/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/N/e/1CoNvrQFOAQ2zHDTtkmw/foto18esp-101-dubai-a20.jpg)
Em Palm Jumeirah, a luxuosa ilha artificial que simboliza a ostentação de Dubai, tanto moradores quanto turistas têm observado à noite como o céu é iluminado por mísseis e interceptadores, um espetáculo que um recém-chegado descreveu como “algo saído de Guerra nas Estrelas”.
Alguns hóspedes de um hotel de cinco estrelas ficaram tão preocupados com a ameaça representada pela promessa iraniana de intensificar a guerra contra Israel e Estados Unidos que a direção decidiu transformar seu salão de festas no térreo em um dormitório improvisado.
Em meio a sirenes e a frequentes alertas para que a população busque abrigo, as ruas rapidamente ficaram vazias em uma cidade que ao longo do último meio século havia se tornado sinônimo de dinamismo econômico.
O aeroporto de Dubai, normalmente o mais movimentado do mundo em voos internacionais, cancelou milhares de voos depois dos ataques iniciais do Irã, embora nos últimos dias muitos passageiros que haviam ficado presos tenham sido repatriados.
Ontem, mais voos foram atrapalhados pelo fechamento do espaço aéreo do país, em função de um ataque com drone do Irã que causou um incêndio em um dos terminais do aeroporto. A fumaça cobriu boa parte da área.
“Isto é novo para mim”, diz um executivo do setor de comunicações, ainda chocado com o som estrondoso de destroços de mísseis que caíram do lado de fora da sacada de seu apartamento. “Dubai sempre se vendeu como a metrópole da paz e da estabilidade, e agora está sendo realmente colocada à prova.”
Desde que EUA e Israel iniciaram a guerra, os Emirados Árabes Unidos, que há anos vivem um sucesso espetacular como entreposto comercial internacional, têm sido o alvo da maior parte do arsenal disparado pelo Irã através do Golfo Pérsico.
Durante anos, a marca dos Emirados Árabes Unidos – e a de Dubai em particular – foi sustentada pela pretensão de ser uma ilha de estabilidade em meio a uma vizinhança perigosa. Bilionários da área de tecnologia, influenciadores e turistas se viram atraídos por fatores que vão desde um tratamento tributário favorável até o seu inverno com sol, além de sua localização, onde o Oriente se encontra com o Ocidente, igualmente conveniente para a Europa, África e Ásia.
Agora, o fascínio está sob ameaça, o que coloca em dúvida se suas décadas de crescimento extraordinário poderiam estar em risco.
As dificuldades de Dubai são compartilhadas pelo resto da região. A guerra materializou os piores medos dos países do Golfo: um conflito que eles não têm como controlar e que ameaça desestabilizar suas ambições de grandiosidade.
Os ataques iranianos também atingiram alvos militares, de infraestrutura e de energia na Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait e Omã, confirmando os antigos temores de que, se a sobrevivência do regime iraniano estivesse em risco, Teerã atacaria os vizinhos que fossem aliados dos EUA.
A resposta iraniana também é uma ameaça para os planos ambiciosos do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, de transformar a maior economia da região em um destino turístico e de serviços – uma ideia em grande medida inspirada nos êxitos dos Emirados Árabes Unidos -, assim como para suas esperanças de liderar uma região centrada no desenvolvimento, em vez de em conflitos.
No entanto, é justamente o modelo de negócios de Dubai que passou a estar sob pressão em particular.
O sistema de defesa dos Emirados Árabes Unidos interceptou mais de 90% dos mais de 1,9 mil mísseis e drones lançados contra seu território e limitou as baixas e os danos, de forma que nos últimos dias as ruas de Dubai voltaram a ter um maior movimento.
Embora os ataques tenham provocado a morte de três pessoas, muitos moradores acham que a resposta do país do Golfo Pérsico é um resultado bem-sucedido para um cenário há muito temido.
