Se o início do ano era marcado por um forte otimismo pelos mercados emergentes e, em particular, pelo Brasil, a narrativa se esvaiu quase completamente nas últimas semanas. Diante da retomada na demanda global por ativos ligados ao tema da inteligência artificial, juros mais elevados no mundo, incertezas geopolíticas e um ambiente local pouco convidativo para a tomada de risco com a proximidade das eleições, gestoras e instituições financeiras reduziram suas apostas nos mercados domésticos e passaram a expressar uma visão bem mais cautelosa para os ativos locais.
O sentimento mais negativo com o Brasil é expressado tanto pelas cartas mais recentes das gestoras como nos dados de posicionamento no mercado de câmbio.
A posição dos investidores locais vendida em dólar contra o real (também lida como a aposta a favor da moeda brasileira) chegou a US$ 12 bilhões no fim de abril, mas veio caindo ao longo do mês de maio, segundo dados do mercado de derivativos compilados pela B3 e informados à reportagem por operadores. No fim da sessão de segunda-feira essa aposta tinha sido reduzida a aproximadamente um terço, a US$ 3,5 bilhões.
Mesmo instituições estrangeiras que mantinham visões bastante otimistas sobre o Brasil moderaram suas expectativas sobre o potencial dos ativos locais. Ainda, de acordo com dados da B3, a posição comprada em dólar (a favor da moeda americana) dos estrangeiros subiu de algo em torno de US$ 50 bilhões em abril para perto de US$ 60 bilhões.
O J.P. Morgan rebaixou a recomendação para o real de “overweight” (exposição acima da referência de mercado) para “neutro” e fez o mesmo movimento em suas recomendações para os juros em moeda local. O banco chama a atenção para a proximidade da disputa eleitoral e para os recentes episódios envolvendo Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que reduziram as probabilidades de alternância de poder no país.
“Os riscos eleitorais se somam a uma posição comprada em real já bastante congestionada; por isso, reduzimos nossa recomendação para neutra em real e mantemos exposição apenas por meio de opções. A resiliência relativa do real tem sido favorecida pelo fato de a moeda ainda contar com o suporte do diferencial de juros. Nosso modelo de valor justo, porém, indica uma moeda ligeiramente cara, enquanto o posicionamento dos investidores está próximo das máximas históricas. Diante desse quadro, adotamos uma postura mais cautelosa”, apontam Tania Jacob, Gisela Brant, Santiago Calcano e Anezka Christovova, em relatório.
Para os juros futuros, formou-se uma combinação particularmente desafiadora, segundo o J.P. Morgan. “Embora ainda vejamos valor na curva, temos dificuldade em identificar catalisadores de curto prazo capazes de levar as taxas para níveis mais baixos. Assim, passamos para uma posição neutra em juros locais e encerramos a posição aplicada em DI para janeiro de 2030″, apontam. Segundo os estrategistas do banco, apesar de o BC ter iniciado recentemente o ciclo de cortes, a sequência mais forte de indicadores econômicos e o aumento do risco eleitoral podem limitar sua capacidade de sustentar o processo de afrouxamento monetário.
O pessimismo também é compartilhado por gestoras locais. Em carta, a ACE Capital nota que o cenário doméstico apresentou deterioração relevante ao longo do mês e, segundo a casa, a divulgação dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro adicionou complexidade ao quadro eleitoral, enquanto o avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1 no Congresso elevou as incertezas em relação à dinâmica do mercado de trabalho e da inflação de serviços. Além disso, os riscos associados a um El Niño mais forte, somados aos efeitos já observados da alta do petróleo e dos fertilizantes, contribuíram para uma piora mais ampla do balanço inflacionário.
“Nesse contexto, a assimetria favorável aos ativos brasileiros se reduziu, diminuindo os argumentos para uma ‘outperformance’ relevante do mercado local no curto prazo. Diante desse quadro, mantivemos boa parte da estrutura do portfólio, mas fizemos ajustes relevantes na alocação de risco. A principal mudança foi a migração de parte da exposição aplicada em juros no Brasil para outras geografias, refletindo a piora relativa do cenário doméstico”, argumentam os profissionais da gestora.
A Novus Capital, ao tentar replicar o modelo de inflação do Banco Central, encontra uma projeção por volta de 3,4% no horizonte relevante. Ao incorporar uma revisão do Copom no hiato do produto, no entanto, a gestora nota que a inflação encontrada pela autoridade monetária deve subir. “Nossa avaliação é que o BCB ainda corta 0,25 ponto percentual, e tudo indica que será o último movimento do ciclo. Depois disso, o comitê aguarda para ver, no ano que vem, como o comprometimento de renda elevado vai bater no consumo e se vai gerar a desaceleração esperada”, nota a equipe de gestão.
Assim, a Novus revela que encerrou suas posições em renda fixa local em meio à indefinição relacionada ao conflito no Oriente Médio e ao cenário doméstico desafiador. “Zeramos as posições devido à indefinição do desenrolar da guerra. Fundamento interno com atividade aquecida e mais estímulo de crédito anunciado pelo governo vão continuar mantendo pressão no hiato do produto, dificultando o ciclo de queda de juros do Banco Central”, apontam.
Na mesma linha, a Occam aponta que encerrou as posições no mercado de juros brasileiro no mês de maio. “No mercado doméstico, diante da deterioração dos fundamentos que sustentavam o ciclo de afrouxamento monetário, encerramos tanto a posição aplicada na curva de juros quanto a estratégia de inclinação da curva local”.
Em sua carta mensal, a Kinea afirma que mantém “algumas opções de compra em EWZ como forma de capturar um cenário de alternância política ou uma reprecificação mais abrupta dos ativos brasileiros, sem carregar um ‘beta’ direcional relevante em um ambiente de juros elevados. Em ações locais, preferimos setores nos quais o carrego e a geração de caixa ajudam a compensar o elevado custo de oportunidade”, afirma a equipe de gestão.
Vale apontar que, em entrevista concedida ao Intraday, blog de mercados financeiros do Valor, o gestor do fundo K10, da Kapitalo Investimentos, Bruno Cordeiro, afirmou que mantinha a menor exposição a ativos brasileiros nos últimos dois anos. Em entrevista recente ao blog, o gestor da família de fundos Janeiro da Itaú Asset, Bruno Serra, também apontou que reduzira de forma importante suas posições nos mercados locais de juros.
Fonte: Valor Econômico