A disparada do ouro para mais de US$ 5 mil por onça-troy, nível inédito para o metal, reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais que vão além de episódios pontuais de aversão a risco. A avaliação, compartilhada por gestores e estrategistas de mercado, é de que a dinâmica mostra uma mudança mais profunda na percepção global de risco, especialmente em relação aos Estados Unidos, ao dólar e à sustentabilidade fiscal americana.
A trajetória recente dos preços ajuda a explicar a magnitude do movimento. O ouro iniciou 2025 em torno de US$ 2.850 por onça-troy e manteve uma escalada quase contínua ao longo do ano, superando a marca de US$ 3.5 mil já no segundo trimestre e acelerando no último quadrimestre. Após avançar para US$ 4.398 em outubro, o metal encerrou 2025 acima de US$ 4.550. Em janeiro de 2026, a alta ganhou novo impulso, levando o preço para uma máxima de US$ 5.625, em um avanço que consolida uma valorização superior a 95% em pouco mais de 12 meses.

Segundo Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren, o movimento recente está inserido em um ambiente de “risk-off no mundo”, puxado por fatores como políticas econômicas mais imprevisíveis nos EUA, elevado endividamento público e níveis considerados esticados de valuation na bolsa americana. “Tudo isso fez com que tivesse uma rotação de dinheiro que deixa de ir para os Estados Unidos e vai para outros mercados”, afirmou.
Ainda segundo Nobre, a China tem desempenhado papel central ao ampliar compras de ouro e reduzir a exposição a Treasuries, acrescentando que bancos centrais ao redor do mundo também vêm aumentando suas reservas do metal.
Para o gestor, o cenário fiscal mais conturbado nos EUA alimenta dúvidas sobre a força do dólar como moeda de reserva. “Esse patamar de preços reflete sim uma mudança na percepção de risco global”, afirmou. Nobre avalia que o movimento tem caráter estrutural e não enxerga sinais claros de reversão no curto prazo, ainda que reconheça que parte relevante da valorização já ocorreu e que a volatilidade no médio prazo tende a aumentar.
Para João Paulo Arantes, analista de renda variável e estruturados da Arton Capital, a tendência recente do ouro ocorre após um longo período de estabilidade e apresenta características incomuns. Depois de mais de uma década de comportamento lateral, o metal passou a se valorizar de forma atípica a partir de setembro de 2023, com aceleração mais clara a partir de agosto de 2025.
Ainda segundo a casa, o preço do ouro ajustado pela inflação americana está no maior patamar desde 1980, enquanto a relação com o índice de preços ao consumidor alcançou 13,3 vezes, nível recorde. A leitura é que a combinação entre enfraquecimento do dólar, aumento das tensões geopolíticas e maior fluxo de investidores via ETFs tem sustentado a alta, em um ambiente de oferta restrita do metal.
A leitura é semelhante à de Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, que identifica três vetores principais por trás da alta. O primeiro, é o reposicionamento gradual dos bancos centrais, que, ao longo dos últimos anos, passaram a deixar vencer títulos da dívida americana e substituí-los por ouro ou outros metais.
“Desde 1995, vemos os títulos da dívida americana ultrapassando o percentual das reservas dos bancos centrais”, destacou, ressaltando que esse movimento começou a se inverter mais recentemente, em meio à piora do quadro fiscal americano e a sucessivos rebaixamentos de rating dos Estados Unidos.
O segundo fator destacado por Cruz é o aumento da incerteza geopolítica, intensificada desde o primeiro mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ampliada no atual ciclo político. “Ele tem essa característica de imprevisibilidade”, afirmou, citando tensões envolvendo diferentes regiões e o impacto disso sobre a busca por ativos considerados seguros.
O terceiro elemento é o comportamento dos investidores privados, tanto via ETFs quanto pela compra física de ouro e prata, impulsionados por movimentos de manada e pelo receio de ficar fora da tendência.
Relatórios recentes do Goldman Sachs reforçam essa leitura estrutural. Em nota publicada após o ouro romper o patamar de US$ 5.000, o banco atribui a alta a um aumento da demanda por proteção diante de tensões geopolíticas e preocupações fiscais, além da elevação dos rendimentos dos títulos japoneses, que ampliou o apelo do ouro como ativo de refúgio.
A instituição avalia, no entanto, que os preços atuais representam um ponto de entrada incerto para investidores táticos, uma vez que eventuais resoluções políticas poderiam provocar correções no curto prazo — o que já tem acontecido, considerando que a máxima do ouro em janeiro de 2026 foi de US$ 5,6 mil/onça, valor que já caiu para US$ 5,3 mil/onça nesta quinta-feira (29).
No horizonte mais longo, o Goldman mantém visão construtiva. A projeção-base aponta o ouro a US$ 5.400 por onça até dezembro de 2026, sustentado por compras contínuas de bancos centrais de mercados emergentes e pelo aumento da demanda de investidores à medida que o Federal Reserve avança no ciclo de cortes de juros.
O banco destaca, ainda, que não incorpora integralmente em seu cenário a possibilidade de maior diversificação de portfólios privados, o que representa um risco adicional de alta.
Apesar da forte valorização, a Arton evita classificar o movimento como estrutural. Na avaliação da casa, a dinâmica de preços do ouro historicamente não segue uma constante, o que não impede novas altas, mas dificulta a definição de um teto claro para o ciclo.
“Como qualquer ativo de oferta limitada, o céu é sempre o limite quando o assunto é preço”, afirma João Paulo, ponderando que preço e valor não são conceitos equivalentes. A Arton ressalta ainda que o ouro funciona como uma posição comprada no medo, em um mercado que tende a oscilar entre euforia e depressão, sem gerar fluxo de caixa ou retorno produtivo ao investidor.
Cruz, da RB, pondera que, diferentemente de metais como o cobre, cuja demanda é impulsionada por restrições de oferta e novas tecnologias, o ouro não enfrenta uma expansão estrutural de uso industrial. Isso abre espaço para correções caso o ambiente geopolítico se estabilize. Ainda assim, ele observa que há poucos elementos que apontem para uma melhora significativa da situação fiscal americana nos curto e médio prazos, o que tende a manter o metal no radar dos investidores como instrumento de proteção.
Fonte: Capital Aberto

