O relatório de emprego de junho nos Estados Unidos trouxe um número desconfortável para quem esperava sinais de resiliência inabalável do mercado de trabalho americano. Com a criação líquida de apenas 57 mil postos de trabalho — contra expectativa de 115 mil — e revisões baixistas de 74 mil vagas no bimestre abril-maio, o payroll publicado na semana passada acendeu o debate sobre o ritmo real da atividade econômica e, principalmente, sobre o espaço para o Federal Reserve agir na reunião de julho.
Na avaliação da equipe de macro strategy do BTG Pactual, liderada por Arthur Mota a partir de Miami, o dado mais fraco não configura deterioração do mercado de trabalho, mas reduz a urgência de uma resposta proativa do banco central americano já neste mês. A média móvel de três meses de criação de vagas recuou para cerca de 111 mil — patamar que, embora represente desaceleração frente à leitura de maio, permanece acima do breakeven estimado pelo próprio Fed para manter a taxa de desemprego estável.
Desemprego cai, mas participação recua
O número-manchete, isoladamente, pode induzir a erro. A taxa de desemprego cedeu para 4,2%, com queda de quase 10 pontos-base no desemprego permanente. Contudo, a taxa de participação recuou para 61,5%, o que torna a leitura agregada menos construtiva do que a manchete sugere. Na prática, parte da queda do desemprego decorre de pessoas que deixaram a força de trabalho, e não de absorção líquida pelo mercado.
Os salários nominais avançaram 0,3% no mês e aceleraram marginalmente para 3,5% na comparação em doze meses — patamar que, embora não sinalize pressão salarial explosiva, permanece desconfortável para um Fed que ainda enfrenta núcleo do PCE pressionado.
Ata do FOMC e ISM de serviços dominam a semana
A semana que se inicia concentra a atenção dos mercados em três frentes. Na segunda-feira, o ISM de serviços de junho deve registrar leve acomodação, mas seguir em território expansionista, com consenso em 54,1 pontos contra 54,5 da leitura anterior. O componente de preços pagos deve recuar de 71,3 para 67,5 pontos — ainda elevado o suficiente para sinalizar que pressões de custo persistem mesmo com alguma normalização.
Na quarta-feira, a ata da reunião de junho do FOMC será o principal catalisador de política monetária. O mercado busca detalhes sobre o debate interno que se seguiu à condução considerada hawkish do chair Kevin Warsh, sobre a dispersão de projeções no Summary of Economic Projections (SEP) e sobre a linguagem adotada em relação à estabilidade de preços.
O BTG Pactual espera que o documento reforce a assimetria do mandato duplo, com viés inclinado para a inflação. Essa leitura sustenta a projeção do banco de duas altas de 25 pontos-base ainda em 2026 — em setembro e dezembro —, o que levaria a faixa dos Fed funds de 3,50%-3,75% para 4,00%-4,25% ao final do ano. O cenário contempla ainda CPI headline em 3,30%, PCE headline em 3,14% e PCE core em 2,98% para 2026, com crescimento do PIB de 2,75%.
Ao longo da semana, falas de membros do FOMC devem ajudar a calibrar a função de reação pós-reunião: Waller (segunda, perfil dovish), Williams (quarta, dovish) e Logan (quarta, hawkish) estão na agenda.
Europa: indústria alemã ainda patina
Na Zona do Euro, o destaque da semana é a produção industrial da Alemanha referente a maio, com consenso de avanço de 0,2% no mês — desaceleração frente aos 0,4% de abril. Mesmo que confirmada, a leitura implica contração de 0,5% na comparação anual, sinalizando que o setor manufatureiro segue com dificuldades para liderar uma recuperação ampla. O último índice Ifo mostra fabricantes ligeiramente menos pessimistas, mas o moral empresarial permanece em patamar muito fraco. Para o restante do ano, a expectativa é que maior gasto público com defesa e infraestrutura forneça algum suporte à atividade industrial.
No campo monetário, a ata da reunião de junho do BCE — que elevou a taxa de depósito para 2,25% — será publicada na quarta-feira. O BTG mantém projeção de mais duas altas de 25 pontos-base em 2026, levando a taxa terminal para 2,50%, diante de projeções de inflação subjacente acima da meta. A semana conta ainda com intensa agenda de comunicação, incluindo falas de Lagarde, Lane, Panetta, Nagel e outros membros do conselho.
China: desinflação sem reflação da demanda
Na China, o CPI de junho deve desacelerar marginalmente para 1,1% na comparação anual, refletindo queda adicional de preços de alimentos e fraqueza generalizada nos preços de bens. O PPI, por sua vez, deve recuar para -4,2% na mesma base, acompanhando a queda nos preços de commodities como petróleo e aço. O núcleo do CPI permanece pouco acima de 1%, confirmando que a pressão recente é predominantemente de custos, sem reflação ampla da demanda doméstica.
O crédito agregado de junho, esperado entre 9 e 15 de julho, deve mostrar expansão ainda fraca — coerente com demanda privada debilitada, mercado imobiliário em correção e transmissão limitada dos estímulos monetários ao consumo.
Japão: salários desaceleram, mas BoJ segue em normalização
Os dados de ganhos salariais de maio no Japão, divulgados nesta segunda-feira, devem mostrar avanço de 3,4% na comparação anual, abaixo dos 3,6% de abril, com ganhos reais estimados em 1,8%. A desaceleração reflete efeito calendário — menos dias úteis na comparação interanual — e a medida preferida do Bank of Japan, que exclui mudanças amostrais, deve apontar para 2,6%, ante 2,9%.
A tendência subjacente, no entanto, permanece sólida: empregadores seguem elevando salários para competir num mercado de trabalho cada vez mais apertado. O dado, se confirmado, sustenta a continuidade do ciclo de normalização monetária iniciado com a alta para 1,0% em junho, com expectativa de mais uma alta de 25 pontos-base ainda em 2026, levando a taxa para 1,25% ao final do ano.
Fonte: Global Weekly Macro — BTG Pactual US LLC, Macro Strategy, julho de 2026.
