Em meio à guerra no Golfo Pérsico e sob a ameaça do repique inflacionário global, o Brasil vive um paradoxo: a bolsa brasileira bate recordes enquanto o mundo foge do risco. De forma mecânica, as altas do Ibovespa têm como alavanca o capital gringo. Até o dia 14 de abril, a bolsa recebeu o maior fluxo estrangeiro da história para o período em aportes líquidos, com quase R$ 69 bilhões de investimentos mais do que saques no mercado secundário de ações neste ano – dos quais mais de R$ 15 bilhões entraram apenas nos últimos cinco pregões.
Mas o que atrai os dólares para o Brasil no atual cenário?
Essa resposta é composta por um mosaico de fatores endógenos e exógenos, sendo o principal deles as perspectivas para os cortes de juros no país. Sobre isso, Emy Shayo, estrategista-chefe de ações para América Latina do J.P. Morgan, resume: “o mundo todo já cortou juros, falta o Brasil.”
Nesse sentido, o país é, hoje, um dos mercados com maior espaço para reduzir suas taxas de referência – e, conforme indicado pelo próprio presidente do Banco Central (BC) do Brasil, Gabriel Galípolo, com uma certa “gordura” para isso após um ano de Selic em 15% ao ano.
Essa assimetria na política monetária sugere que o país tem espaço para cortar juros, enquanto outras economias – tanto desenvolvidas quanto pares emergentes – já encerraram ou estabilizaram seus ciclos de afrouxamento.
Nos Estados Unidos, o mercado vê margem para afrouxamento de meio ponto percentual nas taxas, com mais dois cortes de 0,25 ponto percentual de forma tecnicamente segura entre este e o próximo ano. Já no Brasil, no começo deste ano, a maioria do mercado via espaço para queda de 3 pontos percentuais na Selic. Com a guerra, os degraus ficaram menores, mas o horizonte geral ainda é de alívios que somem entre 2 e 2,5 pontos percentuais até dezembro.
Porém, só a mera confirmação de que a rentabilidade da renda fixa cairá – ainda que num horizonte não tão próximo – tem a capacidade de destravar o apetite por risco represado por anos de juros nas alturas e cria um panorama de maiores ganhos corporativos num futuro em que as empresas teriam menos gastos com os juros de suas dívidas.
“O investidor global estava sobrealocado nos Estados Unidos, com uma exposição muito além do peso do país nos índices“, diz Shayo. Estimativas de mercado apontam que entre 70% e 75% do capital de risco mundial repousava sobre a renda variável americana até o fim de 2024.
A grande rotação de recursos para fora dos EUA – um movimento que beneficia, entre outros países, o Brasil e emergentes desde o início de 2025 – não é, portanto, apenas anti-risco, mas principalmente anti-concentração do capital investidor.
Não por coincidência, foi nesse período que o Ibovespa superou sua máxima em termos reais, ou seja a pontuação conhecida do Ibovespa, ajustada pela inflação acumulada desde maio de 2008, que foi o pico histórico do índice até então.
O recorde nominal já havia sido renovado muitas outras vezes antes. Mas o real, que desconta a ilusão do dinheiro desvalorizado e revela o ganho efetivo de quem investiu, levou 18 anos para chegar. E chegou com o dinheiro de fora na ponta compradora.
Mudança de cenário no Golfo Pérsico
Lá fora, com Donald Trump pressionado politicamente nos Estados Unidos, nascem indícios de que o governo americano tentará forçar uma saída diplomática com o Irã. Por isso, se um horizonte de aumento dos juros no Brasil já havia sido descartado, neste momento, volta a ganhar força a tese de que o BC conseguirá promover os cortes na Selic no ritmo esperado – em quedas de meio ponto percentual por reunião, mais adiante.
A situação era, de certa forma, esperada por conta do horizonte de cortes dos juros que dominaria o primeiro trimestre de 2026 no Brasil, mas ainda assim surpreendeu até os mais otimistas entre os analistas locais.
