O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira que a inflação acima da meta está “bastante disseminada” e destacou a incerteza no cenário internacional causada pela política de tarifas implementada pelos Estados Unidos.
Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo destacou que a inflação acima da meta está tanto nos segmentos mais voláteis, como administrados e alimentação no domicílio, quanto nos menos voláteis, de bens industriais e serviços. O presidente do BC ainda destacou o impacto do repasse cambial para a inflação de alimentos.
“O que é importante colocar aqui é o quanto que os custos estão ligados ao câmbio, mesmo agricultura familiar ou agropecuária total”, disse Galípolo, destacando também que há em torno de 60% a 70% da produção de commodities e alimentos ligados diretamente ou com alguma correlação elevada com o câmbio.
Sobre o cenário externo, o presidente do BC citou o balanço de riscos da primeira reunião de 2025 do Comitê de Política Monetária (Copom). Galípolo destacou que a possibilidade do impacto tarifário produzir alguma desaceleração na economia americana, e por consequência, na economia global, “foi ganhando força” ao longo do primeiro trimestre deste ano.
Tratando da atuação de bancos centrais em países emergentes, o presidente do BC explicou que há uma complexidade adicional para autoridades monetárias desses países pois devem considerar o cenário internacional. Galípolo afirmou que a depender do cenário externo, há efeito na dinâmica da economia interna e muitas vezes cabe à autoridade monetária do país emergente ter de responder aumentando o prêmio.
Galípolo mostrou um gráfico que comparava a situação do Brasil, México e Colômbia em 2024. O presidente do BC destacou que em dezembro do ano passado a atratividade de investir em real estava maior do que investir em peso mexicano. O gráfico explicava que, quanto maior o diferencial entre a taxa de juros da moeda local e da moeda externa, maior tende a ser a sua atratividade para investidores estrangeiros.
Segundo Galípolo, o processo no final do ano de elevação da taxa de juros no Brasil “direcionou para que você pudesse ultrapassar o prêmio para quem estava apostando, por exemplo, em moeda mexicana e tornar menos atrativo apostar contra a moeda brasileira”.
Galípolo comentou que as autoridades monetárias estão geralmente no contracíclico, controlando uma economia que está andando rápido demais e gerando pressão inflacionária, por exemplo. Segundo o presidente do BC, essa é uma regra praticamente de “livro-texto” de banqueiro central de uma economia avançada, mas o banqueiro central de uma economia emergente deve considerar o cenário internacional em adição.
“Ou seja, a política monetária do país que detém a moeda internacional também tende a afetar o valor da nossa moeda, a dinâmica da nossa economia e a partir daí muitas vezes cabe ao banco central ter de responder aumentando, por exemplo, o prêmio, função de um momento de aversão a risco”.
Em seguida, Galípolo destacou um exemplo hipótetico. “Se eu tenho uma aversão a risco aumentando e você entende que o papel de um país emergente é um papel que apresenta maior risco, muitas vezes você vê autoridades monetárias de países emergentes, mesmo em momento de desaceleração econômica, tendo de manter as taxas de juros mais elevadas, para oferecer um prêmio maior para quem decidir investir no país e aí conter um processo de desvalorização na sua própria moeda”.
Ao responder as últimas perguntas, Galípolo destacou que o mandato do BC é a meta de inflação “e o câmbio vai ter um impacto a partir do “pass-through” [repasse] que ele tem para a inflação. É isso que a gente vai estar sempre analisando”, disse.
Fonte: Valor Econômico