Sem a certeza de que as negociações entre Estados Unidos e Irã vão, de fato, produzir algum resultado, o mercado já começa a assumir como cenário base o petróleo Brent acima de US$ 120 em abril para ter um alívio somente a partir de maio, diante da possibilidade de um fim do conflito no Oriente Médio. Ao menos é isso o que indicam diversas instituições financeiras, que passaram a trabalhar com a perspectiva de petróleo em níveis mais altos.
“Os preços, agora, enfrentam um novo nível estrutural, mais alto por mais tempo”, defende o chefe global de pesquisa em renda fixa, câmbio e commodities do Société Générale, Michel Haigh. Para ele, a intensificação do confronto entre EUA, Israel e Irã “elimina qualquer chance realista de desescalada no curto prazo, adiando nossa hipótese de reabertura do Estreito de Ormuz de março para um período ao longo do mês de abril.”
E, com pouco menos de 15 milhões de barris por dia de oferta do Golfo fora do mercado, paralisações crescentes em refinarias e aumentos dos riscos à infraestrutura, o banco francês passou a esperar que o Brent tenha uma média próxima de US$ 125 por barril em abril, com picos plausíveis de US$ 150.
Haigh alerta, ainda, que os preços podem subir “significativamente mais” caso o Estreito de Bab el-Mandeb, na extremidade sul do Mar Vermelho, seja efetivamente fechado, o que pode ocorrer diante da entrada dos Houthis na guerra. Para o fim do ano, o Société Générale elevou sua projeção para o Brent de US$ 65 para US$ 80. “O mercado está estruturalmente mais apertado, mais frágil e altamente sensível a novos choques.”
Na revisão de cenário divulgada ontem, o Itaú Unibanco, na equipe de economistas liderada por Mario Mesquita, também passou a considerar o petróleo mais caro ao longo da curva em relação ao cenário anterior, além de esperar que a média de preço do Brent em abril fique em US$ 125.
A entrada dos rebeldes Houthis do Iêmen também representa um ponto de atenção para a equipe de estrategistas de commodities do J.P. Morgan, comandada por Natasha Kaneva. “Embora sua atuação ainda não seja decisiva, ela introduz um segundo ponto de pressão marítima no Mar Vermelho, além do Estreito de Ormuz”, alerta.
“O conflito deixa de estar concentrado no Golfo Pérsico e no entorno de Ormuz e passa a se estender ao Mar Vermelho e ao estreito de Bab el-Mandeb — um dos principais gargalos globais para o fluxo de petróleo bruto e derivados. Na prática, dois dos principais corredores do comércio global de energia ficam simultaneamente expostos”, observam os estrategistas do banco americano. Assim, mais 5 milhões de barris por dia são colocados em risco, o que representa “uma vulnerabilidade que pode adicionar até US$ 20 por barril aos preços do petróleo”.
Fonte: Valor Econômico
