Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
28/06/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
Em um momento em que o S&P 500, um dos principais índices da bolsa de Nova York, acumula um retorno negativo de mais de 18% no ano até 27 de junho, “comprar a queda”, uma conhecida estratégia para ganhar com uma eventual recuperação das ações no médio prazo, poderia ser uma opção. Mas “só se você for corajoso o suficiente [para aguentar a volatilidade] e investir em um horizonte de, pelo menos, 12 meses”, afirma o estrategista-chefe global de ações do Citi, Robert Buckland.
Para o especialista, “é preciso entender que o mercado pode cair ainda mais no curto prazo”. Na visão de Buckland, existe um horizonte de incertezas pela frente, a partir de eventos como a guerra na Ucrânia, a questão inflacionária e a intensidade e duração dos ciclos de aperto monetário em andamento pelos bancos centrais globais, principalmente, o Federal Reserve (Fed, o BC americano). O executivo conversou com o Valor de Londres, no Reino Unido, antes de vir ao Brasil participar da 14ª edição do “Citi Brazil Equity Conference”, nesta semana.
Buckland ressalta que “a história dos aumentos das taxas tem sido amplamente precificada [pela atual queda das ações], mas a história da recessão, não”. De acordo com o estrategista, “apenas um setor subiu neste ano em todo o mundo, o de petróleo”.
Em um cenário consolidado de recessão, o mercado no Brasil sofreria. “Os mercados percebem o Brasil como uma espécie de comércio de commodities, com reflexo tanto na moeda quanto na bolsa de valores. Então, meus clientes estão preocupados, se houver uma recessão global, que o Brasil estará ciclicamente exposto a isso, principalmente por meio do link de commodities.”
Apesar da névoa que cerca os mercados, dentro da perspectiva de médio e longo prazos, faria sentido “comprar a queda”. Segundo o executivo, “estamos, globalmente, mais de 25% abaixo [em termos de preços de ações] desde o início do ano e invertemos a maior parte do jogo [de ‘valuations’ exagerados] do ano passado”. Conforme o estrategista, “ temos os mercados, praticamente, de volta aos níveis pré-covid”.
Até mesmo as ações de tecnologia podem ser uma opção dentro de um horizonte de tempo mais longo. “Acho que as avaliações no setor de tecnologia agora parecem muito mais realistas”, diz. “O que aconteceu é que os bancos centrais jogaram muito dinheiro no sistema. E muito disso acabou em ações de tecnologia. Como as autoridades monetárias estão agora retirando essa liquidez do sistema, as ações de tecnologia foram as que mais perderam.”
“Dentro da perspectiva de um mercado com tendência de baixa, queda de ações pode estar apenas na metade”
De acordo com Buckland, o Fed e outros BCs estão em processo de subida de juros, mas ainda não ficou totalmente claro até onde esses ciclos vão chegar ou qual o impacto sobre a economia real. “Acho que muitos desses aumentos estão agora no preço. Então, estamos começando a pensar em comprar tecnologia de novo. A maioria das altas de juros, provavelmente, já está precificada [na queda das ações], embora sempre haja o risco, é claro, de a inflação permanecer alta e o Fed ter de subir ainda mais do que os mercados esperam atualmente.”
Conforme o estrategista-chefe do Citi, o cenário base para o banco é de os juros nos EUA terminarem o ano em 3,75%. O Fed, porém, subiria as taxas ainda mais um pouco até meados de 2023, quando alcançariam 4,25% ao ano. “A questão mais importante, na verdade, é por quanto tempo o BC americano estará caminhando no futuro.”
“Os mercados de títulos [do Tesouro dos EUA] estão precificando muito bem esses aumentos de taxas, embora exista o risco de os dados de inflação permanecerem muito mais elevados do que achamos. Talvez em setembro ou outubro deste ano tenhamos uma visão mais clara sobre se os preços das commodities cairão no final do ano, o que certamente ajudaria [a tirar pressão sobre preços]. Então, achamos que o pico de inflação ainda não chegou. E talvez seja isso que os mercados precisam ver [para se acalmar].”
Buckland afirma que o cenário base do Citi ainda é de um “pouso suave” da economia dos Estados Unidos, ou seja, uma desaceleração da atividade devido à ação do Fed, mas sem cair em recessão. Porém, o estrategista lembra que as probabilidades de retração estão em um nível muito alto. Segundo o especialista, “nossos economistas sugerem que agora, provavelmente, há chance de 50% [de recessão], o que o torna [o evento] como uma moeda lançada ao ar, com meio a meio de possibilidade de recessão global, em algum momento nos próximos 12 a 18 meses”.
O estrategista-chefe explica que “a economia dos EUA está enfraquecendo, mas ainda temos previsão de crescimento de 2,5% para este ano e estamos prevendo um pouso suave, à medida que avançamos para 2023.”
Para Buckland, “o dano [ao mercado acionário] no início do ano foi causado por taxas de juros mais altas”. No entanto, “em uma perspectiva de ‘bear market’ [mercado em tendência de baixa], poderíamos dizer que ainda teríamos um segundo round de queda, como uma função da queda dos lucros”.
As ações mais atingidas no início do ano foram as de tecnologia e de crescimento. “Mas à medida que avançamos para o segundo semestre deste ano, os papéis cíclicos vão se mostrar mais vulneráveis, já que os investidores se preocupam cada vez mais com a ideia de que a economia global possa estar entrando em recessão”, avalia.
Sobre a pressão dos preços de commodities, Buckland tem uma visão um pouco mais otimista. O pico de altas pode ter sido alcançado. “Uma combinação de demanda enfraquecida [diante da desaceleração da atividade global] e oferta crescente fará com que o preço do petróleo caia para a casa dos US$ 80 [o preço do barril tem oscilado acima de US$ 100]. À medida que olhamos os próximos seis a 12 meses, vemos alguma deflação do preço do petróleo.”
Na avaliação do especialista, uma queda do preço do petróleo é importante para estabilizar o mercado acionário. “O preço do petróleo precisa cair para o mercado de ações se estabilizar, porque a melhor e mais rápida maneira de baixar os dados da inflação global seria os preços do petróleo e dos combustíveis caírem”, diz.
Na área de commodities agrícolas, “claramente os preços internacionais foram fortemente afetados pelo conflito na Ucrânia e suspeitamos que, dos três principais tipos de commodities, as agrícolas provavelmente permanecerão no maior patamar”. Assim, “os preços das commodities agrícolas podem subir ainda, mas os metais devem permanecer [estáveis em níveis] altos; já o petróleo sofrerá mais pressão.”
Fonte: Valor Econômico