A descompressão dos ativos brasileiros está condicionada à capacidade do governo de conseguir apresentar uma agenda de corte de despesas minimamente sólida e crível, afirma o novo economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros.
Ao Valor, em sua primeira entrevista no novo cargo, Leal nota que o mercado “está com muito medo de haver uma mudança no arcabouço fiscal” e observa que os preços dos ativos estão bastante deprimidos, ao citar a bolsa “barata” e a curva de juros mais “inclinada”. “Se o governo conseguir encerrar esse ruído e encaminhar o ajuste do lado da despesa, o efeito colateral nos ativos pode ser muito positivo.”
Valor: O câmbio tem sido bastante pressionado recentemente… O cenário ainda é de dólar forte?
Gabriel Leal de Barros: O cenário é de dólar forte, até porque o Federal Reserve deve demorar para ganhar confiança para um corte nos juros e isso deve deixar o dólar forte. Neste ano, no nosso cenário, só teria um corte, lá em dezembro. É um problema para moedas emergentes. Mas fatores domésticos também estão influenciando o câmbio. O real tem sido afetado por uma soma de fatores, algo como 2/3 de vetores externos e 1/3 de questões domésticas. As moedas emergentes vão ficar fracas por causa desse cenário de juros americanos, mas algumas coisas estão fazendo o real se depreciar mais que os pares, o que mostra um problema na condução da política econômica no Brasil. O real é a pior moeda no bloco de emergentes. Os preços dos ativos dizem que houve uma deterioração doméstica.
Valor: E quais os problemas de condução da política econômica do Brasil? A que se refere, exatamente?
Leal: O fiscal é uma parte relevante dessa equação, mas não é só isso. Acho que a própria decisão dividida do Banco Central na última reunião [do Copom] adicionou muita volatilidade. E a comunicação [do BC] depois também não ajudou a reduzir essa volatilidade. No fiscal, de lá para cá, só se fez mais expansão. A percepção do fiscal se deteriorou. Não mudou nada nos números mês a mês, mas
Valor: O que mudou, então?
Leal: Em abril, quando o governo mandou as diretrizes do orçamento de 2025 e revisou a meta de primário, houve piora relevante. O próprio governo tinha alimentado uma expectativa no mercado de que poderia incluir medidas de redução de gastos, tema que voltou à mesa agora, mas elas foram muito tímidas. Então, a percepção mudou bastante, ainda que os resultados do Tesouro estejam vindo em linha com o esperado. Vale destacar o “copo meio cheio”, que é a arrecadação subindo mais de 8% acima da inflação, muito acima do PIB. É muito forte. Isso é resultado das medidas que o [ministro da Fazenda Fernando] Haddad conseguiu aprovar no ano passado. Mas gerou uma fadiga. A impressão que eu tenho é que o Congresso não consegue mais aprovar medidas pelo lado da receita. Esse sempre foi o problema do arcabouço fiscal.
Valor: Como assim?
Leal: Quando o governo propôs o arcabouço, uma das minhas críticas era que ele só ficaria de pé em um cenário muito benevolente, com o ambiente externo muito bom – o que a gente vê que não está – e de crescimento econômico [no Brasil]. Além disso, o arcabouço tem também algumas inconsistências de origem – que o mercado, inicialmente, deixou de lado, mas com as quais, agora, está mais preocupado -, como a volta da vinculação de [gastos em] saúde e educação à receita. Eu considero um erro primário, de regras fiscais de primeira geração. É uma regra muito antiga, defasada, porque esse tipo de coisa reduz muito o espaço dos gastos discricionários [não obrigatórios]. Outro ponto importante foi a decisão de voltar com a política de valorização do salário mínimo, que também pressiona o cumprimento da regra fiscal, porque ele indexa muitas despesas obrigatórias. Está contratado um crescimento de gasto de 2% ao ano. O intervalo [para alta das despesas] de 0,6% a 2,5% com que o arcabouço trabalha no papel é difícil de se entregar na prática.
