Em meio à escalada do conflito no Irã, o ambiente nos mercados globais tornou-se significativamente mais incerto, em um momento em que perdas têm sido observadas em diversas classes de ativos – inclusive naquelas tradicionalmente usadas como “hedge” (proteção) de investimentos.
Ao receber o Intraday, blog sobre mercados financeiros do Valor, no auge da turbulência nos mercados, o diretor de investimentos (CIO) da Legacy Capital, Felipe Guerra, afirmou que a gestora optou por reduzir suas posições e operar com menor risco na carteira enquanto avalia os desdobramentos da guerra e seus possíveis efeitos sobre a economia global e os preços dos ativos financeiros.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Valor: Quais mudanças a guerra trouxe para o cenário global?
Felipe Guerra: O cenário mudou radicalmente. Saímos de uma discussão sobre crescimento global sincronizado com um choque de produtividade, em que havia a visão de que o mundo poderia crescer com inflação controlada. Isso permitiria manter juros baixos e estímulos fiscais por algum tempo, favorecendo ativos mais ligados ao ciclo econômico. Era, em essência, um cenário muito positivo – talvez o mais otimista possível. Passamos, agora, para um cenário de guerra com crise energética, que é praticamente o pior cenário possível. O petróleo elevado funciona como um imposto para empresas e consumidores, reduzindo as perspectivas de crescimento e elevando a inflação. Em menos de dez dias, fomos de um cenário extremamente otimista para um cenário de choque negativo de crescimento e choque positivo de inflação. Mudou completamente.
Valor: O que muda para o Fed?
Guerra: Há uma característica institucional importante: pela credibilidade conquistada pelo Federal Reserve (Fed) ao longo do tempo, a meta de inflação nos EUA é analisada principalmente pelo núcleo da inflação, e não pelo índice “cheio”. Assim, choques vindos do petróleo tendem a ser tratados de maneira diferente na condução da política monetária. Parece pouco provável discutir alta de juros tão cedo. A tendência de crescimento da IA [inteligência artificial], substituindo trabalho humano por computação, tende a pressionar o mercado de trabalho ao longo do tempo. O cenário de médio prazo para os EUA é favorável em termos de dinâmica inflacionária. Passado o choque da guerra, o debate deve voltar para choques de produtividade. Antes, trabalhávamos com a perspectiva de que o Fed poderia cortar juros em quatro reuniões ao longo deste ano. Em essência, essa trajetória foi apenas empurrada para frente.
Valor: A incerteza é, de fato, elevada, mas com qual cenário para a guerra a Legacy trabalha agora?
Guerra: A duração da guerra e o grau de impacto sobre o parque energético serão determinantes para o cenário macroeconômico. Hoje é praticamente impossível ter precisão sobre isso. O cenário-base parece apontar para um conflito que não deve se prolongar por muito mais tempo, dado que os EUA estão próximos de atingir seus objetivos militares. A grande dúvida é como será estruturado o desfecho. Abrir o Estreito de Ormuz à força pode exigir mais tempo e gerar mais escaladas, porque cada ataque tende a provocar um contra-ataque. O regime iraniano busca preservar sua sobrevivência, enquanto os EUA parecem caminhar para uma vitória militar… É possível que o acordo final passe justamente por esse equilíbrio: vitória militar de um lado e sobrevivência do regime do outro. Mas há muita incerteza e é difícil fazer afirmações definitivas.
Valor: Como vocês têm navegado nesse ambiente de incerteza?
Guerra: Se o conflito continuar, as perdas tendem a aumentar. Se houver resolução, a recuperação pode ser rápida. Diante desse equilíbrio de riscos, nossa decisão foi a de reduzir a exposição, mas manter, de maneira geral, as mesmas posições que tínhamos antes do conflito. Diminuímos um pouco a exposição bruta e líquida para reduzir a volatilidade da carteira e para conseguirmos atravessar este período, especialmente ao longo de março, que tem sido bastante desafiador. A volatilidade está elevada e há um processo claro de depreciação dos ativos de risco.
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Valor: Os ‘hedges’ tradicionais, inclusive, não têm funcionado…
Guerra: Praticamente todas as classes de ativos têm sofrido: quem está em renda fixa perde; quem está em ouro perde; quem está em bolsa perde. Tanto mercados emergentes quanto desenvolvidos registram quedas. Há, portanto, uma perda generalizada de valor nos ativos neste momento. Se a situação se resolver rapidamente, provavelmente olharemos para trás e veremos esse período como uma grande oportunidade. Se não se resolver, talvez nos arrependamos de ter mantido posições ainda relevantes ao longo desse processo. É o grande desafio para a gestão.
