Na semana passada a Gávea Investimentos comunicou ao mercado que está encerrando as atividades de gestão de recursos de terceiros dos fundos da família Gávea Macro.
A Gávea é uma empresa icônica. Uma das primeiras Assets independentes do mercado brasileiro, que completa 23 anos em 2026, tendo como sócio o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, responsável pela implantação do Regime de Metas de Inflação no Brasil e economista ativo no debate sobre políticas macroeconômicas.
A Gávea, porém, não é um caso isolado, ela se junta a outras tantas casas especializadas na gestão de fundos multimercados que vêm fechando as portas ou sendo extintas em meio a processos de fusões e aquisições nos últimos anos.
Em meados de 2021 o Banco Central se viu obrigado a iniciar um ciclo de aperto monetário para combater a espiral ascendente das taxas de inflação decorrentes dos estímulos necessários para aliviar os impactos econômicos e sociais da pandemia do Covid-19. A abrupta interrupção das atividades teve como resposta, no Brasil e no mundo, um conjunto de medidas de política fiscal e monetária para irrigar as economias de liquidez e, dessa forma, evitar que a renda e a atividade econômicas entrassem em colapso.
No Brasil o ciclo de aperto coincidiu com o processo eleitoral para Presidência da República, Senado e Câmara federal, em 2022, momento em que, no geral, os governantes de plantão estão mais propensos a abrir os cofres em busca da reeleição. Seguiu-se a esta pressão extra sobre o lado fiscal um aperto adicional da política monetária, que se tornou mais restritiva.
A má notícia à época é que o Governo recém-eleito, ao invés de conter os gastos, agiu no sentido oposto e aumentou a despesa pública o que, a despeito dos recordes de arrecadação, tem resultado em déficits primários recorrentes nos últimos quatro anos. Nesse período, por exemplo, a dívida pública como relação do PIB subiu cerca de 10 pontos percentuais.
É nesse ambiente de taxa de juros reais persistentemente elevadas, cujo patamar tem rondado algo como 9%, em alguns momentos até acima, que os fundos e os ativos de risco no Brasil vêm amargando perdas e elevação da volatilidade.
Como consequência desta concorrência das taxas de juros, desde 2022 os multimercados têm experimentado resultados pífios contra o CDI, a taxa de juros básica de curto prazo da economia. Neste período cerca de 2/3 dos fundos multimercados renderam abaixo do CDI, sendo que a rentabilidade média do segmento foi de 70% do indicador.
Os fundos multimercados, em especial os conhecidos como macro, cujos gestores se utilizam de cenários macroeconômicos para gerir os portfólios (os chamados hedge funds brasileiros), buscam retornos diferenciados ou excepcionais por meio de aplicações em ativos de maior risco.
Ocorre que eles não vêm conseguindo entregar estes resultados para os clientes que veem do outro lado os fundos de renda fixa rendendo muito próximos dos 100% do CDI com níveis de risco bastante baixos. Os investidores percebem a situação e se movimentam.
Entre 20222 e julho último, segundo dados da ANBIMA, os fundos de multimercado perderam, tiveram retiradas líquidas, de R$ 670 bilhões de recursos. Para se ter uma ideia do quanto isso representa, esse valor corresponde a mais de um terço do patrimônio líquido registado pela classe em dezembro de 2021.
Em termos de patrimônio líquido, os multimercados hoje somam R$ 1,54 trilhão, cerca de R$ 20 bilhões a menos que em 2021. Esse encolhimento de patrimônio líquido em um país com taxa de juros elevada como a brasileira é muito difícil de ocorrer. Como resultado, a participação dos multimercados na pizza de alocação da indústria de fundos cedeu dos 22,8% em 2021 para 13,7% em julho último, uma redução de 9 pontos percentuais. Essa é a menor participação dede 2006, quando teve início a série histórica da Anbima.
Cansados de amargar com perdas nos multimercados, os investidores têm migrado para a tranquilidade dos fundos de renda fixa. Nesse período a captação destes fundos somou R$ 326 bilhões e, quando acrescida aos R$ 335 bilhões registrados pelos FIDCs, alcançou R$ 661 bilhões.
Uma taxa de juros real, acima da inflação, de 9% torna o trabalho dos gestores de multimercado bastante complicado. Adicionalmente, nesse período o mundo passou, e ainda passa, pela guerra Ucrânia e Rússia, EUA e Irã e Israel e Hezbollah e seus impactos econômicos. A geopolítica que esteva um tanto esquecida voltou a dar o tom do mercado.
É nesse ambiente de taxa de juros elevadas e um mundo mais conturbado, incerto e volátil que os gestores de multimercado vêm perdendo competitividade.
A discussão hoje é sobre até onde essa indústria resiste.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e professor na Administração da ESPM-SP.
Fonte: Valor Investe