Valor: Quais medidas de contenção de despesas gostaria de ver?
Leal: Um ponto importante é que a gente não tem, até hoje, “big data” cruzando os benefícios concedidos pelo CPF. A ausência disso faz com que se pague muito benefício irregular. Acho que tem um potencial grande de economia aí, por baixo, de uns R$ 15 bilhões. Outro ponto importante, que o [presidente] Lula fez no primeiro mandato, é a fusão de políticas sociais, tipo um “Bolsa Família 2.0”. Em 2017, um estudo do Banco Mundial mostrou uma sobreposição de políticas sociais, na média, de 20%. Haveria uns R$ 20 bilhões adicionais para economizar. Só nisso, dependendo da ambição do governo, poderia ter R$ 35 bilhões que não precisam passar pelo Congresso.
Valor: Reduzir benefícios de cada família não é politicamente difícil?
Leal: Isso abre um espaço para você ampliar o potencial de pessoas que deveriam estar recebendo e não estão por causa do pagamento de benefícios irregulares. Outra medida importante, mas difícil politicamente, é mexer no abono salarial. Se ele fosse limitado para as pessoas que recebem, por exemplo, até um salário mínimo, daria para economizar bastante dinheiro, mais de R$ 200 bilhões em 10 anos. Diferentemente das duas outras medidas, a do abono não é para o curtíssimo prazo. É algo mais estrutural, o que também chegaria às expectativas de mercado.
Valor: Que se deterioraram bastante recentemente…
Leal: O mercado já está muito machucado. O nível da bolsa é muito baixo e ela está super barata; a curva de juros está super inclinada… Se o governo conseguir endereçar essa agenda pelo lado das despesas, poderemos ter uma descompressão tanto na bolsa quanto nos juros, mas é condicional a termos alguma coisa minimamente sólida, crível. O mercado está com muito medo de haver uma mudança no arcabouço fiscal. Se o governo conseguir encerrar esse ruído e encaminhar o ajuste do lado da despesa, o efeito colateral nos ativos pode ser muito positivo.
Valor: O Congresso tem disposição para cortar despesas?
Leal: O Congresso tentou colocar a pauta da reforma administrativa na mesa, mas não foi correspondido pelo Executivo. Parece que o Congresso está, sim, disposto a aprovar medidas pelo lado dos gastos. Não qualquer uma, é verdade, mas acho que tem alguma disposição. É difícil avaliar o tamanho da disposição, mas acho que tem alguns passos para aprovar. Teve também uma tentativa de puxar a pauta do fim dos supersalários. Na parte do funcionalismo público, parece que há alguma disposição.
Valor: E em relação ao Copom? O ciclo de cortes de juros acabou?
Leal: Sim, e acredito que a decisão desta semana será unânime. Precisa ser e acho que será. Ficou muito explícito o custo de uma decisão dividida e com comunicação truncada. Acreditamos que o BC vai fechar a porta [para novos cortes] e encerrar o ciclo. Se, no futuro, tiver condições, o BC vai ter várias reuniões para poder se comunicar com o mercado sobre uma mudança de cenário. Mas, agora, temos uma desancoragem muito grande das expectativas. Seria arriscado o BC deixar a porta aberta diante dessa desancoragem e da piora fiscal.
Valor: No cenário da ARX, a Selic só volta a cair em 2025. Por quê?
Leal: O fator global vai ajudar, com o Fed cortando juros em dezembro e continuando no ano que vem. Isso abre espaço para uma retomada do ciclo aqui. Vemos uma redução de 1 ponto percentual, ancorada na potência da política monetária. A atividade não desacelerou antes porque a política fiscal está expansionista… Mas acreditamos que a política monetária funciona e que o BC conseguirá cortar mais o juro ano que vem.
Fonte: Valor Econômico