Valor: Como o Brasil se encaixa nesse ambiente?
Guerra: O Brasil acaba sendo uma derivada do que acontece no exterior. Havia um cenário de crescimento global sincronizado, com a perspectiva de um choque de produtividade e isso gerou algum deslocamento de capital para fora do setor de tecnologia dos EUA, em busca de outros setores e outros países. Uma parcela desses recursos foi direcionada para mercados emergentes, incluindo o Brasil. Isso gerou efeitos relevantes: valorização do câmbio, melhora das condições financeiras, fortalece a renda fixa e também sustenta a bolsa, já que parte desses recursos acaba sendo investida em ações.
Valor: O tema segue presente?
Guerra: Sim, mas, no curto prazo, ficou em segundo plano por causa da guerra. Se o conflito se resolver rapidamente, como esperamos, essa dinâmica pode voltar ao centro das atenções. Nesse contexto de busca por ativos fora de tecnologia, o cenário também tende a favorecer commodities. O Brasil, como produtor de commodities, acaba sendo beneficiado, sobretudo quando combinado com juros domésticos elevados. Desde que o choque não leve a uma recessão global profunda, com queda de commodities, preços elevados das matérias-primas por algum tempo tendem a beneficiar o Brasil.
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Valor: A Legacy segue posicionada nos ativos domésticos?
Guerra: Reduzimos um pouco a exposição ao Brasil. Continuamos posicionados – em parte, via renda fixa, e em parte, via câmbio -, mas com uma exposição menor do que tínhamos antes do início da guerra, justamente para lidar com o nível de incerteza deste momento.
Valor: A bolsa está cara?
Guerra: Do ponto de vista do investidor local, ainda parece cara. Para decidir alocar capital em ações no Brasil, o investidor precisa encontrar retornos esperados superiores às taxas longas da renda fixa… Hoje, os FRAs longos na B3 estão em torno de 14%, enquanto o juro real gira entre 7,5% e 8%. Diante desse nível de retorno na renda fixa, o investidor local só faz a migração para a bolsa se enxergar taxas de retorno significativamente mais altas nas ações. Para o estrangeiro, a análise é diferente. Ele tem um custo de capital muito mais baixo e pode se beneficiar do ‘carry’ oferecido pelo Brasil. Nesse contexto, é possível construir um argumento de que a bolsa brasileira ainda pode ter espaço em portfólios internacionais.
Valor: Os eventos de crédito recentes no Brasil preocupam?
Guerra: Estamos convivendo com juros muito altos por um período prolongado. Empresas mais endividadas passam a enfrentar dificuldades relevantes, especialmente se surgirem problemas operacionais. Casos como Braskem e Raízen ilustram essa dinâmica: companhias que enfrentaram ruídos operacionais e que, ao mesmo tempo, carregam dívidas relevantes acabam tendo mais dificuldade para conduzir suas operações em um ambiente de juros elevados. Existe, sim, uma preocupação com a dinâmica de crédito no Brasil, já que ela depende de taxas de juros em níveis mais razoáveis para que a economia funcione de forma saudável. Além disso, houve uma entrada muito grande de recursos nessa classe de ativos nos últimos anos. Isso levanta dúvidas sobre como o mercado se comportará diante de algum choque.
Valor: O Copom ainda pode cortar a Selic nesta semana?
Guerra: O Copom deixou claro na última reunião que entende que o nível de juros já é bastante elevado e que estaria disposto a iniciar um ciclo de cortes. Um choque temporário no preço do petróleo tende a ter pouco efeito na condução da política monetária quando o horizonte relevante é de cerca de 18 meses. Como há espaço para iniciar o ciclo – algo que o próprio BC já indicou – parece razoável que, partindo de uma taxa de juros de 15%, o início ocorra em um ritmo de 0,50 ponto [nesta semana]. Caso o BC conclua posteriormente que o espaço para cortes é menor, pode reduzir a extensão do ciclo, ou seja, pode começar com um movimento de 0,5 ponto agora e reavaliar o ritmo nas próximas reuniões. Até lá, provavelmente haverá mais clareza sobre a evolução do cenário externo.
Fonte: Valor Econômico