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Como se fosse um equilibrista, o consumidor brasileiro tem sido obrigado a manter vários pratinhos no ar, sem deixar cair nenhum, em meio a um cenário complexo que envolve aumento de preços, mudanças climáticas severas e preocupação crescente com a saúde. Para as empresas, o quadro representa um alerta importante: quase metade da população está trocando de marcas em busca de produtos mais baratos, em especial no que se refere a vestuário, brinquedos, produtos para casa, itens de beleza e refeições prontas.
É o que revela o estudo “Consumer Pulse” da consultoria Bain, obtido com exclusividade pelo Valor. Em janeiro, cerca de 7,5 mil consumidores foram ouvidos na América Latina, dos quais mais de 2 mil eram brasileiros. O panorama indica uma piora do humor da população nos últimos três meses frente ao mesmo período do ano passado, embora o otimismo para 2030 se mantenha elevado.
O levantamento mostra que 90% dos entrevistados perceberam, neste ano, um aumento de preços como um todo, em comparação com os 81% que manifestaram essa percepção em 2024.
Os principais vilões de 2025 são alimentos, energia e cuidados pessoais, além de vestuário e saúde. Para contornar o contexto inflacionário, 83% dos brasileiros disseram que reduziram ou pretendem diminuir seus gastos pessoais, especialmente com roupas e acessórios, serviços de entrega em domicílio (“delivery”) e alimentos. Há também aqueles que passaram a experimentar outras marcas, mais baratas, em busca de economia.
Para 26% das pessoas a situação financeira piorou em relação a 2024, com forte impacto na capacidade de guardar dinheiro; apenas 14% tem conseguido poupar sem precisar abrir mão daquilo que desejam.
“Por causa do aumento de preços, o brasileiro tem se virado para fazer mais com menos desde a pandemia, e essa tendência afeta tanto as pessoas de renda mais baixa quanto as de renda mais elevada”, afirma Ricardo De Carli, sócio da Bain.
Quando sobra dinheiro, comenta o executivo, a busca se concentra em itens e experiências relacionados a prazer ou conforto – as chamadas indulgências – como comer fora ou comprar produtos de beleza.
O gasto com saúde tornou-se indispensável, a ponto de 57% dos respondentes dizerem que não planejam reduzir essa linha do orçamento nos próximos anos. O objetivo é cuidar tanto das questões mentais quanto da alimentação e do condicionamento físico.
O mote do bem-estar tem impactado diretamente os hábitos alimentares dos brasileiros, que reduziram o consumo de gordura, sal e açúcar, ao mesmo tempo em que aumentaram a ingestão de proteínas, itens não processados, produtos orgânicos e alimentos produzidos localmente.
Outro ponto que chama atenção é o avanço do uso de medicamentos reguladores de apetite. A Bain estima que 5% dos americanos adultos utilizam esses remédios e projeta que a penetração deve alcançar 9% até 2029.
No Brasil, de 2% a 3% das pessoas afirmam que já usaram esses medicamentos, que induzem o usuário a comer menos ou diminuir o número de refeições, um comportamento que pode ter impacto significativo nas indústrias de alimentos e bebidas.
Os brasileiros estão mais preocupados com o tema das mudanças climáticas que a média da população mundial, um sentimento se agravou nos últimos dois anos, mostra o estudo.
“A preocupação não é mais se efeitos climáticos extremos, como calor intenso, queimadas e enchentes, vão afetar seu entorno mas, sim, quando”, afirma Daniela Carbinato, sócia da Bain.
A questão climática tem levado a mais uma mudança de hábito – quando possível, o brasileiro passou a deixar o carro em casa para usar transporte público ou bicicleta. Também implica que 62% dos consumidores pretendem aumentar os gastos com produtos sustentáveis, ainda que esse interesse nem sempre se traduza em compras por enquanto.
Os principais desafios na buscar por uma vida mais sustentável são o preço alto – apenas 12% dos respondentes disseram estar dispostos a pagar mais por produtos desse tipo -, falta de informação e decepção com o “greenwashing”, que ocorre quando o consumidor descobre que um produto não é tão sustentável quanto a propaganda faz crer.
O brasileiro gasta em média mais de nove horas na internet por dia, sendo que desse total cerca de 3h30 são dedicadas às redes sociais. O hábito vem favorecendo a expansão do mercado de apostas, que também tem repercussão no consumo.
A pesquisa da Bain indica que 26% dos consumidores economizam menos do que poderiam para ter dinheiro suficiente para apostar, enquanto outros 24% estão reduzindo os gastos com bens e serviços não essenciais para fazer apostas.
O que motiva esse comportamento, afirma Carbinato, é a sensação comum entre os apostadores de que ganham mais do que perdem. “É uma tendência que independe de classe social e geração”, acrescenta De Carli.
O mercado de apostas, ou bets, movimenta cerca de R$ 21 bilhões por mês via Pix, de acordo com o Banco Central, sendo que 52 milhões de brasileiros adultos já fizeram uma aposta on-line.
Fonte: Valor Econômico