/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/M/A/sNBNZkT1GXCGrxBVKEjQ/arte01fin-201-tesouro-c2.jpg)
O mercado demonstrou que pode haver, em 2026, demanda por títulos públicos de prazo mais longo. Esse apetite existiria tanto para uma Nota do Tesouro Nacional Série F (NTN-F) com vencimento superior ao prazo máximo atual de dez anos quanto para a oferta de NTN-B também mais longa, como a criação de uma nova versão com vencimento em 2065. A análise foi feita com base em levantamento realizado pela Necton Investimentos que ouviu 119 participantes, como parte da pesquisa da própria instituição sobre o cronograma do Tesouro Nacional para 2026, e obtido pelo Valor.
Esses papéis mais longos não seriam, necessariamente, instrumentos de refinanciamento da dívida, mas ajudariam a criar uma referência adicional que serviria de baliza para emissões corporativas, segundo o estrategista de renda fixa da corretora, Fernando Ferez.
De acordo com a pesquisa, no caso da NTN-F, títulos que pagam taxas prefixadas, 61% dos profissionais afirmaram que o Tesouro poderia introduzir uma versão acima do atual limite de dez anos. No caso das NTN-Bs, que têm rendimento atrelado ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a pesquisa indica algumas novidades, como a proposta de criar um papel com vencimento em 2037, a partir da rolagem da NTN-B 2035. Além disso, o mercado considera que faria sentido alongar a NTN-B 2045 para 2050, assim como a criação de um título com vencimento ainda maior: uma NTN-B 2065.
Na pesquisa do ano passado, a NTN-B com vencimento em 2065, entre todas as NTN-Bs, teve a preferência dos votos de 18% dos participantes. Neste ano, o percentual subiu para 30%, sendo a sétima opção mais votada. Os papéis atrelados ao IPCA são os únicos que passam por rolagem anual.
De acordo com Ferez, se a decisão do Tesouro ficar condicionada ao “timing ideal”, um novo título mais longo dificilmente será criado. Ele defende o lançamento do papel mesmo assim, para estabelecer um instrumento de referência, prática já adotada em mercados emergentes com sistemas financeiros menos desenvolvidos. “Além disso, caso o Brasil recupere o grau de investimento em algum momento e já disponha de um prazo mais longo na curva, como no caso das NTN-Bs, haveria uma realocação de recursos globais, e isso ajudaria com que o custo de juros da dívida caísse associado ao alongamento do prazo médio”, disse.
Para 2026, o mercado vê como prioridade do Tesouro otimizar emissões a custos mais baixos, opção citada por 60% dos participantes. Em seguida vêm a adequada rolagem da dívida, com 49%, e a manutenção ou reforço do colchão de liquidez, com 46%. Melhorar a composição dos indexadores aparece com 45%. O alongamento do prazo médio ficou em último, com 24%.
Mais do que refinanciar dívida, papéis ajudariam a diversificar oferta e a dar referências para emissões corporativas
Em relação ao trabalho do Tesouro em 2025, a pesquisa mostrou que participantes avaliam que as emissões de NTN-B tiveram desempenho menos satisfatório, seja pelo tamanho dos lotes ofertados, pelas taxas ou pelo uso de leilões extraordinários. Para 38%, a atuação foi pouco adequada; para 37%, parcialmente adequada; e apenas 25% consideraram adequada.
Segundo Ferez, as NTN-Bs têm mostrado uma performance ruim por disputarem espaço com o mercado de crédito privado, sobretudo os títulos isentos, como mostrou o Valor. Mas isso também acontece, segundo ele, porque a queda das expectativas de inflação ao longo do ano acabou limitando a valorização desses papéis no mercado. O preço da NTN-B responde ao cenário de expectativa de inflação. Com juros altos e um discurso duro do Banco Central, as expectativas recuaram, os prefixados se valorizaram com as projeções de agentes para futuras quedas nas taxas e as NTN-Bs ficaram praticamente estáveis, o que resultou em um desempenho pior no comparativo. “Se o Banco Central adotar uma comunicação mais branda, aí poderemos ver as NTN-Bs performando mais que prefixado”, disse. Ao contrário do observado nas NTN-B, os agentes de mercado avaliaram de forma mais favorável a atuação do Tesouro no mercado de prefixados (Letras do Tesouro Nacional, a LTN, e a NTN-F) em 2025: 48% consideraram adequado; 40%, parcialmente adequado; e 12%, pouco adequado, conforme a pesquisa da Necton.
O estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital, concorda que um prefixado mais longo seria bem-vindo em 2026. Ele também observa que esses títulos não teriam papel relevante para o financiamento nem fariam parte de um calendário regular de emissões, mas seriam uma referência estratégica capaz de gerar efeitos positivos para a economia. Além disso, após uma rolagem bem-sucedida de títulos em 2025, ele vê espaço para ajustar para baixo o ritmo de emissões em 2026. “Nesse processo, o Tesouro segue perseguindo o alongamento, mas ajusta o ritmo para evitar travar juros altos [pagos pelos investidores] por prazos excessivamente longos”, disse.
Procurado para comentar a possibilidade de emitir títulos mais longos, o Tesouro não respondeu.
Fonte: Valor Econômico