Ainda assim, os ataques diretos a infraestruturas civis, como o hotel Fairmont, em Palm Jumeirah, estilhaçaram qualquer esperança de que Dubai possa ficar imune à volatilidade do Oriente Médio.
As imagens do autointitulado hotel “sete estrelas” Burj Al Arab em chamas, causadas por destroços da interceptação de um drone perto do hotel, rodaram o mundo.
Agora, alguns estrangeiros vêm considerando se devem ou não ficar. Uma parte já foi embora. O mercado imobiliário ficou congelado e as exportações estão quase parando. Caso a guerra se prolongue, alguns temem danos de longo prazo à reputação de Dubai – e ao seu modelo de fazer negócios.
“Esta economia depende da entrada de dinheiro, então estes eventos podem ser fatais”, diz um advogado especializado em direito empresarial. “O mito está rachado.”
Historicamente, Dubai se beneficiou da instabilidade regional e de outras crises mundiais. Desta vez, contudo, a cidade portuária está no olho do furacão.
A vila de pescadores que se transformou em um centro comercial regional na década de 1970 viu a ascensão da empresa aérea Emirates – conectando cidades de todos os continentes com seu aeroporto em constante expansão – dar início a um mercado do turismo que fez de Dubai a sexta cidade mais visitada do mundo em 2026.
Na esteira dos ataques de 11 de setembro de 2001 aos EUA, mais dinheiro de países de maioria muçulmana começou a fluir para o Golfo Pérsico. Dubai abriu seu mercado para estrangeiros, o que fomentou a primeira onda de expansão imobiliária da cidade.
A crise financeira mundial abalou a região em 2009 e fez a economia de Dubai, que havia captado muitas dívidas, encolher, o que exigiu um socorro financeiro com empréstimos de Abu Dhabi. Por outro lado, as revoltas populares árabes de 2011 voltaram a atrair dinheiro e pessoas, proporcionando mais um impulso à economia.
Quando a pandemia chegou em 2020, o governo fez um lockdown mais rigoroso e uma reabertura mais rápida do que outros países, permitindo um ambiente de relaxamento e segurança, que atraiu uma nova geração de recém-chegados: influenciadores, investidores de criptomoedas e gestores de fundos hedge.
A guerra na Ucrânia em 2022 trouxe russos em busca de refúgio, enquanto o aumento dos impostos no Reino Unido atraiu uma onda de moradores endinheirados, em meio a programas de residência de longo prazo que incentivavam os estrangeiros a criar raízes.
Para muitos desses recém-chegados, os ataques foram um choque de realidade – e uma lição sobre a história e a geografia da região, mesmo diante do momento atual de tentativa de volta à normalidade dos serviços.
O nervosismo na comunidade estrangeira tem sido amplificado pelo catastrofismo em grupos hiperativos de mensagens no WhatsApp. Acredita-se que as autoridades vão reprimir as pessoas que compartilhem vídeos considerados prejudiciais para a segurança nacional, de acordo com um consultor.
Consultores de patrimônio dizem que surgiu uma divisão entre os recém-chegados a Dubai, como os britânicos que saíram depois de a ministra das Finanças do Reino Unido, Rachel Reeves ter abolido o sistema de impostos para não domiciliados, e os estrangeiros que estão há mais tempo, alguns dos quais prometem permanecer.
Ashley Crossley, sócio do escritório de advocacia Baker McKenzie, diz que embora os britânicos recém-chegados sejam os mais preocupados, eles ainda não estão considerando voltar, tendo em vista as alíquotas dos impostos em jogo. Dubai não cobra imposto de renda de indivíduos, investidores ou da maioria das empresas.
Ele acha que as pessoas vão “esperar para ver” e, depois, considerar jurisdições como a Itália, que cobra um imposto fixo anual.
Muitos dos residentes riquíssimos que chegaram recentemente vêm monitorando a situação, diz um deles, que conseguiu um voo para sair de Dubai no início da semana. “Temos sorte de poder esperar do lado de fora pelos próximos meses antes de avaliar se vamos voltar”, diz ele. “Há outras opções, como Portugal ou Itália.”
