da Bloomberg, os legisladores da Câmara e do Senado estão tentando agora entender os detalhes do colapso da FTX para evitar que um evento semelhante ocorra no futuro. Com isso, dificilmente os projetos que estão em análise pelos parlamentares devem sobreviver aos questionamentos dos reguladores e demais grupos da comunidade de criptoativos.
Fonte: Valor Econômico