O mercado não conseguiu prever a intensidade nem a forma como esse fluxo entrou no país, mesmo diante da escalada do risco geopolítico global.
Apenas em janeiro e fevereiro – antes da eclosão da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã -, os investidores estrangeiros aportaram R$ 42 bilhões a mais do que venderam só em ações no mercado à vista da B3, um volume que superou em 64% o capital alocado nesses ativos em todo o ano de 2025. Embora o fluxo tenha desacelerado em março, mês marcado pela escalada dos conflitos no Golfo Pérsico, não inverteu sua direção.
Foi a partir do dia 23 de março, quando Trump começou a dar indícios de que buscaria uma saída diplomática para o conflito em meio à deterioração da imagem do seu governo e à exposição de rachaduras na sua base governista, que esse fluxo voltou a ganhar tração.
As táticas agressivas de negociação do presidente americano ainda inspiram cautela – especialmente em se tratando de um interlocutor como o Irã, que já sofre um embargo total dos EUA há 30 anos. Ainda assim, o mercado tem conseguido medir melhor os passos de Trump e sugere ter captado suas intenções de abandonar o conflito, o que destravou o “trade de alívio“.
Significa que os investidores aumentaram em seus modelos matemáticos a probabilidade de que EUA e Irã alcancem um acordo de trégua e encerramento desses conflitos. E, como parceiro americano, é bastante provável que Israel seja obrigado a respeitar a decisão.
Dados de desempenho de índices globais de referência (MSCI) mostram que a carteira de ativos brasileiros foi a que teve maior recuperação de lá para cá. Entre 23 de março, sob os primeiros sinais das intenções dos EUA de negociar com o Irã, até o dia 9 de abril, o MSCI Brasil subiu mais de 14%.
Não é um fator isoladamente brasileiro, e sim um que atinge os mercados fora dos EUA em geral – especialmente os emergentes -, mas o Brasil ocupa um espaço de destaque nesse quadro.
Desempenho dos principais mercados globais em 2026
| Mercado (índice MSCI) | No ano* | Saldo desde o início da guerra** |
| Coreia do Sul | 0,409 | -9,90% |
| Brasil | 0,264 | 0,042 |
| Taiwan | 0,219 | -2,80% |
| México | 0,15 | -2,20% |
| Emergentes (geral) | 0,094 | -4,80% |
| Japão | 0,087 | -6,10% |
| África do Sul | 0,054 | -11,20% |
| Europa | 0,038 | -3,80% |
| Mundo (geral) | 0,023 | -2,00% |
| Desenvolvidos (geral) | 0,014 | -1,60% |
| EUA | -0,20% | -0,60% |
| China | -5,40% | -4,10% |
| Índia | -10,30% | -6,80% |
Fonte: Elaboração: Marcelo d’Agosto | *Retorno total em dólares até 9 de abril | **Início do período em 2 de março
Do início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, o MSCI Brasil era a única carteira que havia conseguido virar completamente o jogo até o dia 9 de abril, estando 4,15% acima do patamar deixado no dia 27 de fevereiro – antes da eclosão dos ataques – enquanto todo o resto seguia abaixo do nível pré-conflitos no Golfo Pérsico.
No plano geral, do início do ano até 9 de abril, o MSCI Brasil, com mais de 26% de alta no período, aparecia atrás apenas do MSCI Coreia do Sul, com quase 41% de ganhos no ano em função do forte rali da carteira entre janeiro e fevereiro. Agora – e ao menos por enquanto -, o cenário joga a favor do Brasil.
Configurações do fluxo externo
Shayo, do J.P. Morgan, explica que o fluxo estrangeiro no país se baseia em cinco pilares. Além das perspectivas de flexibilização monetária, que podem ganhar força à medida que os riscos geopolíticos se dissipam, outros elementos tornam o mercado brasileiro – e latino-americano – uma espécie de porto seguro para os gringos.
Por isso, hoje os investidores estrangeiros respondem por cerca de 62% do volume médio diário negociado na bolsa local, a B3, uma participação que era de 51% cinco anos atrás.
