A piora contínua das expectativas de inflação e a depreciação do real, que levou o dólar novamente para a faixa de R$ 5,40 nos últimos dias, dão força à visão de que o ciclo de flexibilização monetária no Brasil acabou. Para ampla maioria dos participantes do mercado financeiro, a Selic deve permanecer estacionada nos 10,5% na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desta quarta-feira.
Das 132 instituições financeiras consultadas pelo Valor, apenas nove ainda veem espaço para um corte de 0,25 ponto percentual no juro básico nesta semana. A mediana das respostas para a Selic no fim do ano tampouco contempla um cenário de que os juros serão reduzidos no Brasil. Apenas 33 casas — exatamente um quarto dos participantes — projetam que o Copom retomará o ciclo de afrouxamento ainda em 2024.
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A sensação de que os riscos relacionados à condução da política econômica pioraram nas últimas semanas teve forte impacto nos preços dos ativos brasileiros. Desde a última reunião do Copom, em maio, o dólar saltou dos R$ 5,15 para perto de R$ 5,40, e os juros futuros exibiram uma escalada firme, ultrapassando a marca dos 12% em diversos vértices da curva.
Ao mesmo tempo, após a decisão dividida do Banco Central em sua última reunião de política monetária, ganhou força um movimento de desancoragem das projeções de inflação de médio prazo. As expectativas para o IPCA no ano de 2025 no Boletim Focus, que estavam em 3,64%, subiram para 3,78% e, assim, se afastaram ainda mais do centro da meta perseguida pela autoridade. Dinâmica semelhante ocorreu para as projeções de inflação de 2026, que avançaram de 3,50% para 3,60%.
A pesquisa elaborada pelo Valor vai ao encontro desse cenário, ao apontar que a mediana das estimativas de inflação para 2025 da edição de maio para cá saltou de 3,62% para 3,80%.
Nesse contexto, participantes do mercado não enxergam outra alternativa ao Banco Central que não seja encerrar, ao menos por ora, o ciclo de afrouxamento monetário. As fontes ouvidas pela reportagem ainda têm em seus cenários-base uma decisão unânime dentro do colegiado.
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“Acabamos migrando para a visão de que, para controlar a piora das expectativas de inflação, o Copom terá de pausar [o ciclo] e buscar uma unanimidade. O dólar subiu, a inflação tem dado alguns sinais um pouco mais chatos e a atividade segue forte”, afirma a economista-chefe da Gap Asset, Anna Reis.
A economista também espera que a projeção de inflação do Copom para o ano de 2025 volte a se afastar do centro da meta, com a piora do câmbio e das expectativas do Focus. “A gente acha que deve passar de 3,3% para 3,4% ou 3,5%. E o BC também deve revisar sua projeção de juro neutro para 5% em termos reais no Relatório de Inflação, o que seria mais um motivo para essa projeção se aproximar dos 3,5%”, aponta a economista.
De acordo com ela, também há incertezas de como o colegiado irá comunicar a pausa nos cortes. “Dado que vai pausar, é esperado que o comunicado seja ‘hawk’ [conservador]. Ele provavelmente vai colocar bastante peso nas expectativas. O que eu vou monitorar é se ele vai sinalizar como uma pausa no ciclo de cortes ou tratar mais como uma interrupção”, afirma.
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Na avaliação do BNP Paribas, o colegiado não deve fechar completamente a porta para novas reduções da Selic em 2024, mas, ao se colocar em modo “dependente dos dados” e reforçar que busca a convergência das expectativas, a taxa básica de juros deve terminar o ano em 10,5%.
“Acredito que o discurso dos membros do Copom será mais uníssono desta vez. A decisão dividida trouxe muita volatilidade para o mercado e, pelas comunicações recentes, temos visto os membros tentando trazer um discurso mais único”, afirma Laiz Carvalho, economista para Brasil do BNP Paribas. O banco francês projeta, atualmente, dois cenários: ou uma decisão unânime em torno da manutenção dos juros em 10,5% ou a manutenção pelo placar de 7 votos favoráveis a uma pausa contra 2.
Apesar da perspectiva de um sinal mais alinhado dos membros do Banco Central, a economista do BNP não crê que haverá impactos diretos na reancoragem das expectativas de inflação. Isso porque, segundo ela, há três vetores impulsionando a elevação nas projeções para o IPCA nos anos de 2025 e 2026.
