Um dos primeiros a produzir e vender produtos de cannabis medicinal no país, grupo adquire 100% das cotas da empresa especializada no desenvolvimento genético da planta
Por Stella Fontes — De São Paulo
09/06/2023 05h01 Atualizado há 3 dias
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Gustavo Palhares, presidente: aquisição representa um divisor de águas — Foto: Silvia Costanti/Valor
Na segunda aquisição concretizada em menos de um ano, a Ease Labs deu um passo relevante rumo à verticalização completa de suas operações e, mais à frente, ao registro de medicamentos à base de cannabis no Brasil. Por valor não revelado, a empresa mineira, que foi uma das primeiras a produzir e comercializar produtos de cannabis medicinal no país, acaba de comprar 100% das cotas da Colômbia Cannabis Company (CCC), especializada no desenvolvimento genético da planta.
Do ponto de vista estratégico, disse ao Valor o presidente da Ease Labs, Gustavo Palhares, a recente aquisição é um divisor de águas. “O grupo passa a deter o maior valor que existe na ponta da cadeia produtiva, que está nas genéticas proprietárias”, explicou. “Vamos dominar a genética da planta. É o ponto de partida para o desenvolvimento do fitomedicamento”.
O domínio dessa etapa é relevante porque o chamado extrato completo (full spectrum, em inglês) carrega outros ativos da cannabis, além do canabidiol (CBD) e do tetrahidrocanabinol (THC), que também têm efeitos nos resultados clínicos. A partir da genética proprietária, segue Palhares, é possivel definir qual será a composição do fitomedicamento, padronizar e controlar o processo de purificação dos ativos.
Baseada em Bogotá, a CCC detém licenças de cultivo, industrialização, comercialização e exportação. Neste momento, vai se dedicar ao desenvolvimento genético e à padronização de um sistema de gestão de qualidade junto aos fornecedores da Ease Labs.
“Passamos a ter controle mais próximo das etapas de cultivo e extração, e vamos conseguir implementar um sistema de qualidade. Esperamos redução de custos e, com isso, chegar no objetivo de acesso ao tratamento, que é a maior dor desse mercado”, disse.
Já disponíveis nas farmácias brasileiras ou via importação, os produtos à base de cannabis ainda têm custo elevado no país. Segundo projeção da Kaya Mind, empresa de inteligência especializada nesse setor, o mercado deve movimentar R$ 655 milhões em 2023 e pode chegar a R$ 917,2 milhões em 2024.
Desde fevereiro, o Canabidiol Ease Labs 100 mg/ml é comercializado pela Raia Drogasil em 23 Estados e até o fim do ano deve estar disponível em outras redes. O segundo produto, que combina canabidiol e THC, é o primeiro na fila de análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pode ter comercialização autorizada a qualquer momento.
O cultivo e a extração da cannabis usada como insumo pela Ease Labs seguirá a cargo de terceiros na Colômbia, ao menos por enquanto. No futuro, essa estratégia pode ser revista. A CCC, por sua vez, exportará o extrato primário para a Semeya (antiga Catedral), farmoquímica do grupo no Brasil que realiza a purificação do material vegetal colombiano. A Semeya, instalada na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), foi comprada pela Ease Labs em agosto do ano passado.
Neste momento, o objetivo é usar a genética proprietária para atender somente às necessidades do grupo, mas a verticalização, que deve estar completa em até oito meses, abre a possibilidade de desenvolvimento de novos produtos, com outros ativos presentes na cannabis. O CBG, por exemplo, é um canabinoide que tem se mostrado efetivo em determinados tratamentos.
A Ease Labs acertou em maio um financiamento na modalidade de “venture debt” com o Itaú BBA, no valor de R$ 15 milhões, mas a operação não tem relação com a aquisição da CCC – que demandou mais de um ano de negociações. Esses recursos serão direcionados para expansão comercial, enquanto na compra da empresa colombiana o grupo recorreu à geração de caixa.
Fonte: Valor Econômico