Por Arthur Cagliari e Victor Rezende — De São Paulo
06/01/2023 05h00 Atualizado há 13 minutos
A combinação entre um diferencial de juros ainda bastante relevante, preços de commodities que não devem enfrentar forte desvalorização e possibilidade de uma desaceleração da economia global dá apoio à hipótese de um comportamento lateral do câmbio neste ano, sem grandes alterações em relação aos níveis atuais. A percepção de risco fiscal, porém, deve ser um fator que irá acompanhar os movimentos do real ao longo do ano e que pode impulsionar ou reduzir a volatilidade da moeda brasileira, a depender também da política monetária americana.
Em levantamento conduzido pelo Valor com 107 instituições financeiras e consultorias, a mediana das projeções para o nível do dólar no fim deste ano ficou em R$ 5,30 – ontem, fechou cotado a R$ 5,3518. Há, porém, uma amplitude relevante nas projeções, de R$ 1,55. Enquanto a casa mais otimista com o desempenho do real em 2023 espera que o dólar encerre o ano a R$ 4,75, a mais pessimista com a moeda brasileira acredita que a divisa americana fechará 2023 cotada a R$ 6,30.
Embora as projeções possam indicar caminhos diferentes, há semelhanças nos tópicos de maior preocupação entre analistas ouvidos pelo Valor, que integram o “Top 5” de câmbio do terceiro trimestre de 2022 no relatório Focus, do Banco Central. “A pergunta sobre o destino do dólar depende, primeiro, de saber para onde vai a política fiscal aqui no Brasil e, depois, para onde vão os juros americanos”, afirma o economista-chefe do Banco Alfa, Luís Otávio de Souza Leal.
As diferenças vêm das gradações sobre as expectativas para esses fatores, além das perspectivas para as contas externas brasileiras. Na ponta otimista, o economista Luca Mercadante, da Rio Bravo Investimentos, espera que o dólar encerre o ano em R$ 4,75, mas ressalta que a projeção se baseia em um cenário anterior aos ruídos políticos observados no fim do ano passado. “Esse seria um ambiente de continuidade da política que era feita, das expectativas que tínhamos em relação à política monetária no Brasil, com inflação e gastos controlados. Isso levaria a uma taxa de câmbio de equilíbrio que consideramos estar entre R$ 4,25 e R$ 4,75”, diz.
A mediana das projeções para o patamar da moeda americana no fim deste ano ficou em R$ 5,30
Mercadante, contudo, revela que, após as eleições, o cenário se modificou e há, hoje, um grau de incerteza maior, com queda da credibilidade sobre uma gestão sustentável das contas públicas, o que pode fazer o câmbio operar mais desvalorizado. “Vamos ter de rever nossa projeção, mas, por enquanto, estamos esperando passar o período de incerteza, para ter definições claras dos caminhos”, afirma. “Por enquanto, o ambiente que se desenha é de pressão do dólar para cima.”
O economista-chefe da Occam, Paulo Val, defende uma visão semelhante, que indica pressão mais forte sobre o câmbio doméstico, ao projetar o dólar a R$ 5,50 no fim de 2023. “E há um viés de um câmbio mais depreciado que isso”, afirma. “Neste ano, temos uma série de questões que precisam ser resolvidas, como um novo arcabouço fiscal, a política de estímulos dos bancos públicos… Essas discussões têm potencial de afetar os prêmios de risco do país e, consequentemente, isso pode se refletir no câmbio. Nossa sensação é a de que, nesses momentos, o câmbio pode depreciar mais.”
Ao avaliar o desempenho dos ativos nos últimos pregões do ano, quando houve queda firme do dólar ante o real e um alívio relevante na curva de juros, Val diz acreditar que o mercado revelou um grau de otimismo em relação aos desafios fiscais que se desenham para o Brasil neste ano. “E esse debate, ao longo de 2023, do novo arcabouço fiscal, exerce pressão na direção de depreciação do câmbio. É claro que o diferencial de juros tem um papel importante, mas, dada a importância dos acontecimentos locais que veremos, há um viés para desvalorização do real.”
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De acordo com Val, a projeção da Occam de R$ 5,50 por dólar no fim do ano no câmbio embute uma piora do fundamento fiscal brasileiro, que “mais do que compensa” a entrada de fluxo devido a uma possível melhora da percepção brasileira em relação à pauta ambiental, que tem sido olhada de perto por investidores estrangeiros. Além disso, o economista nota piora na conta corrente brasileira, embora ressalte que, nos níveis atuais, as contas externas não configuram um grande problema. Segundo dados do Banco Central revelados no fim do ano passado, as transações correntes anotaram déficit de US$ 52,357 bilhões no acumulado em 12 meses até novembro, o equivalente a 2,78% do PIB.
