Após uma sequência recente de eventos de crédito, o J.P. Morgan acendeu um sinal de alerta para o mercado brasileiro de crédito privado. “De forma geral, não identificamos um problema sistêmico entre as empresas brasileiras, mas sim focos de fragilidade”, afirmam os analistas do banco, ao mencionarem os casos de Ambipar, Braskem, Raízen e, mais recentemente, o atraso na divulgação dos resultados da Aegea. Nos cálculos do J.P. Morgan, do universo de empresas brasileiras com dívida externa – excluindo aquelas em default -, cerca de um terço apresenta algum grau de pressão de balanço ou de financiamento.
“Embora essa parcela seja relevante, nem todos os casos devem necessariamente se materializar em eventos de crédito”, alerta a equipe de análise de crédito privado para América Latina do banco, comandada por Natalia Corfield. No levantamento, os profissionais observaram os emissores que integram o CEMBI Brasil, índice de crédito do banco que acompanha títulos corporativos em moeda forte do Brasil, excluindo nomes em default e os que já anunciaram processos de reestruturação, comoBraskem e Raízen.
Dos 53 integrantes, 18 foram classificados como tendo algum tipo de pressão de balanço ou de financiamento, ao se levar em consideração alavancagem, liquidez, geração de caixa, necessidades de refinanciamento nos próximos 12 meses e o desempenho operacional recente.
Entre os setores, o de consumo é o que apresenta mais empresas com algum tipo de vulnerabilidade nas métricas do J.P. Morgan, ao combinar alta alavancagem, queima de caixa, resultados mais fracos e necessidade de refinanciamento. O banco destaca nomes como Natura e Amaggi, além de empresas de açúcar e etanol. Setores de óleo e gás e de transporte também se destacam, com temas recorrentes de alavancagem elevada, consumo de caixa e vencimentos no curto prazo; e, no setor de “utilities”, o banco aponta Sabesp e Aegea por apresentarem queima de caixa.
“Não esperamos que os riscos necessariamente se materializem em eventos de crédito para todo o grupo analisado”, destacam os analistas, ao apontarem para a flexibilidade de capex, especialmente no caso da CSN; ciclos de investimento próximos do fim (como no caso da Oceanica); possibilidade de venda de ativos; e, no caso da Eldorado Brasil, custos de caixa competitivos que devem favorecer uma desalavancagem mais rápida.
“Ainda assim, esses créditos exigem análise mais aprofundada e, em alguns casos, rendimentos mais elevados do que os níveis atuais de negociação”, alertam os analistas do J.P. Morgan. “Em conjunto, não vemos um risco sistêmico no crédito corporativo brasileiro, mas sim focos de fragilidade.”
Como exemplo dos impactos dos eventos de crédito recentes no Brasil, o J.P. destaca que a América Latina se descolou do comportamento observado no restante dos mercados emergentes. “O recente conjunto de defaults e estresse de crédito no Brasil elevou as taxas de inadimplência de títulos ‘high yield’ GSS [papéis de maior risco com selo ESG] na América Latina bem acima do universo mais amplo da região”, afirmam os analistas, ao citar casos como Ambipar, Raízen e o complexo Braskem.
Para os profissionais do J.P. Morgan, o movimento reflete fragilidades comuns entre emissores, como juros domésticos elevados, dinâmica adversa de commodities e estruturas de capital pouco resilientes a choques, ainda que o impacto seja amplificado pelo tamanho reduzido da amostra na região.
Fonte: Valor Econômico
