Em um ano com emissões de gases-estufa aceleradas pelas guerras e com agravamento da crise climática, qualquer passo dado pelo maior emissor do planeta, a China, conta muito -ainda mais considerando-se que o maior emissor histórico e o segundo no ranking atual, os Estados Unidos, atua em direção a causar mais danos planetários. Há poucos dias, Pequim lançou o 15º Plano Quinquenal 2026-2030. Para o clima, trata-se de um dragão de duas cabeças. Não está claro qual das duas será mais forte.
“No 15º Plano Quinquenal a China mudou sua estratégia econômica, passando de um modelo que priorizava a velocidade para uma abordagem que prioriza qualidade, com o objetivo de garantir sustentabilidade a longo prazo”, diz ao Valor Tim Buckley, diretor do think tank Climate Energy Finance, baseado na Austrália.
A perspectiva chinesa é de uma queda de 3,8% nas emissões de CO2 por unidade de PIB para 2026 e crescimento do PIB de 4,5% a 5,0%. Isso representa aumento de 1% nas emissões em 2026, depois da queda histórica de 0,3% de 2025.
No total, o novo plano reduzirá emissões de carbono por unidade de PIB em 17% até 2030, mas isso não tem a ambição que a ciência exige. “E pode fazer com que a poluição por carbono aumente ao longo do Plano Quinquenal”, diz.
Uma das cabeças do dragão prevê aumento na energia de hidrogênio. Um novo lote de projetos-piloto será implementado para suprir lacunas de carregamento de baterias e incentivar ainda mais os veículos elétricos. Os gastos nacionais em pesquisa e desenvolvimento devem crescer 7% ao ano durante 2026-2030. A energia não fóssil (o que inclui nuclear) deve chegar a 25% do consumo de energia primária até 2030 -era 20% no período anterior. O país vai adicionar energia hidrelétrica, eólica offshore e nuclear.
“As ambições da China em renováveis e no sistema doméstico de zero emissões permanecem robustas e liderando o mundo”, diz o analista. “A maior ameaça às ambições climáticas da China são os ataques dos EUA à Venezuela e ao Irã este ano“, diz Buckley. “Como resultado, a China intensificou seus investimentos em usinas domésticas de carvão para converter carvão em produtos químicos e combustíveis líquidos altamente intensivos em emissões e água. Isso mina o progresso da China na descarbonização”, avalia.
“Dada a turbulência no mercado global de petróleo com a guerra no Irã, a ênfase nos combustíveis verdes é particularmente notável. Isso sinaliza a intenção da China de reduzir ainda mais sua dependência do petróleo, 70% importado. A transição limpa – na forma de veículos elétricos e combustíveis verdes – é um meio fundamental para alcançar esse objetivo”, diz Yao Zhe, consultor global de políticas do Greenpeace East Asia, baseado em Pequim.
Fonte: Valor Econômico
