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Aliado a um cenário doméstico que inspira baixa confiança entre os investidores, o ambiente global voltou a se mostrar bastante negativo para ativos de risco ontem e ajudou a impor mais um dia de perdas no mercado local, notadamente para a divisa brasileira. O dólar fechou a sessão em alta firme e voltou a ser negociado na faixa dos R$ 5,65, maior nível em três semanas. A pressão cambial, por sua vez, passou a entrar no radar dos agentes e aumentou os receios relacionados a um possível endurecimento no discurso do Banco Central na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana, o que também acabou pressionando os juros futuros.
O cenário externo tem se mostrado mais desafiador para ativos de emergentes nos últimos dias. Para além da perspectiva ainda majoritária de que o ex-presidente dos EUA Donald Trump irá vencer as eleições no país – o que traria dificuldades ao comércio global e aos mercados emergentes -, a recente apreciação da moeda japonesa tem sido um fator apontado como amplamente negativo para as divisas de economias emergentes.
Isso porque uma estratégia amplamente utilizada pelos investidores globais ao longo dos últimos anos foi a do “carry trade”. Ela consiste em tomar recursos em países com juros baixos, como o Japão, e alocá-los em economias com taxas elevadas, como o Brasil e o México, de forma que o investidor que realiza essa operação ganha com o diferencial de juros. Pela sua natureza, a aposta também acaba sendo bem-sucedida caso ocorra uma valorização das moedas de juros elevados contra a divisa utilizada como “funding” na operação.
No entanto, as perspectivas de que o Banco do Japão (BoJ) irá apertar sua política monetária e os reflexos das supostas intervenções do ministério das Finanças do país no mercado cambial para conter a depreciação do iene levaram a moeda japonesa a exibir uma forte apreciação nos últimos dias.
Assim, ontem, o real dividiu o protagonismo negativo com o peso mexicano, outra moeda associada às operações de carry trade com o iene. O dólar subiu 1,27% contra o real e fechou o dia negociado a R$ 5,6566. Perto do horário de fechamento, a divisa americana também subia mais de 1% contra o peso mexicano, ao passo que caía mais de 1% frente ao iene. Tanto o real quanto o peso mexicano exibiram quedas de mais de 2% no confronto com a divisa japonesa.
Para Fernando Chibante, gestor macro da Occam, uma alta de juros do BoJ na semana que vem já parece estar incorporada aos preços, mas sinalizações que apontam para uma política mais dura à frente podem estender a valorização do iene. “E caso o iene reaja positivamente à decisão, devemos ter mais um empurrão negativo contra o real”, diz.
Com isso, o profissional afirma que a Occam está com posição comprada em iene contra o real (aposta na valorização da moeda japonesa ante a brasileira). “Acreditamos que a valorização do iene, impulsionada pela expectativa de aumento de juros no Japão, e os fatores de risco que pressionam o real justificam essa estratégia.” Dentre esses fatores, ele cita as incertezas fiscais no Brasil, desaceleração da economia da China e um ambiente menos propenso à tomada de risco com as eleições americanas.
O Bank of America, por outro lado, era uma das casas que apostavam, desde abril, em posições compradas (aposta na valorização) em real contra o iene. A aposta, ontem, atingiu o nível de tolerância máxima de perda estabelecida pelo banco.
Ainda segundo Chibante, da Occam, há razões internas que também explicam a depreciação do real. “No lado doméstico, a preocupação em torno da sustentabilidade fiscal no médio prazo tem gerado incertezas no mercado. Novos ruídos políticos podem voltar a incomodar no próximo mês durante as discussões orçamentárias”, afirma o gestor.
A recente depreciação do real também voltou a acender sinais de alerta sobre o comportamento da política monetária do Brasil no curto prazo. Ainda que o cenário iminente de altas de juros seja considerado como improvável, a visão de que o Copom pode alterar a orientação de seu balanço de riscos para uma assimetria em relação aos riscos de alta da inflação passou a ganhar corpo nas discussões do mercado.
Segundo as estimativas do J.P. Morgan, com um câmbio negociado a R$ 5,60 e expectativas de inflação para 2025 em 3,90%, a projeção do Copom em seu cenário alternativo – o que prevê a manutenção da Selic em 10,5% ao longo do horizonte relevante – estaria em 3,4%. Vale apontar que, no último comunicado do BC, a projeção encontrava-se em 3,1%, com um câmbio de R$ 5,30.
“Com o horizonte monetário de 18 meses do Banco Central dando cada vez mais importância às projeções para 2026 e com os bancos centrais globais começando a flexibilizar as condições, o BC terá alguma margem de manobra para manter a taxa de política no nível restritivo de 10,50% para esperar e ver como esse desvio entre os dados e as expectativas se desenrolará nos próximos trimestres. Dito isso, o cenário parece colocar o BC no limite. Aumentos adicionais nas projeções de inflação podem desencadear altas de juros no segundo semestre deste ano”, apontam Cassiana Fernandez e Vinícius Moreira, do J.P. Morgan.
Segundo eles, ainda, a opção da maioria do colegiado sobre como o balanço de riscos será caracterizado pode ser um prenúncio do que o BC está inclinado a fazer nas próximas reuniões.
Ontem, apesar do ambiente amplamente negativo, o Ibovespa fechou a sessão com desvalorização contida, de 0,13%, aos 126.423 pontos. A despeito da forte pressão negativa no real e nos juros futuros nas últimas sessões, o principal índice acionário da bolsa local tem se mantido mais ancorado e acumula alta de 2,03% em julho.
Para o líder da área de análise de investimentos da Warren, Frederico Nobre, nos últimos meses existiu um certo pessimismo exagerado na precificação da curva de juros no Brasil e o receio em torno do fiscal ainda segue, mas parece haver um apetite maior a risco.
Segundo ele, os aportes de investidores estrangeiros em julho, que já somam R$ 6,22 bilhões, ajudaram a amenizar um pouco das perdas sofridas pelo índice ao longo do primeiro semestre. O principal gatilho para tornar a volta do capital estrangeiro mais perene, diz Nobre, é o início do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que deve ocorrer em setembro. “Com o maior apetite a risco, a alocação em mercados emergentes vai acontecer e o Brasil é um dos países que devem receber esse fluxo”, completa.
Fonte: Valor Econômico
