A volatilidade eleitoral parece ter, finalmente, dado sinais de que chegou aos mercados locais. A divulgação de uma pesquisa que mostrou Lula com uma clara distância em relação a Flávio Bolsonaro não chegou a alterar de forma substancial as probabilidades atribuídas pelos investidores ao resultado do pleito, mas escancarou que o prêmio cobrado pelo mercado para carregar os ativos brasileiros até as eleições pode ter de ser maior.
Há algumas ressalvas em relação à reação dos mercados à pesquisa CNT/MDA divulgada ontem. Como o instituto mostra há algum tempo maior diferença entre os dois candidatos que grandes institutos do país, participantes do mercado avaliam que as informações contidas no levantamento não teriam, por si só, relevância suficiente para provocar uma mudança abrupta nos preços dos ativos.
Outro sinal de que pouco mudou na probabilidade atribuída pelos investidores ao desfecho das eleições está nos mercados de previsão. O Polymarket, desde o início de agosto, exibe um cenário praticamente estático: Lula com 64% de chance de ser eleito, contra 27% de Flávio.
Mas o fator temporal começa a pesar de forma mais forte sobre os ativos locais. A menos de dois meses das eleições, a volatilidade tende a crescer e a reduzir o ímpeto e os limites de risco dos participantes do mercado.
Não por acaso, o J.P. Morgan rebaixou ontem a recomendação para as ações brasileiras, citando que o país, historicamente, exibe desempenho inferior nos seis meses que antecedem as eleições. “De modo geral, os preços ainda parecem refletir um cenário muito tranquilo por enquanto, e estamos migrando para uma posição de espera diante da volatilidade que se aproxima”, nota a equipe liderada pela estrategista Emy Shayo Cherman.
Em conversas com dezenas de participantes de mercado nas últimas semanas, havia ampla expectativa de que agosto trouxesse de volta a volatilidade aos negócios domésticos. O retorno das férias dos investidores no Hemisfério Norte, em meio a um ambiente menos convidativo à tomada de risco, com maiores probabilidades de um aperto monetário nos EUA, parecia terreno fértil para o aumento da cautela dos estrangeiros. Apenas nos últimos dois pregões, a retirada de recursos da bolsa local foi de R$ 4,6 bilhões, enquanto o saldo negativo em agosto já alcança R$ 5,5 bilhões.
Em um cenário global mais desafiador para o Brasil, investidores argumentam que as fragilidades domésticas tendem a ficar mais expostas. E, com uma pesquisa reforçando a hipótese de vitória do incumbente, a atenção do mercado passa a se concentrar mais em como será a direção da política fiscal em um eventual governo Lula 4 do que, propriamente, em quais são as chances de a oposição sair vitoriosa.
Nesse aspecto, as dúvidas permanecem intactas. Há uma percepção crescente no mercado de que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem a anuência de Lula em suas tentativas de aproximação com o setor financeiro e de que a equipe econômica entende a urgência do anúncio de medidas de ajuste nas contas públicas logo após as eleições.
No entanto, como a palavra final será do presidente, há pouquíssima disposição dos agentes para comprar a tese de uma melhora nas contas públicas. É justamente isso que tem feito o mercado operar com prêmios mais elevados.
“No fim das contas, o presidente importa pouco. O que é relevante mesmo é o fiscal. Mas não consigo esperar uma consolidação fiscal séria de alguém que passou virtualmente seis governos gastando mais do que pode. Pode acontecer um milagre, mas eu acho pouco provável”, resume um gestor.
Assim, um estrategista de uma instituição aponta que o comportamento recente do câmbio brasileiro denota uma recomposição dos prêmios incorporada ao real. A moeda local, inclusive, aparece com o pior desempenho em agosto entre as principais divisas globais.
“Como o risco eleitoral entra nos preços? Gradualmente. Depois, de repente”, avalia. Segundo ele, os últimos dias podem ter sido o primeiro movimento de um processo que se desenrolará aos solavancos, em etapas.
Fonte: Valor Econômico