Leal, do Banco Alfa, avalia que, além das questões fiscais, o câmbio pode ser influenciado pelas políticas parafiscais, como mencionado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. “Se o BNDES avançar na ideia de mudar a Taxa de Longo Prazo (TLP), isso pode alterar a visão do BC e talvez altere a percepção do mercado”, afirma. “O mais importante no início deste governo é ver o que vai ser feito com a TLP, porque alterações podem aumentar a taxa de juro neutra, e isso levar o BC a elevar a Selic novamente”, completa.
Apesar desse alerta, Leal projeta uma valorização do câmbio nos três primeiros meses deste ano. “O início do novo governo Lula só precisa ser melhor que o período de transição que vimos”, afirma. “Desde julho, pudemos ver a entrada de capitais no Brasil, e isso tende a continuar.”
Ele acrescenta que as incertezas na China, com as restrições para conter a covid; a mudança de postura do governo chinês com empresas privadas; e a fragilidade do setor imobiliário no país vêm estimulando uma realocação de investimentos de fundos destinados a países emergentes, e o Brasil se beneficia disso. “É o mesmo movimento que pudemos perceber sobre a Rússia, com a saída de capitais de lá desde o início da guerra”, diz. “Os ativos aqui estão baratos para os estrangeiros. A despeito do que ocorrer lá fora, se o governo Lula não tiver um início ruim em termos fiscais, acho que pode entrar um belo capital aqui no começo do ano, derrubando a cotação.”
De fato, os dados do Banco Central sobre o câmbio contratado mostram que, no primeiro semestre de 2022, o fluxo cambial registrou uma entrada líquida de US$ 19,135 bilhões, em um movimento liderado pela conta comercial, que mais que compensou a saída líquida de recursos observada na conta financeira. Diante da expectativa de resiliência do fluxo comercial no início deste ano com a possibilidade de safra recorde, e com o posicionamento técnico do mercado negativo para o real, o primeiro trimestre pode, novamente, ser palco de uma valorização da moeda brasileira. Vale lembrar que o dólar atingiu a mínima de 2022 em abril, quando foi a R$ 4,60, para encerrar o ano a R$ 5,217.
Para Maurício Une, economista-chefe do Rabobank Brasil, o dólar deve perder fôlego contra o real neste início do ano, mas de forma moderada. “Apesar das incertezas do novo governo, do novo Congresso e do ‘mix’ de políticas econômicas que vão ser adotadas, pensamos que é possível ver o câmbio voltando a se apreciar em relação aos patamares que estávamos vendo logo após a eleição”, afirma Une. “Não é uma apreciação muito forte, já que ainda temos fatores que fazem com que tenhamos certa fragilidade nessa apreciação, mas o câmbio pode atingir R$ 5,10 no primeiro semestre.”
Para melhorar a posição do real ante o dólar, não basta só adotar uma política fiscal mais responsável, na visão de Une. O economista aponta outros fatores. “Um tema mencionado logo após o anúncio do [Fernando] Haddad no Ministério da Fazenda foi a possibilidade de uma reforma tributária. Esse não é um tópico fiscal, mas que ajuda na facilidade de fazer negócios no país e que pode ajudar no ambiente de investimentos e no crescimento do PIB”, afirma.
Na avaliação de Une, se não houver nenhuma surpresa no meio do caminho, o BC deve manter a Selic a 13,75% até a metade do ano e, então, começar a reduzir seu aperto, com a taxa básica alcançando 11% em dezembro. “Com o Federal Reserve mantendo os juros altos e nós começando a reduzir os nossos, voltaríamos a ter um dólar a R$ 5,30 justamente por conta do diferencial de juros.”
O movimento do Fed é, por sinal, um ponto de atenção para os analistas. Na avaliação deles, hoje o câmbio já precifica os Fed funds com taxa final no intervalo entre 5% e 5,25%. Mais do que isso, o real deve sofrer algum efeito do fortalecimento do dólar no exterior. “Só que já vimos alguns episódios em que, mesmo com o dólar forte lá fora, tivemos valorização do real”, diz Leal, do Banco Alfa. “Em um mundo em que temos juros altos no Brasil, uma alta de 0,25 ponto percentual nos EUA não vai fazer diferença.”
Fonte: Valor Econômico
