Por Victor Rezende, Matheus Prado, Arthur Cagliari e Gabriel Roca — De São Paulo
10/01/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Embora a reação aos atos terroristas em Brasília tenha sido limitada nos mercados, ganhou força, entre os investidores, a percepção de que o prêmio de risco dos ativos brasileiros deve ser maior no médio e no longo prazos. Os desafios causados pela incerteza sobre a gestão das contas públicas já embutiram prêmios relevantes nos mercados domésticos, mas, na avaliação de agentes financeiros, a piora no risco político adiciona instabilidade ao cenário à frente.
“Acreditamos que esses eventos provavelmente irão induzir um maior grau de polarização política, que pode, no pior dos casos, afetar a governabilidade do país, caso o clima social ou econômico se deteriore significativamente. Isso pode acabar se traduzindo em um prêmio de risco estruturalmente maior para os ativos brasileiros”, avalia Thierry Larose, gestor de renda fixa de mercados emergentes da gestora suíça Vontobel Asset Management, que tem cerca de US$ 124 bilhões em ativos sob gestão.
Embora os ativos domésticos tenham mostrado melhora ao longo do pregão de ontem, a sensibilidade aos vetores políticos e fiscais se mostrou presente em mercados mais ligados à percepção de risco-país. Foi o caso dos juros reais de longo prazo, medidos pelas NTN-Bs (títulos públicos atrelados à inflação), que subiram em relação aos níveis de sexta-feira. A taxa da NTN-B com vencimento em maio de 2035 subiu de 6,27% para 6,283%, enquanto a da NTN-B para agosto de 2050 subiu de 6,367% para 6,378%.
A invasão do Palácio do Planalto e dos prédios do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional reforça o estado de polarização política profunda e mantém os ativos com prêmios de risco elevados, diz o chefe de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.
Na visão do economista, o ambiente político instável e dividido no país se soma à alta tensão social e mantém os prêmios elevados, além de poder “afetar a governabilidade geral”. Isso, para Ramos, “implica que o novo governo, a oposição e a classe política em geral terão de trabalhar para sanar as profundas brechas políticas e sociais abertas durante a campanha”.
É o que indica, também, o economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, William Jackson. Para ele, embora as instituições brasileiras tenham demonstrado força, as implicações da invasão aos prédios dos Poderes em Brasília são principalmente políticas, e os tumultos podem resultar em um prêmio de risco duradouro sobre os ativos domésticos, a depender da condução da agenda econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Estamos preocupados que possa haver implicações econômicas, o que dependerá de algumas coisas. A primeira é se este foi um evento pontual ou se será recorrente. Os eventos de ontem [domingo] nos lembram que o descontentamento com as eleições e com a presidência de Lula continua alto em alguns quadrantes”, enfatiza Jackson em relatório.
Segundo o economista, caso os protestos se tornem mais frequentes ou se espalhassem para setores mais críticos, os custos econômicos se tornarão maiores. Ele lembra, por exemplo, da greve dos caminhoneiros, em 2018, em que houve uma queda de 10% na produção industrial e um aumento expressivo na inflação no período.
Outro fator a ser monitorado pela Capital Economics é a reação do governo aos atos de domingo. “O risco, do ponto de vista econômico, é que a ameaça leve Lula a abraçar as partes mais à esquerda de sua agenda, como mais gastos com o bem-estar social; um papel maior para o Estado na economia; e um papel menor para as forças de mercado, em vez de buscar um entendimento com seus oponentes políticos”, afirma.
O estrategista-chefe de mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli, diz que o efeito limitado dos atos antidemocráticos no preço dos ativos ontem foi resultado de mercados já depreciados pela elevada incerteza econômica e política e, também, porque não houve perda de governabilidade.
“Não foi um fenômeno sistêmico”, afirma Giacomelli. “Se a reação for institucional, sem caça às bruxas, acho que acaba aí [o efeito no mercado financeiro], porque a maioria dos eleitores elegeu este governo para conter os excessos de outros governos, e não para reagir a excessos com mais excessos”, enfatiza o estrategista do Deutsche.
Giacomelli diz, ainda, que, se a postura da nova gestão for apagar e desfazer o que foi feito em outros governos, o prêmio de risco nos ativos brasileiros deve aumentar. “Se você combate o extremo com outro extremo, não pode esperar que o prêmio de risco se reduza”, afirma. Para ele, querer “inventar a roda” não vai fazer a economia deslanchar. “O prêmio de risco reflete em parte a ideia de ‘revogaço’ de algumas propostas, como a reforma da Previdência, a trabalhista, a sindical e a do saneamento. Isso não é plano de ação, mas de reação.”
Ao avaliar, justamente, o nível de prêmio de risco dos ativos brasileiros, Thierry Larose, da Vontobel, acredita que, embora as questões políticas exijam um nível mais alto de prêmio pelos ativos locais, ele “já está presente e é bastante alto” ao se observar o padrão de outros mercados emergentes. Ele afirma, nesse sentido, que os juros locais e as ações têm prêmios relevantes, ao notar que as taxas de juro real ex-ante estão em níveis “muito altos”.
Além disso, apesar de ressaltar que a invasão aos prédios dos três Poderes guarda semelhanças com o ataque ao Capitólio, nos Estados Unidos, Larose observa que a condenação dos atos contrasta com o que foi visto no episódio americano de janeiro de 2021. “A condenação foi unânime em todo o espectro político, sem nenhum líder da oposição disposto a defender os vândalos. Nem o próprio [ex-presidente Jair] Bolsonaro se arriscou a reivindicar a ação deles, apesar de terem feito isso em seu nome”, diz.
Na visão do gestor, a cautela deve permanecer em vigor nos próximos dias, mas “qualquer surto extremo de volatilidade deve ser visto como uma oportunidade, já que os investidores estrangeiros provavelmente ficarão tranquilos com a força da democracia brasileira e a capacidade de suas instituições de manter um nível adequado de lei e ordem”.
Os atos antidemocráticos vistos no domingo aumentem a instabilidade no curtíssimo prazo nos mercados domésticos, mas o fracasso das ações fez a turbulência política atingir um pico, segundo analistas de geopolítica do BCA Research. Isso, segundo ele, pode ser benéfico para os ativos locais e, inclusive, provocar uma queda dos prêmios de risco político.
“O que estamos presenciando é a consolidação da democracia brasileira; total relutância dos militares em apoiar um líder populista de direita que fracassou. Isso é positivo para o Brasil. Lula também não é extremamente poderoso no Congresso, então ele terá que fazer concessões ao Legislativo”, dizem os profissionais.
Eles apontam, ainda, que o Brasil está longe da competição geopolítica entre EUA e China e que se beneficia de ter boas relações comerciais com as duas potências. Além disso, “Venezuela e a Argentina são os melhores exemplos de por que o Brasil será diferente: o país sabe o que não fazer [na economia].”
Fonte: Valor Econômico

