O apetite global por mercados privados segue firme, mas o tom mudou. Segundo relatório publicado nesta semana pelo Chief Investment Office (CIO) do UBS Global Wealth Management, o primeiro semestre de 2026 trouxe uma combinação de desempenho melhor na maioria dos segmentos com sinais claros de moderação — sobretudo em crédito privado — e uma seletividade crescente por parte dos investidores institucionais.
A avaliação dos estrategistas Karim Cherif, Richard Huang e Antoinette Zuidweg é resumida em uma palavra: cautela construtiva. A formação de capital continua restrita por distribuições mais lentas, níveis elevados de dry powder [capital comprometido ainda não investido] e prudência dos limited partners (LPs). Ainda assim, o conjunto de oportunidades está se ampliando — embora de forma desigual.
Diversificação como antídoto à concentração
O relatório parte de um diagnóstico que se tornou consenso entre alocadores: a liderança estreita do mercado acionário global, puxada por um punhado de empresas de tecnologia ligadas à inteligência artificial, impõe riscos de concentração relevantes. Nesse contexto, os mercados privados oferecem acesso a um espectro mais amplo de estratégias, setores e estágios do ciclo de vida dos ativos — do venture capital em fase inicial à infraestrutura madura.
Dados do MSCI Burgiss compilados pelo UBS mostram que portfólios globais de buyout mantêm exposição setorial diversificada, com múltiplos de retorno total (TVPI) entre 1,80x e 2,34x nos principais setores, para safras entre 2000 e 2024. Segundo o banco, grande parte do upside gerado pela IA já está precificada nas ações de tecnologia listadas; a próxima fase de criação de valor tende a ser mais dispersa, beneficiando empresas privadas em manufatura, saúde, logística e serviços, que estão começando a adotar a tecnologia para ganhar produtividade.
O compromisso com ativos ilíquidos, aliás, não dá sinais de arrefecimento. O Global Family Office Report do próprio UBS indica que family offices mantêm alocação estável em 42% do portfólio em classes alternativas — uma queda marginal em relação aos 44% anteriores, que o banco interpreta como refinamento, não como recuo. Pesquisa do Bank of America, citada no relatório, mostra que mais de 88% dos investidores das gerações Z e millennial planejam ampliar a exposição a alternativos nos próximos anos.
Estruturas evergreen sob escrutínio
Um dos debates mais acalorados do semestre envolveu os fundos evergreen — veículos abertos que permitem subscrições recorrentes e oferecem liquidez periódica. Com patrimônio que cresceu cerca de cinco vezes em apenas cinco anos, superando US$ 500 bilhões em 2025, o segmento ganhou escala rapidamente. Mas no primeiro semestre de 2026 a ativação de limites de resgate (gating) em resposta a pedidos elevados de redenção colocou o perfil de liquidez dessas estruturas em foco.
Para o UBS, os episódios não invalidam o modelo, mas reforçam três pontos: é preciso entender como a estrutura opera, como ela se comporta sob estresse, e — acima de tudo — a natureza intrinsecamente ilíquida dos ativos subjacentes. A liquidez de um fundo evergreen é explicitamente gerenciada e condicional; em cenários severos, prazos de resgate se alongam, filas podem se formar e o acesso ao capital pode ser temporariamente suspenso.
Os BDCs [business development companies] perpétuos de crédito privado ilustram a dinâmica: os resgates atendidos subiram de forma consistente desde o quarto trimestre de 2024, segundo dados do Barclays compilados no relatório, enquanto os fluxos líquidos se deterioraram.
IA e software: a dispersão como oportunidade
Na visão do CIO, a inteligência artificial continua sendo um tema estrutural poderoso para os mercados privados, mas as implicações de investimento estão evoluindo. A primeira fase do ciclo premiou semicondutores e modelos de fronteira; a próxima tende a distribuir valor ao longo de toda a cadeia — dados, orquestração, segurança, software vertical, infraestrutura digital e de energia.
Em private equity, o banco espera dispersão crescente de retornos dentro do universo SaaS [software as a service]: fornecedores de software legado com moats [vantagens competitivas] mais fracos devem seguir pressionados, enquanto provedores de soluções mission-critical em cibersegurança, compliance, governança e infraestrutura de dados tendem a se destacar.
Em venture capital, o UBS mantém recomendação neutra, citando a concentração das rodadas recentes em um punhado de startups de IA e o risco de que IPOs de hectocórnios [empresas avaliadas em US$ 100 bilhões ou mais] testem a capacidade de absorção dos mercados públicos.
Em ativos reais, a tese de infraestrutura se sustenta no crescimento do consumo de tokens e da demanda por energia e transmissão de dados, mas riscos de custo de construção e de regulação podem ampliar a diferença de retorno entre ativos estabilizados e projetos em desenvolvimento.
Crédito privado: não é crise, mas o ciclo amadureceu
O direct lending — maior segmento do crédito privado — enfrentou escrutínio redobrado no semestre. A taxa de default em empréstimos privados subiu para 2,7% no primeiro trimestre de 2026, ante 2,4% no mesmo período de 2025, mas a pressão se concentra em tomadores menores: empresas com EBITDA entre zero e US$ 25 milhões apresentaram taxas de inadimplência mais de três vezes superiores às de companhias com EBITDA acima de US$ 100 milhões.
Os spreads médios permaneceram relativamente apertados, em 476 pontos-base no acumulado do ano até maio, abaixo da média de 510 pontos-base de 2025. O yield total, na casa de 9%, segue atrativo em termos absolutos, mas a abertura recente dos spreads nos leveraged loans reduziu o prêmio relativo do direct lending. O UBS mantém visão neutra para o segmento e projeta retornos mais moderados do que nos anos anteriores.
No mercado público, o índice S&P BDC ainda negocia com desconto de aproximadamente 20% em relação ao valor patrimonial líquido (NAV), o que o banco interpreta como pessimismo excessivo. Historicamente, esse tipo de desconto tendeu a se fechar por recuperação de preço das cotas, e não por queda adicional do NAV.
O recado aos investidores é direto: seleção disciplinada de gestores e construção cuidadosa de portfólio são indispensáveis. Quem está sub-alocado ainda pode capturar rendimentos atrativos ao longo de um ciclo completo; quem já tem exposição pesada deve considerar diversificar para outras estratégias alternativas.
E se vier estagflação?
Embora não seja o cenário-base do CIO, a estagflação é tratada como risco relevante para a construção de portfólio. Em ambiente de inflação e crescimento baixo simultâneos, tanto ações quanto renda fixa tendem a sofrer, e suas correlações se elevam.
A recomendação do UBS para esse cenário se organiza em três eixos: primeiro, ampliar a exposição a estratégias descorrelacionadas, como hedge funds — com destaque para macro discricionário, multi-strategy e equity market neutral. Segundo, buscar ativos atrelados ao PIB nominal, como infraestrutura core e core-plus, cujos fluxos de caixa previsíveis e indexados à inflação oferecem proteção relativa. Terceiro, manter ênfase em qualidade e valor dentro do private equity, priorizando o middle market, onde as valuations são mais atraentes, e buscando complexidade — como carve-outs, desinvestimentos e cisões — que oferecem oportunidades de geração de valor operacional mesmo em cenários adversos.
Fonte: UBS