A América Latina é lida por gestores de portfólios globais como imune à disrupção provocada pela inteligência artificial (IA), o que passou a ser lido como virtude numa era dominada pelos riscos de perda de mercado ligados à nova tecnologia. O foco na região recai sobre ativos reais: energia, saneamento e commodities (como lítio, terras raras e petróleo), que não se digitalizam e não se obsoletizam com um modelo de linguagem.
Além de não serem indústrias ameaçadas pela IA, são essenciais para essa infraestrutura. Neste sentido, o Brasil se destaca com as segundas maiores reservas de terras raras do mundo e uma balança de petróleo superavitária, argumentos que encontram eco em gestores globais que passaram os últimos anos sobreinvestidos nas gigantes de IA.
Um terceiro pilar desse movimento para o Brasil é a leitura do ambiente político local em 2026.
Para muitos investidores locais, o futuro do mercado será definido com a corrida eleitoral a partir do segundo semestre deste ano. Mas, para o investidor externo, embora as eleições provoquem mais volatilidade nas negociações, ainda não foram mapeados riscos estruturais, ou seja, de uma ruptura regulatória ou política radical no país, que traria mais incertezas à mesa.
Outro ponto, no qual analistas insistem há anos, é que as ações brasileiras estão baratas tanto da perspectiva global (entre emergentes) quanto considerando a própria média histórica. Não necessariamente o valor baixo por si só moveria o capital investidor, mas, no contexto em que há projeção de retomada, esse fator se torna um diferencial.
O preço sobre lucro (P/L, que mostra a relação entre o preço de um ativo dividido pelo lucro por papel) histórico do Ibovespa ronda entre 10 e 11 vezes e, em períodos de otimismo elevado no mercado financeiro do Brasil, pode beirar 20 vezes.
Atualmente, mesmo com o recorde, o P/L do Ibovespa ainda gira abaixo de 10 vezes. Há espaço para subir, portanto, só nessa correção, mas ainda pode ir além.
Porque então entra o fator mais técnico desse mosaico: reforço do fluxo na bolsa.
O investidor local está praticamente fora da bolsa brasileira há mais de um ano. A alocação em renda variável nos fundos de investimento brasileiros caiu para 8,3% do patrimônio total administrado, inferior à média histórica de 11%.
Mas se a perspectiva de continuidade dos cortes na Selic continuar amplificando o rali gerado pelo fluxo estrangeiro, os investidores domésticos serão forçados a buscar assimetrias no mercado local para arrancar ganhos com posições na renda variável local (seja via fundos de índices, os ETF, ou em papéis diretamente), o que engatilha um novo fluxo positivo para esse mercado.
Mas a dúvida recorrente entre analistas é se a bolsa brasileira tem tamanho e diversidade suficientes para absorver novos fluxos sem que se crie distorções nos mesmos poucos nomes de sempre. Este fator é especialmente relevante diante da realidade do capital estrangeiro, para o qual o teto de entrada do Brasil é tão menor quanto a liquidez do mercado local.
Porém Shayo ainda minimiza a preocupação em termos regionais: “Comparando o Brasil com outros mercados emergentes na América Latina, a porta de entrada da bolsa local é grande o suficiente“. Ela defende que o país se destaca no relativo por ter todos os setores da sua economia bem representados, com papéis de gigantes que refletem essa qualidade e a participação na economia em termos de liquidez.
Mas mesmo a executiva do J.P. Morgan reconhece que, se colocado ao lado do que é hoje o topo no grupo dos emergentes, o Brasil fica minúsculo. Considerados os quatro maiores mercados asiáticos no MSCI Emerging Markets – Coreia do Sul, Taiwan, China e Índia -, a nossa bolsa perde em todos aspectos técnicos: tamanho, variedade e liquidez.