No entanto, para cada residente que decide sair, muitos permanecem. Trabalhadores do Sul da Ásia e do Sudeste Asiático ainda trabalham em canteiros de obras pelo país; executivos de colarinho branco em trabalho remoto vêm observando como o impacto econômico se desenrola e organizando as aulas on-line nas escolas de seus filhos.
E enquanto alguns moradores de Dubai contratam serviços de jatos particulares para deixar o emirado – pagando até US$ 250 mil – outros querem voar de volta, para manter o status de residência fiscal.
Grandes transações imobiliárias já foram suspensas, segundo advogados. Os interessados em comprar casas de luxo exigem descontos de 20% e a expectativa é de pedidos ainda menores nas negociações.
Um investidor institucional retirou uma oferta de centenas de milhões de dólares em um parque logístico em Jebel Ali, a zona franca ao lado do porto mais movimentado da região, que gera quase 25% da economia de Dubai e tem sido atingido por ataques do Irã, o último deles ontem, contra um terminal de exportação de petróleo.
A maioria dos moradores acredita que os preços dos imóveis podem cair entre cerca de 25% e 35% – o que seria bem-vindo para muitos que sofrem para arcar com aluguéis inflacionados. Investidores vêm separando recursos para comprar ativos em dificuldades. Um deles está preparado para comprar casas unifamiliares cujo valor caia 35% em relação às avaliações anteriores à guerra.
As exportações estão “quase paralisadas”, uma vez que os navios evitam passar pelo Estreito de Ormuz, segundo um consultor. Rotas alternativas fora do Golfo Pérsico, como Fujairah e Salalah, em Omã, têm capacidade limitada.
“Mesmo se as hostilidades acabarem, haverá uma enorme demanda reprimida a ser atendida e um impacto de longo prazo nas percepções de confiabilidade do suprimento”, diz o consultor.
Dirigentes e executivos tentam manter o otimismo quanto ao futuro econômico de longo prazo dos Emirados Árabes Unidos.
“Somos o elo entre o Oriente e o Ocidente, [entre] os mercados estabelecidos e o Sul Global”, diz o funcionário de alto escalão do governo de Dubai. “Qualquer pessoa que pense seriamente sobre crescimento sabe que este é o lugar para se estar.”
Os líderes do país estão circulando pelos shoppings para encorajar a população a voltar à vida normal. Uma propaganda de serviço público apresentada por um ator infantil explica que os “grandes estrondos” no céu são “o som de estarmos seguros”.
“A lição a aprender é que os Emirados são bons em gestão de crises – não houve pânico, apenas trabalho constante para atender aos passageiros retidos”, disse Abdulkhaleq Abdulla, um analista político do país.
“Segurança não é a ausência de ameaças. É a capacidade de absorvê-las, interceptá-las e proteger a vida civil”, acrescentou Zachary Cefaratti, fundador do banco de investimento Dalma Capital, com sede em Dubai.
No entanto, muitos temem que, depois de os países do Golfo Pérsico terem sido arrastados para uma guerra que não queriam, os EUA possam não conseguir “terminar o trabalho” ou que iniciem negociações com o Irã cujo desfecho ainda os deixe vulneráveis, segundo funcionários e consultores.
Isso poderia resultar em um regime iraniano ferido, determinado a reconstruir arsenais e reafirmar-se em todo o Golfo Pérsico.
À medida que aumenta o risco de um conflito prolongado, crescem também as preocupações sobre o tamanho da desaceleração econômica prevista.
“Além da energia, haverá uma paralisação em todo o restante do comércio entre o CCG [os países do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico] e o mundo”, alerta o ministro da Energia do Catar, Saad al-Kaabi. “Isso terá um impacto significativo nas economias do CCG e em todos os seus parceiros comerciais ao redor do mundo.” (Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico