Após três anos consecutivos de desempenho pressionado e forte saída de recursos, os fundos multimercado encerraram o ano de 2025 ainda sob o peso da concorrência da renda fixa, mas com sinais positivos de estabilização e expectativa de um ambiente mais favorável em 2026. O ano recém-terminado foi marcado por elevada dispersão entre estratégias, volatilidade política e macroeconômica e um cenário de juros que continuou desafiando a capacidade da classe de entregar retornos acima do CDI.
Os fundos multimercado registraram, em 2025, resgates de R$ 58,9 bilhões, conforme dados da Anbima. Apesar do cenário ainda não ideal, houve melhora em comparação com os últimos trimestres, com queda de quase 80% nos resgates. No quarto trimestre de 2024, a categoria perdeu R$ 151 bilhões, em comparação com R$ 31 bi no primeiro trimestre de 2025 e outros R$ 35 bi no segundo. No terceiro e no quarto trimestres do último ano o resultado foi ainda melhor, com os fundos multimercados chegando a registrar captação líquida positiva — foram R$ 7,7 bi entre julho e dezembro do ano passado.
Na avaliação de Duda Rocha, CEO da Occam, o comportamento dos mercados ao longo de 2025 foi irregular, refletindo mudanças relevantes em relação ao ano anterior. “O mercado do ano passado foi difícil, teve uma descontinuidade para baixo, a bolsa caiu 10%. Esse ano foi o contrário, a bolsa subiu quase 30%”, afirmou.
Ainda assim, segundo ele, “a maioria está próximo ao CDI, talvez um pouco mais abaixo”, resultado que frustrou parte dos cotistas em um ambiente de taxa básica próxima de 15%.
Para Rocha, a combinação entre juros elevados e ruídos fiscais reduziu o espaço para uma performance mais consistente dos multimercados. “Os juros estão muito altos, juros de mais de 10% por curto prazo, o que não favorece em um cenário de volatilidade”, disse. Ele acrescenta que, mesmo com fatores externos favoráveis, como fechamento de juros no exterior e queda do petróleo, o mercado doméstico seguiu impactado pela percepção de deterioração fiscal e pelo ambiente político.
A leitura de dispersão também aparece na análise de Pedro Padilha, head de alocação de fundos da Genial Investimentos. Segundo ele, os resultados variaram significativamente conforme a estratégia adotada. “Quando a gente olha os fundos multimercado macro, eles tiveram um ano mais desafiador”, afirmou. Em contrapartida, “os fundos long bias tiveram um ano, na média, bastante positivo”, beneficiados pela alta expressiva do Ibovespa, que acumulou ganho superior a 30% em 2025.
Apesar disso, Padilha ressalta que o desempenho mais fraco de parte relevante da indústria continua afetando a dinâmica de captação. Dados da Anbima citados por ele mostram que, até novembro, os fundos multimercado acumularam saída líquida de R$ 62 bilhões no ano. “Desde 2022, a classe perdeu quase R$ 700 bilhões em outflow”, disse o especialista, destacando que a concorrência com produtos de renda fixa isentos e incentivados segue como um obstáculo relevante.
Essa avaliação também é compartilhada por Paula Moreno, sócia e co-CIO da Armor Capital. Para ela, 2025 representou um ano de recuperação parcial da classe, após resgates expressivos observados em 2024, mas ainda longe de uma retomada plena. Ela também destaca que, no primeiro semestre, houve continuidade dos resgates, porém em volume menor, acompanhada de melhora relativa de desempenho.Moreno aponta que o cenário macro acabou abrindo oportunidades relevantes ao longo do ano, sobretudo nos mercados de ações e câmbio. “Você teve um rali grande, primeiro movimento, por essa saída dos Estados Unidos e muito fluxo para todas as regiões”, disse. Ainda segundo ela, a valorização do real, a queda da inflação no segundo semestre e a retomada dos cortes de juros pelo Fed contribuíram para uma segunda pernada de alta da Bolsa brasileira.
Ainda assim, a executiva avalia que investidores seguem subalocados em multimercados, tanto entre os clientes de varejo quanto entre os de private. Para ela, o início de um ciclo de queda da Selic, esperado para 2026, tende a favorecer uma recomposição gradual das carteiras. “A tomada de risco viria via classe multimercado”, disse, ponderando que um movimento mais expressivo dependeria de juros abaixo de dois dígitos.
Olhando para 2026, o consenso entre os gestores é de que a trajetória da política monetária será o principal vetor para o desempenho da classe, embora acompanhada de riscos relevantes. Rocha avalia que “a taxa de juros é o sinal”, destacando que um eventual ciclo mais intenso de cortes poderia destravar oportunidades, sobretudo em bolsa e crédito estruturado. “Eu acho que Bolsa Brasil Relativo e crédito estruturado”, disse, ao citar as principais apostas para os próximos 12 meses.
Moreno acrescenta que o ano eleitoral tende a elevar a volatilidade, o que pode beneficiar estratégias mais flexíveis. “Ano de eleição com queda de juros traz muita oportunidade para a classe”, afirmou, destacando a capacidade dos multimercados de operar diferentes ativos e geografias. Ela também chama atenção para temas globais, como a política monetária nos Estados Unidos, a inclinação das curvas longas de juros e os desdobramentos dos investimentos em inteligência artificial.
Padilha, por sua vez, alerta que a volatilidade política doméstica e internacional segue como um risco relevante para fundos macro. “Os multimercados precisam de uma tendência de médio e longo prazo”, disse. Ainda assim, ele avalia que o mesmo ambiente pode gerar oportunidades para gestores capazes de se posicionar corretamente. “Os riscos também acabam oferecendo oportunidade”, afirmou.
Apesar da expectativa mais construtiva para 2026, os especialistas entrevistados pela Capital Aberto concordam que a retomada da classe deve ser gradual. Como resume Padilha, além da queda dos juros, será necessário tempo para que a performance em janelas mais longas volte a se tornar atrativa. “Essas janelas mais longas precisam começar a melhorar e isso vai demandar um tempo um pouco maior”, concluiu.
Fonte: Capital Aberto