Durante períodos de choques, no entanto, o mercado brasileiro pode oferecer outra vantagem ao estrangeiro: seu distanciamento dos conflitos geopolíticos e autonomia material. Por isso o Brasil, ainda que não um protagonista no panorama de investimentos global, não passa completamente despercebido lá fora.
O paradoxo brasileiro
O fluxo recente de dólares no Brasil, que no mercado local tem grande impacto, representa apenas uma fração ínfima do volume negociado em ações globalmente.
O maior mercado de ações do mundo, o americano, negociou em média entre US$ 400 bilhões e 450 bilhões por dia no primeiro trimestre deste ano, um período já pressionado pela guerra no Golfo Pérsico.
No Brasil, o giro médio da bolsa entre janeiro e março deste ano ficou em R$ 26 bilhões por dia (equivalente a menos de US$ 5 bilhões), o que corresponde a cerca de 1% do volume médio movimentado no mercado americano.
Isso significa que o impacto doméstico é desproporcional ao tamanho do fluxo absoluto – reflexo tanto da liquidez relativamente menor da B3 quanto do peso dos estrangeiros, que respondem por mais de 60% do volume negociado aqui.
“Porém um gestor não coloca o capital de seu fundo num mercado em que não vê retorno apenas por estar subalocado nele, e sim porque enxerga assimetrias que abrem espaço para ganhos em regiões diversas”, diz Shayo.
Shayo explica que, no começo do ano, a expectativa de lucros corporativos nos mercados emergentes como um todo era de 28%, o dobro da expectativa para mercados desenvolvidos, de 14%.
Já sobre o fluxo para o Brasil, a maior parte do capital estrangeiro vem de fundos globais que fazem alocações táticas em outros mercados de forma indexada – por aqui, especialmente ligados ao EEM, o ETF de mercados emergentes, ou ao EWZ, o ETF de referência de mercado brasileiro que segue o MSCI Brasil, cujo o número de cotas cresceu 76% só em 2025.
Consequentemente, o fluxo que sacode o mercado acionário local hoje é direcionado majoritariamente para as empresas gigantes da bolsa.
“Quando o investidor entra em um produto que replica o Ibovespa, na prática, ele está comprando basicamente Petrobras e Vale – empresas que refletem o preço do petróleo e do minério de ferro, mas não necessariamente a capacidade brasileira de gerar valor”, diz Cauê Mançanares, CEO da gestora Investo, especializada em ETFs.
Além das grandes exportadoras, o MSCI Brasil está exposto principalmente ao setor financeiro local. Por isso, para o CEO da Investo, o próximo passo desse capital gringo no mercado brasileiro no contexto do estirão da bolsa é a migração para ETFs temáticos que capturem setores da economia doméstica mal representados hoje pelas carteiras principais, casos das ações de utilities (serviços públicos).
Mas mesmo Mançanares reconhece que há barreiras pragmáticas nesse mercado. A começar pela liquidez e tamanho do fundo.
“Um gestor estrangeiro que queira alocar R$ 100 milhões em um ETF precisa que o fundo tenha ao menos R$ 400 milhões em patrimônio para que seu aporte não represente mais de 25% do todo”, explicou. A Investo tem dois ETFs prestes a cruzar a marca de R$ 1 bilhão, o que coloca a oferta no radar gringo, mas ainda num estágio inicial para captação institucional estrangeira relevante.
Essa concentração do fluxo nos grandes nomes explica, em parte, a disparidade de desempenho observada na bolsa: enquanto as blue chips de maior peso no índice registraram valorizações expressivas, as empresas de menor porte ficaram para trás.
O índice de empresas de baixa capitalização na bolsa (chamadas small caps) acumula desempenho muito inferior ao Ibovespa neste ano, de menos de 11% contra mais de 23% até o dia 14 de abril.
Já o Ibovespa que levou 18 anos para bater seu recorde real só chegou lá com ajuda externa. E a trégua de duas semanas entre Washington e Teerã ainda não responde se esse dinheiro veio para ficar. Mas, por ora, ele não deu sinais de ir embora.
Fonte: Valor Investe
