Por Matheus Prado e Victor Rezende, Valor — São Paulo
03/02/2024 16h15 Atualizado há um dia
O ambiente positivo para ativos de risco perdeu espaço desde o começo do ano e foi desafiado de vez nesta semana pelo tom cauteloso do Federal Reserve (Fed) e por sinais relevantes de um mercado de trabalho bem mais aquecido que o esperado nos Estados Unidos. Participantes do mercado classificam a reprecificação do cenário de juros americanos como algo de curto prazo, mas alguns já começam a reduzir a exposição a algumas teses. Nesse ambiente, o viés para os ativos brasileiros segue construtivo, mesmo que um tom mais cauteloso já comece a dar as caras.
Já havia, no mercado, a sensação de que a geração de empregos nos EUA em janeiro poderia ser mais forte que o apontado pelo consenso de projeções, em torno de 185 mil vagas. No entanto, com 353 mil postos criados no mês passado e uma revisão altista dos meses anteriores, o mercado se assustou e pôs em xeque a tese de que uma redução nos juros pelo Fed é iminente, ao se ter em vista, ainda, a alta acima do esperado dos salários.
“O ‘payroll’ [relatório de emprego dos EUA] trouxe um número inequivocamente forte, em que pese o fato de ser apenas uma leitura, especialmente porque na atual fase do ciclo já se espera uma desaceleração do mercado de trabalho e dos salários”, diz o chefe de gestão das estratégias macro do Opportunity, Marcos Mollica. Ele lembra que, na quarta-feira passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, também adotou um tom mais conservador, o que resultou em mudanças na precificação de quando o ciclo de flexibilização monetária do Fed terá início. “O payroll levanta dúvidas sobre um processo de desinflação que está avançando, mas não está concluído”, afirma.
Mollica, assim, avalia que há risco de atraso no início do ciclo de redução de juros nos EUA e dúvidas crescentes sobre o tamanho desse processo de ajuste. “Foi um dado muito forte, que tira ímpeto do mercado e convida a reduzir exposição para reavaliar o cenário. Fizemos isso, principalmente na renda fixa americana nas apostas de taxa ‘terminal’, mas seguimos ‘aplicados’ [apostando na queda das taxas]. Teremos mais dados para analisar até a próxima decisão do Fed e continuamos confiantes em relação ao processo desinflacionário da economia americana.”
O mercado, de fato, ainda parece confiante em torno da desinflação nos EUA. Apesar da disparada dos rendimentos dos Treasuries, com a taxa de dez anos novamente acima do nível psicológico de 4%, a inflação “implícita” seguiu bem comportada e próxima da meta de 2%. De acordo com dados da distrital de St. Louis do Fed, a inflação implícita de cinco anos nos EUA subiu de 2,17% na quinta-feira para 2,19%, bem afastada do pico de 2,52% alcançado em outubro.
Vale notar, porém, que o mercado já não embute mais nos preços uma redução nos juros em março e, em maio, as chances já estão bem divididas. “Os dados do payroll são uma pedra no meio do caminho para a visão de que o mercado de trabalho estava mais fraco”, afirma Michael Bazdarich, especialista de produtos da Western Asset. “Mais trabalhadores estão trabalhando menos horas e com salários mais altos. Powell e os dirigentes do Fed terão que resolver tudo isso. Da nossa perspectiva, esse cenário parece eliminar qualquer possibilidade de um corte nos juros em março pelo Fed.”
Esse ambiente desinflacionário é o que leva Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus Capital, a ainda ver espaço para um ajuste no nível dos juros pelo Fed. “Como a economia americana está mais aquecida que o esperado e o payroll surpreendeu, o mercado continuou empurrando as quedas [de juros] para a frente. Cada vez mais os números de inflação serão importantes.”
Não por acaso, diante da força demonstrada pelo dólar neste início de ano, a Novus zerou posições em moedas. Em relação aos EUA, a aposta da gestora é em um aumento da inclinação da curva de juros, devido à expectativa de que as taxas longas sigam pressionadas pelos leilões de Treasuries e pelas eleições, enquanto os juros intermediários têm espaço para cair, já que a inflação mais branda permite ao Fed ajustar o nível de juro real em 1 a 1,5 ponto percentual.
Além disso, ao notar a alta forte dos juros globais após os dados de emprego nos EUA, Portella revela ter aumentado a posição vendida em juros europeus (aposta na queda das taxas). “O que fizemos na virada do mês foi começar a ‘vender’ países em que vemos uma atividade mais fraca. Tivemos uma correção ao longo do mês e aproveitamos para ‘vender’ taxa da Austrália, do Reino Unido, da zona do euro”, diz o gestor.
Já Mollica, do Opportunity, revela que as perdas em suas posições em Treasuries foram mitigadas por ganhos com a bolsa americana, diante da exposição ao setor de tecnologia, posição que segue na carteira da gestora. Já em relação ao Brasil, a principal posição da casa é vendida no dólar contra o real, diante dos bons fundamentos da moeda brasileira, além de posições compradas em bolsa.
“Além disso, estamos aumentando posições aplicadas em juros, porque estamos otimistas com a inflação e acreditamos que, apesar de continuar sendo um problema em prazos maiores, o fiscal não será tão ruim quanto o mercado precifica no curto prazo”, diz Mollica.
Na visão de Daniel Delabio, sócio e gestor da Exploritas, o momento atual continua a ser de cautela, mas menos que em dezembro. “A correção pela qual os ativos domésticos passaram abre algumas oportunidades”, diz. Ele dá ênfase, em particular, à bolsa, ao notar que a queda do Ibovespa anotada em janeiro provocou a abertura de uma “boca de jacaré” em relação às bolsas americanas, que continuam com bom desempenho. “Estamos vendo algumas coisas baratas e começando a ter alguma exposição direcional, ainda que tímida. No momento, o fluxo está até mais importante que o fundamento, já que o estrangeiro fez preço ano passado e, em 2024, está sacando recursos.”
Delabio, além disso, diz ver o câmbio atraente, diante do apoio exercido pela balança comercial. “E o mercado de juros só piora muito se o exterior pressionar o real. Entendo que a inflação de alimentos pode ajudar, com os preços de soja e de milho em baixa, assim como o agro pode promover surpresa da atividade para cima.”
Fonte: Valor Econômico

