Por Victor Rezende, Valor — São Paulo
10/01/2023 13h48 Atualizado há 13 horas
O chefe de mercados globais do Citi Brasil, Eduardo Miszputen, revela um otimismo maior com o Brasil do que o demonstrado pela média do mercado neste início de ano. Embora dê ênfase ao nível elevado de incerteza e à falta de coordenação de comunicação do novo governo, que geraram deterioração dos preços dos ativos financeiros na semana passada, o executivo espera que, em algum momento, as coisas se encaixem e abram espaço para um ambiente “mais estável e pragmático”, o que poderia ajudar no fluxo de entrada de capital estrangeiro no mercado local e favorecer a taxa de câmbio.
“A dúvida é onde e como o governo vai compor sua base de receita para suportar as medidas que quer adotar ao longo de quatro anos. Não está claro ainda, mas, no fundo, o que esperamos é que haja um arcabouço bem estruturado em relação ao planejamento de despesas e receitas e que isso equilibre as contas públicas”, afirma Miszputen ao Valor. Assim, para ele, o foco dos investidores no momento deve estar no cenário doméstico, já que a previsibilidade do ambiente externo é maior. “É difícil esperar uma grande surpresa vinda do cenário internacional a cada semana”, argumenta.
Na visão de Miszputen, a instabilidade de ações e de medidas que devem ser vistas no Brasil ao longo dos próximos três meses deve gerar muito mais volatilidade do que os fatores externos. “O fator local, hoje em dia, é muito forte e é o que tem afetado bastante o mercado. O governo acabou de assumir. Há uma dúvida muito grande em relação à política fiscal, que é o fator mais relevante dentro de todas as discussões”, diz o executivo do Citi, ao lembrar da manutenção da desoneração dos combustíveis, que gerou ruído nos negócios nos primeiros dias do novo governo.
Para ele, as dúvidas em torno da condução da política fiscal à frente podem fazer o câmbio oscilar entre R$ 5,40 e R$ 5,50 por dólar, níveis já observados neste ano e que não estão tão distantes do patamar de hoje da taxa de câmbio, mas uma maior previsibilidade da agenda econômica poderia levar o câmbio a voltar aos R$ 5. De acordo com o Banco Central, o Citi liderou o ranking de volumes de operações de câmbio a clientes no ano passado. Excluindo as operações interbancárias, o banco teve o maior volume no ano, totalizando US$ 263,4 bilhões, o que representa alta de 6,7% em relação a 2021.
Com juros próximos a 14% e uma inflação entre 5% e 5,5%, o juro real fica entre 8% e 9%. “Faz muito tempo que a gente não tem um patamar tão rico do ponto de vista de retorno”, observa Miszputen. “Se o Brasil mostrar um pouco de consistência no governo, nas políticas e nas ações, minha visão é de que deveríamos ver um fluxo positivo para o Brasil. Os ativos locais têm oportunidades. Não vejo motivo para que parte dessa alocação que está lá fora em ‘cash’ não poderia ser direcionada um pouco para o Brasil, mas é preciso consistência e confiança do mercado”, enfatiza.
“Eu tenho uma visão otimista”, diz Miszputen. Ele lembra que, na virada do ano, houve um fluxo relevante de entrada de investidores estrangeiros, que apostaram nas curvas de juros de médio e de longo prazo, mas nota, adicionalmente, que esse ímpeto diminuiu nos últimos dias. Além da baixa liquidez nos mercados globais, o executivo acredita que o investidor pode estar à espera de uma visão mais clara sobre como será a atuação do governo. Miszputen acredita em fluxo positivo de capital estrangeiro nos mercados locais neste ano, tanto na renda fixa quanto na variável, mas ressalta que “vai depender de um pragmatismo, de uma política que o mercado leia como positiva ou estável e previsível”.
Embora defina os fatores internos como mais fortes para a dinâmica do câmbio, Miszputen avalia que o ambiente externo também se mostra importante na definição do humor dos agentes. O executivo nota que o mercado já tem observado uma deterioração da percepção de desaceleração econômica em economias externas, com sinais de empresas em relação a resultados piores e rebaixamentos de notas de crédito, enquanto o consenso ainda aponta para juros entre 5% e 5,5% no fim do ciclo de aperto do Federal Reserve (Fed) nos EUA.
As dúvidas presentes no cenário internacional contratam um ambiente mais volátil nos mercados de câmbio, aponta o executivo. “Há incerteza em relação à desaceleração da economia americana; existe uma discussão sobre a taxa de juros lá fora, já que não está claro ainda o ponto final do ciclo… Se a desaceleração econômica for mais rápida e profunda, por exemplo, a volatilidade das moedas no geral tende a ser mais alta”, observa Miszputen.
Fonte: Valor Econômico

