Dados da B3 sobre a posição em dólar futuro, minidólar e cupom cambial (DDI) mostram que, desde que o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais foi conhecido, os investidores institucionais locais ampliaram a posição vendida em dólar (que ganha com a queda da moeda americana) de US$ 54,047 bilhões em 30 de setembro, último pregão antes do primeiro turno da eleição, para US$ 58,448 bilhões na quinta. Ou seja, se desfizeram de dólares em volume equivalente a US$ 4,401 bilhões no período. O dólar, que rondava os R$ 5,40 antes do primeiro turno, caiu a R$ 5,21 na sexta-feira.
A eleição de um Congresso cujo perfil é mais conservador deu apoio aos ativos brasileiros logo após o primeiro turno e diluiu parte das incertezas em relação aos rumos da política fiscal no próximo governo. Assim, se mesmo antes da eleição algumas casas já adotavam uma perspectiva mais otimista em relação aos mercados locais, esse viés se fortaleceu, ao menos no curto prazo.
“Ficamos um pouco mais positivos com o real. A moeda ficou ‘para trás’ e o mundo dos mercados emergentes não tem muita opção para investir. O Brasil está se tornando uma das poucas alternativas com preço bom”, observa Reinaldo Le Grazie, sócio-fundador da Panamby Capital e ex-diretor do Banco Central. Para ele, diante da falta de opção de investimento entre os grandes mercados emergentes e de um sentimento mais positivo no período pós-eleitoral, o câmbio local pode ser favorecido, ao menos no curto prazo.
“Para o mercado, o resultado da eleição foi muito bom. Havia o receio de não ter segundo turno na eleição presidencial, o que seria considerado ruim pela falta de discussão sobre a condução da economia. Esse debate já aparece um pouco agora. Além disso, o mercado gostou um pouco da configuração de um Congresso mais conservador”, diz Le Grazie.
E, embora ressalte que a situação fiscal brasileira à frente continua indeterminada, o sócio da Panamby afirma que a casa tem um viés mais otimista com os ativos brasileiros no momento e mais preocupado com os mercados globais. “É um cenário um pouco melhor em um mundo muito difícil. Para a bolsa, isso parece bom. E, se a bolsa andar, ela deve levar junto a moeda”, diz.
Ao observar o cenário para investimentos na América Latina, o chefe de pesquisa global da Ashmore, Gustavo Medeiros, cuja perspectiva para os ativos brasileiros já era bastante positiva antes mesmo da eleição, avalia que “o principal risco tem sido político nos últimos anos”. Para ele, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), que concorrem no segundo turno ao Planalto, já eram bem conhecidos pelo mercado, não houve uma grande surpresa. “Há incertezas, mas que não indicam uma mudança de paradigma”, enfatiza o profissional.
Medeiros diz que a sinalização de Henrique Meirelles foi “positiva” e ressalta que economistas como Arminio Fraga, Persio Arida e Edmar Bacha apoiam Lula neste momento. “E, por outro lado, Bolsonaro deve continuar com a política de Estado pequeno, que foi positiva para os mercados.”
De acordo com a B3, desde o fim do primeiro turno da eleição o investidor internacional reduziu sua posição comprada em dólar em US$ 3,763 bilhões, para o total de US$ 24,853 bilhões. A Ashmore, inclusive, mantém visão positiva para os ativos brasileiros. “Com a inflação entrando em controle, um crescimento mais sustentável e os termos de troca mais favoráveis, precisaria ocorrer uma política econômica muito mal endereçada para atrapalhar a recuperação dos ativos locais”, diz Medeiros.
Visão semelhante é adotada pela Kinea Investimentos que, neste momento, tem preferido alocação nos ativos brasileiros em relação aos globais. “A foto do Brasil hoje frente os pares e países desenvolvidos está melhor. Temos superávit primário neste ano; a foto fiscal está melhor que os pares; o déficit em conta corrente é moderado e perfeitamente financiado; e estamos bem avançados no ciclo de política monetária”, apontou a economista para Brasil da Kinea, Daniela Lima, durante “live” mensal da gestora.
“A incerteza hoje decorre de quem vai ser o próximo presidente”, mas, para ela, independentemente de quem estiver no cargo, “os incentivos vão para, pelo menos no início do governo, termos uma agenda fiscal mais moderada e uma sinalização fiscal positiva”. Lima enfatiza que os ativos brasileiros, em termos de “valuation”, estão bem atrativos neste momento. Não por acaso, a gestora está comprada em real e em bolsa brasileira e tem, ainda, posições vendidas em inflação, ou seja, aposta na queda da inflação “implícita”.
Em sua carta deste mês, a Kinea aponta que o racional para a posição comprada em real “é uma visão tática mais proativa com o Brasil, em razão de juros atrativos, contas externas balanceadas e nossa expectativa de que o próximo governo tenha uma postura fiscal razoável no início de mandato”.
Embora haja um maior otimismo com o real e com outros ativos brasileiros no momento, uma parte do mercado continua a defender maior cautela com o comportamento da moeda à frente. É o caso da SulAmérica Investimentos, que tem optado por operar o real de forma mais tática no momento, na medida em que não há, ainda, uma boa definição sobre o arcabouço fiscal a vigorar a partir de 2023 e diante de um ambiente global de dólar forte que continua a vigorar.
“Estamos vivendo um mundo de incertezas muito maiores do que tínhamos no pré-pandemia”, observa Alexandre Caldas da Cunha, gestor sênior dos fundos multimercado da SulAmérica. “Achamos que, se tivermos uma definição melhor e mais positiva sobre como vão ser as diretrizes econômicas do novo governo, seja ele qual for, até porque vamos ter uma mudança na estrutura do teto de gastos, existe potencial para que o real se aprecie. Isso, porém, não está claro ainda.”
O profissional da SulAmérica observa que há alguns sinais de melhora do câmbio, como o rali do real observado no pregão após o primeiro turno das eleições presidenciais. Em apenas um dia, o dólar caiu mais de 4% ante o real. “Mas, no patamar atual do dólar, considerando o cenário global e as incertezas aqui do Brasil, não vemos grandes oportunidades no câmbio neste momento”, diz.
Caldas da Cunha afirma, ainda, que continua a ver um ambiente global de dólar forte, embora ressalte que a moeda americana tem operado em um nível “extremamente valorizado” neste momento. “Não me surpreenderia que a gente parasse de ver o dólar apreciando tanto contra essas grandes moedas. Podemos ter um momento de equilíbrio instável, em que há mais volatilidade e em que podemos não ver tanta força do dólar assim”, diz. A SulAmérica tem, hoje, posições compradas em iene.
Embora também adote uma visão mais otimista com Brasil, a XP Asset Management acredita que a melhor forma de expressar isso no momento é na bolsa, e não no câmbio. Em “live” para a apresentação do cenário macro, Bruno Marques, sócio e gestor dos fundos multimercado da XP Asset, apontou que o nível de equilíbrio do câmbio no Brasil, que oscilava entre R$ 4,80 e R$ 4,90 por dólar, tem convergido para níveis mais altos, em torno de R$ 5,15. “Parece que não tem esse prêmio todo no câmbio”, afirmou.
“Não parece que vem daí [do câmbio] a grande assimetria”, diz Marques. Na visão dele, a bolsa é, no momento, o mercado que parece o mais assimétrico para se apostar a favor neste momento. Assim, a gestora tem posições compradas em bolsa. “A bolsa tem prêmio e, nesse cenário de atividade mais forte, com crescimento de 3%, a bolsa, de fato, parece ser o ativo mais assimétrico para apostar nessa melhora.”
Fonte: Valor Econômico
