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Poucos meses atrás, parecia que as probabilidades estavam contra Rupert Murdoch. Um juiz do estado de Nevada havia rejeitado sua tentativa de moldar a sucessão à sua vontade e excluir três de seus filhos do trust familiar, classificando a manobra como uma iniciativa de “má fé” e “uma farsa cuidadosamente arquitetada”.
Donald Trump também havia se voltado contra ele, movendo um processo de US$ 10 bilhões contra Murdoch e seu “jornal de terceira categoria”, depois que o “The Wall Street Journal” publicou uma reportagem sobre as supostas ligações do presidente com o falecido pedófilo Jeffrey Epstein. Os acionistas já haviam resistido, em 2023, à sua tentativa de unir a Fox e a News Corp.
Ainda assim, aos 94 anos, Murdoch desafiou as probabilidades, concretizando um último e notável acordo para garantir seu legado – e a continuidade do domínio conservador de seu império midiático, que inclui a gigante Fox News – muito depois de sua partida. Murdoch impôs o desfecho pela força de vontade, colocando uma pressão enorme sobre seus filhos adultos ao longo de meses de negociações ininterruptas, segundo várias fontes a par do assunto.
Nos bastidores, as conversas foram tensas. Os irmãos divergiram sobre tudo, desde a forma de avaliar o vasto volume de ações do império Murdoch até o controle de uma fazenda de criação de ovelhas da família.
O resultado: um pagamento de US$ 3,3 bilhões para Elisabeth, Prudence e James Murdoch, removendo-os do espólio da família e eliminando de vez a influência dos três sobre os negócios.
O anúncio de segunda-feira (8) coincidiu com 54º aniversário de Lachlan, confirmando-o como sucessor do império Murdoch.
A tentativa anterior de mudar o trust familiar – que controla a Fox Corp e a News Corp por meio de ações com direito a voto – visava dar a Lachlan pleno poder de voto e tomada de decisões após a morte do patriarca.
A proposta foi chamada de “Projeto Harmonia”, mas acabou dilacerando a família. Um comissário em Nevada, onde o trust está registrado, rejeitou a manobra. Elisabeth, Prudence e James romperam relações com Lachlan e com o pai.
Ainda assim, Elisabeth e Prudence não queriam que o afastamento se estendesse pelos últimos anos de vida do pai.
Aceitar vender tornou-se, então, uma forma de acabar com a guerra. James Murdoch ficou desapontado com o desfecho, mas sentiu que não tinha alternativa, segundo uma fonte. Pelo arranjo anterior do trust, o poder de voto seria dividido entre os quatro irmãos mais velhos, o que obrigaria James a contar com o apoio das irmãs para tentar qualquer manobra.
James está há anos afastado do pai depois de perder a disputa pela sucessão para Lachlan. O filho de perfil político mais moderado praticamente deixou em 2020 o conselho da News Corp, cujos ativos incluem The Wall Street Journal, a editora HarperCollins e os jornais britânicos The Sun e The Times.
Manter a orientação conservadora de seus veículos sempre foi muito importante para Rupert Murdoch. “A Fox e nossos jornais são as únicas vozes minimamente conservadoras diante da mídia liberal monolítica. Acredito que isso é vital para o futuro do mundo de língua inglesa”, escreveu ele em um e-mail revelado durante o julgamento de Nevada.
John Malone, bilionário da mídia e amigo de Murdoch, além de seu rival de longa data, disse ao Financial Times que teria sido “muito disruptivo” se James tivesse assumido o controle da Fox News. “Sei que Rupert odiaria essa ideia”, afirmou ele.
Embora parecesse que os outros irmãos tinham ganhado força após a derrota de Murdoch em Nevada, o processo de apelação deu a Rupert e Lachlan a esperança de reverter a decisão – o que aumentou o temor, entre os demais, de serem perseguidos incansavelmente. Isso trazia a possibilidade de anos de brigas familiares, disse uma fonte.
As negociações começaram no segundo trimestre de 2024 com propostas radicais: vender metade da Fox e metade da News Corp, ou simplesmente se desfazer de uma das duas, segundo assessores envolvidos no acordo.
O grupo de Lachlan apresentou propostas de compra aos demais irmãos, que as ridicularizaram como “descontos absurdos”. A ação movida no tribunal de Nevada deu confiança ao grupo de James e as conversas travaram. Mas, em março deste ano, todos voltaram à mesa para negociar. Desta vez, as discussões foram mais realistas, mas ainda marcadas por questões espinhosas envolvendo impostos e como lidar com oscilações nos preços das ações.
As negociações se deram totalmente por meio de representantes – os irmãos não se falaram diretamente. Elas foram interrompidas diversas vezes e um pequeno círculo de intermediários foi crucial para destravar o acordo.
Do lado de Rupert e Lachlan, o diretor de operações da Fox, John Nallen, e o ex-procurador-geral dos Estados Unidos Bill Barr forneceram assessoria.
Já os irmãos que se retiraram recorreram a Blair Effron, sócio do banco de investimentos Centerview Partners e confidente de longa data da família Murdoch, descrito por uma fonte próxima da família como alguém que atuou “mais como terapeuta desta vez, do que como negociador”.
A única reunião presencial ocorreu no Harvard Club de Nova York. Em maio, quando o preço da ação da Fox disparou, as partes enxergaram uma saída, e um acordo preliminar foi selado com um aperto de mãos.
A primeira proposta de Lachlan, feita no começo de 2024, oferecia aos irmãos cerca de 50% abaixo do valor das ações da Fox e da News Corp. Quando o acordo foi informalmente fechado em maio, esse desconto havia praticamente sumido. A valorização das ações desde então abriu caminho para um desconto de 20%. (Tradução de Mário Zamarian)
Fonte: Valor Econômico