“O primeiro é uma pressão de inflação mais alta em 2024, que pode ocorrer pelos impactos da tragédia do Rio Grande do Sul, por efeitos geopolíticos ou por uma inflação mais alta no exterior. O segundo é a permanência das incertezas fiscais. Como tenho uma projeção de déficit de 0,7% em 2024 e 1% em 2025, contra uma projeção de 0% do governo, o risco fiscal acaba sendo incluído nas projeções de inflação. Isso só vai ficar mais claro perto de agosto, com as discussões para o Orçamento de 2025. E o terceiro ponto, que não é relevante nas minhas projeções, mas que o mercado tem levado em conta, é a possibilidade de um BC mais ‘dovish’ [pró-afrouxamento] a partir do ano que vem”, enumera a economista do BNP Paribas.
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Na mesma linha, de acordo com o economista-chefe para Brasil do BTG Pactual, Claudio Ferraz, um possível dissenso na decisão poderia pressionar ainda mais as expectativas de inflação.
“Uma eventual falta de unanimidade na decisão, mesmo que não seja tão larga quanto a da reunião de maio, teria um efeito adicional bastante deletério sobre as expectativas. Além disso, dúvidas persistem a respeito da comunicação. Acho que há dúvida sobre se será outra reunião sem nenhuma informação futura ou sobre se será uma pausa no ciclo ou algo do gênero. Acho que não deveria haver menção a uma pausa porque, no contexto atual, poderia alimentar uma piora adicional das expectativas, mesmo se houver uma interrupção unânime do ciclo”, aponta.
Para ele, inclusive, é possível que haja uma mudança no balanço de riscos para a inflação, algo que já foi discutido na reunião passada, como mostrou a ata da decisão de maio. “Vimos com bons olhos que alguns membros do comitê reconheceram a possibilidade de uma reavaliação dos pesos dos fatores baixistas e altistas no balanço de riscos. Acho que deveria existir uma assimetria no balanço de riscos agora.”
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O economista-chefe da XP Asset, Fernando Genta, também espera um placar de 9 a 0 pela manutenção da Selic, mas pondera que a corrida pela presidência da autoridade monetária pode ser um risco. “Olhando os discursos de todos os diretores e os fundamentos, tudo caminha para um 9 a zero, mas sabemos que, embora todos os diretores sejam autônomos, há uma corrida pela indicação para a presidência do BC e isso acaba bagunçando um pouco a expectativa sobre o voto de alguns diretores. Não significa que determinado diretor seja conivente com inflação alta ou não ligue para as expectativas, mas também existe uma restrição para tentar se viabilizar para ser o próximo presidente do BC e isso inclui uma incerteza quanto ao placar.”
Outras fontes consultadas pela reportagem também observam que, para além do placar, será preciso observar com atenção como será a recepção do mundo político ao resultado da decisão e em que tom as críticas serão direcionadas aos membros indicados pelo governo que eventualmente votarem pela interrupção do ciclo.
Apesar de um cenário desafiador no curto prazo, ainda há a perspectiva, por alguns participantes do mercado, de que os juros voltem a cair ainda neste ano. Anna Reis, da Gap Asset, acredita que haverá espaço para a retomada dos cortes mais perto do fim do ano. “Nossa projeção de inflação é de 3,7% para 2025. Com isso, olhando para frente, com uma Selic a 10,5%, a taxa de juro real seria de quase 7%. No segundo semestre, quando o horizonte relevante de política monetária começar a migrar para 2026, a projeção de inflação do Copom pode começar a ficar abaixo da meta de 3%. Aí ele poderá retomar os cortes”, projeta a economista.
Com isso, a economista acredita em dois cortes de 0,25 ponto percentual nas duas últimas reuniões do Copom neste ano. Segundo ela, o ambiente externo deverá ser mais favorável no fim de 2024, com o provável início do ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos. “O Fed deve começar a cortar os juros em setembro, mas, mesmo se eles forem adiados para novembro, já estaríamos na iminência dos cortes nos EUA. Isso pode trazer um ambiente melhor no segundo semestre, com valorização de moedas emergentes”, afirma.
O BNP Paribas vê espaço para a retomada dos cortes de juros somente em 2025 devido à expectativa de que a maioria dos bancos centrais vá prosseguir seus ciclos de flexibilização. Assim, o banco francês espera 1 ponto percentual de cortes na Selic no ano que vem, levando a taxa para 9,5%.
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Fonte: Valor Econômico