Por Larissa Garcia, Caetano Tonet e Guilherme Pimenta — De Brasília
28/04/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
Em sessão para discutir juros, inflação e crescimento realizada ontem no Senado Federal, representantes do governo enfatizaram a necessidade de acelerar o crescimento da economia, enquanto o Banco Central, alvo de críticas pelo elevado nível de juros, defendeu o sistema de metas para inflação e ressaltou que a taxa básica (Selic) é apenas um dos fatores para gerar aperto das condições financeiras.
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, destacou que desde o início do regime de metas, em 1999, a inflação ficou mais tempo dentro da banda de tolerância do que fora dela. “Quando a gente olha o sistemas de metas no Brasil, passou a maior parte do tempo dentro da banda. Foram sete estouros em 24 anos. Chile, Colômbia e Peru, que têm o sistema de metas parecido com o do Brasil, o número de vezes que estourou a banda é muito parecido”, pontuou o dirigente.
Ele citou estudos que mostram que o descolamento do sistema de metas normalmente está ligado ao crescimento e à questão fiscal. “A razão mais comuns é trocar mais inflação por crescimento. Tem uma segunda que é testar um fiscal um pouco mais frouxo. Foi o caso do Reino Unido recentemente onde o primeiro ministro caiu”, explicou.
Na mesa, também estavam os ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento, Simone Tebet. Foi praticamente unânime o discurso sobre a necessidade de harmonia entre as políticas fiscal e monetária, além da pacificação entre os Poderes.
“Se a economia continuar desacelerando por razões de política monetária, teremos problemas fiscais, pois a arrecadação será impactada”, afirmou Haddad. “Se não percebermos os vasos comunicantes entre elas [política fiscal e monetária], teremos muita dificuldade de fazer o que a economia brasileira precisa.”
Tebet, por sua vez, afirmou que o crescimento econômico não pode ficar “pelo meio do caminho”. “Juros, inflação e crescimento precisam andar juntos, não podem estar isolados. Crescimento não pode ficar isolado. BC e governo têm debatido muito a questão”, disse a ministra.
“O governo diz que é impossível crescer com alta taxa de juros. O BC diz que taxa de juro baixas geraria um preço, que é a inflação. Tem razão o BC quando diz que não podemos descuidar da inflação, é o imposto mais perverso e quem paga isso é a população mais carente”, complementou a ministra.
Em sua defesa, o presidente do BC repetiu que toma decisões técnicas e que olha diversas variáveis para tomar a decisão sobre a Selic. Além disso, ele reiterou que a inflação de curto prazo tem caído, mas os núcleos continuam elevados. Ele reforçou também que as expectativas e as projeções tiveram uma “piora recente” que já dura quase 15 semanas.
O titular da autoridade monetária destacou também que a taxa básica não é o único fator determinante nas condições financeiras da economia e citou exemplos em que a taxa básica caiu e a liquidez ficou mais apertada. “A Selic é um indicador, um farol, mas para ter condição de liquidez é preciso fazer o movimento com credibilidade. Tivemos experiência no passado em que baixamos a Selic e as condições de liquidez apertaram, teve o efeito contrário”, disse.
Economistas, representantes do sistema financeiro e do setor produtivo também participaram do evento. Enquanto o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, pediu um “voto de confiança” ao BC, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes, afirmou que a taxa de juros em 13,75% empobrece o país e mantém o crescimento estagnado.
Sobre política fiscal, Haddad defendeu a redução de renúncias e ressaltou que “não é fácil tomar medidas impopulares” como as que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem tomado, principalmente pelo lado da arrecadação.
Campos comentou que o tripé econômico “como foi idealizado lá atrás” precisa de harmonia entre políticas fiscal e monetária, além do câmbio flutuante. “É assim que funcionou e é assim que tem funcionado. Acho que as tentativas de se inventar essa roda não funcionaram, então a gente precisa entender que essa é a forma de se trabalhar e que, ao invés, de questionar a forma a gente tem que pensar em como aprimorar o que existe.”
O presidente do BC reforçou que reconhece “o grande esforço do governo”, “com uma real possibilidade de estabilidade da dívida”. “O tema da renúncia é bem-vindo, não só porque é injusta, mas porque a renúncia mexe com preços relativos e aloca recursos na economia de forma ineficiente. Quando você tem uma renúncia para um setor, acaba gerando ineficiência na cadeia inteira”, disse.
Fonte: Valor Econômico
