A guerra contra o Irã pode colocar o Brasil como um dos “vencedores” indiretos do choque geopolítico causado pelo conflito, que deve fazer o mundo recalcular a rota não só do petróleo, mas também de outras commodities e moedas, segundo o relatório mais recente da Gavekal.
A consultoria argumenta que, embora o olhar global esteja concentrado no choque do petróleo, as maiores disrupções tendem a vir de cadeias mais amplas como gás natural, fertilizantes e insumos industriais. É aí que o Brasil sai como um ganhador, já que é um exportador relevante desses insumos.
“Pode parecer bastante óbvio, mas produzir petróleo no Brasil, Colômbia, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Canadá agora parece um negócio melhor do que há algumas semanas”, escreve Louis-Vincent Gave no documento “Os ganhadores e perdedores da Guerra Iraniana”.
A tese geral é a de que a guerra está acelerando a transição de um modelo de cadeias globais baseado no “just in time” para um regime de “just in case”. No novo modelo, países e empresas passam a carregar estoques maiores para se proteger de choques geopolíticos, e abandonam a prática de comprar conforme a demanda.
Essa mudança começou na pandemia, ganhou força mais recentemente com a prisão de Nicolás Maduro, em janeiro, e está se acelerando com a escalada do conflito no Oriente Médio, enumera Gave. “Nem é preciso dizer que a guerra do Irã apenas amplifica essa mudança.”
O relatório também cita moedas de países exportadores de commodities e com juros elevados como os potenciais favorecidos pelo novo ambiente – como o Brasil. Já moedas tradicionais como dólar, euro e iene tendem a ficar pressionadas pelo choque energético e com eventual repatriação de fundos por parte da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos.
O renminbi chinês tende a se fortalecer com Pequim buscando usar a moeda como porto seguro em meio à volatilidade global.
Os bancos podem emergir como vencedores menos óbvios nesse cenário, na medida em que a transição para um mundo de “just in case” exige mais capital para financiar estoques maiores de commodities e insumos.Esse aumento na demanda por crédito tende a ser uma linha de negócio simples e rentável para o setor.
Na lista de vencedores, a Gavekal também inclui os produtores de carvão, fertilizadores com acesso a hidrocarbonetos baratos, o setor de energia alternativa, linhas ferroviárias e refinarias.
Entre os perdedores, o relatório vê impacto além da energia. Títulos públicos tendem a sofrer com o viés inflacionário das guerras, enquanto países dependentes de recursos dos países ricos do Golfo podem enfrentar um aperto de financiamento com a pausa ou fim das doações dos Emirados Árabes Unidos e da Árabia Saudita para que Egito, Paquistão e Líbano mantenham suas economias.
Na economia real, o choque é mais visível. Agricultores, sobretudo na Europa, podem enfrentar compressão de margens com fertilizantes e diesel mais caros. Já setores de consumo discricionário, como luxo, turismo e companhias aéreas, vão ser espremidos pela combinação de energia cara e perda de renda. Há ainda efeitos mais difusos: pressão sobre utilities, incerteza em semicondutores e até fraqueza do ouro.
O maior custo não está nos mercados, porém. Gave lembra que, em qualquer conflito, os perdedores são as pessoas pegas por mísseis, bombas e balas. Nesse caso, cerca de 160 milhões de pessoas de pelo menos oito países, “algo equivalente à população da Alemanha, Benelux, França e Reino Unido em 1940”, escreve.
Fonte: Pipeline
