O investidor estratégico está presente em dois terços das transações; número de operações caiu 16% no país na comparação anual
Por Stella Fontes — De São Paulo
19/04/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
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Alexandre Pierantoni, da Kroll no Brasil: Com alta dos juros, investidor estratégico respondeu por dois terços das operações de M&A anunciadas no país — Foto: Marcelo Justo/Divulgação
O número de operações de fusão e aquisição (M&A, na sigla em inglês) anunciadas no Brasil no primeiro trimestre caiu 16% na comparação anual, para 335 transações, em meio à manutenção das taxas de juros em níveis elevados e às incertezas quanto ao novo “arcabouço fiscal” no país, mostra levantamento da consultoria multinacional Kroll ao qual o Valor teve acesso exclusivo.
Nesse ambiente de liquidez mais escassa, segue o estudo, houve uma mudança importante no perfil dos investidores que se envolveram na maior parte das operações, agora mais concentrado no estratégico – que têm viés de consolidação e captura de sinergias e de longo prazo – e menos no financeiro.
“O investidor estratégico está presente em dois terços das transações, muito perto da marca histórica”, diz o diretor de finanças corporativas da Kroll no Brasil, Alexandre Pierantoni. De janeiro a março, 66,6% das transações anunciadas no país envolveram investidores estratégicos e 33,3%, financeiros.
Uma das maiores operações foi justamente a de compra da colombiana Genfar, que pertence à Sanofi, pela Eurofarma, por € 299 milhões. Com a aquisição anunciada em março, a primeira multinacional farmacêutica de capital 100% brasileiro dá sequência à já bem-sucedida estratégia de internacionalização dos negócios.
Dentre as multinacionais, indica Pierantoni, a tendência de revisão de portfólio continuará gerando novas oportunidades de M&A para o investidor estratégico.
O ambiente de juros elevados também afeta o mercado de capitais. Nesse caso, a expectativa é de operações mais voltadas a reestruturação de dívida neste ano, sem grande espaço para IPOs [oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês] de empresas que não sejam de setores mais resistentes às crises e com perspectiva de longo prazo, como energia renovável ou infraestrutura, no curto prazo.
“Se houver ‘follow-on’, será de empresas maduras que vão usar os recursos para reestruturar dívidas”, afirma. “Assim como nas operações de M&A, não vamos ver a bonança de 2021”, acrescenta.
Conforme Pierantoni, embora os dados do primeiro trimestre mostrem redução nas transações, ainda é cedo para afirmar que o ano terminará menor. Em 12 meses, o número de operações ainda está em patamar estável em relação a 2022 (cerca de 1,5 mil), e eventuais indicações de que a taxa de juros vai começar a cair ou uma visão mais clara do “arcabouço fiscal” seriam bem recebidas pelos investidores.
Em relação ao desempenho global das operações de M&A, que caíram 14% no primeiro trimestre, o levantamento mostra que o Brasil está acompanhando o que acontece no restante do mundo. Na América Latina, incluindo México, a queda foi mais acentuada, de 34% na comparação anual, com volume de negócios menor em diferentes países e a Argentina praticamente fechada para transações dessa natureza.
Conforme a Kroll, os múltiplos das transações fechadas na região e no Brasil seguem com desconto em relação a outros países, como Estados Unidos e Europa, mas já começaram a se recuperar da queda vista durante a pandemia.
Fonte: Valor Econômico