As mega-aberturas de capital (IPOs) previstas para os próximos meses – SpaceX, OpenAI e Anthropic, que juntas podem captar mais de US$ 150 bilhões – têm acendido uma preocupação na Faria Lima: a de que a corrida global por empresas de tecnologia possa prolongar a saída de recursos de alguns mercados, justamente em um momento em que o investidor estrangeiro já reduz exposição à bolsa brasileira. Embora não haja consenso sobre a magnitude desse efeito, parte do mercado vê risco de pressão adicional sobre o Ibovespa no curto prazo, enquanto outra ala acredita que a demanda será absorvida sem comprometer a atratividade relativa do Brasil.
Embora a expectativa de captação possa colocar este ano como o maior em termos de aberturas de capital nos EUA, o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, diz que há liquidez e profundidade suficientes no mercado americano para absorver o volume expressivo que pode ser movimentado. Dessa forma, ele acredita que a chegada dessas companhias a Wall Street pode não retirar recursos destinados às ações brasileiras.
Ontem, a Anthropic largou na frente ao protocolar o seu IPO confidencialmente, buscando superar a OpenAI, sua concorrente direta. Já a Alphabet, controladora do Google, anunciou a emissão de US$ 80 bilhões em ações para financiar sua expansão de infraestrutura para inteligência artificial (IA).
“Não necessariamente vai sair dinheiro do Brasil. Esses mega IPOs são mais o retrato desse otimismo muito grande com IA e ‘techs’ do que a causa por trás desse fluxo de saída”, avalia Ferreira. “É a cereja do bolo.”
Já o diretor de investimentos em ações para América Latina da Aberdeen PLC, Ivan Kleimann, ressalta que os mega IPOs têm potencial para absorver uma parcela relevante da liquidez global no curto prazo, o que pode dificultar o movimento de rotação para mercados emergentes, entre eles o Brasil.
Ainda assim, ele pondera que o fluxo estrangeiro para a bolsa local já vinha se deteriorando antes mesmo do anúncio das ofertas. Desde 15 de abril, as retiradas de investidores não residentes de ações listadas na B3 somam R$ 28,9 bilhões. Ao mesmo tempo, ações de empresas de tecnologia dos EUA, da Coreia do Sul e de Taiwan registraram valorização bastante expressiva no período.
Segundo Kleimann, o movimento reflete a retomada do “trade” de inteligência artificial, com investidores voltando novamente recursos para ações de tecnologia americanas e para mercados mais expostos à cadeia global de semicondutores. Não à toa, a sul-coreana SK Hynix e a americana Micron Technology alcançaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado nos últimos dias.
Nesse sentido, o executivo avalia que as ofertas podem elevar a volatilidade tática e gerar “alguma pressão relativa” sobre os ativos domésticos, mas que isso não altera a tese estrutural para o país. “Naturalmente, [os IPOs] não ajudam, mas não mudam o ‘setup’ [configuração] do mercado de forma estrutural”, diz. “Dificilmente eles serão suficientes para provocar uma inflexão adicional relevante na tendência de fluxos”, acrescenta o diretor da Aberdeen.
Kleimann explica que o pano de fundo para o mercado acionário local permanece inalterado e construtivo. “‘Valuations’ seguem descontados, há exposição relevante a commodities e o país apresenta um posicionamento geopolítico mais resiliente, além de catalisadores domésticos importantes, como o ciclo eleitoral”, afirma. “O ponto de partida também é favorável, com uma baixa alocação global em Brasil e fundamentos ainda atrativos no contexto dos mercados emergentes.”
Embora seja difícil estimar os impactos exatos desses eventos sobre o mercado local e sobre emergentes, o histórico mostra que grandes aberturas de capital costumam influenciar o comportamento dos mercados globais. Levantamento do Bank of America (BofA) indica que a reação dos principais índices após os dez maiores IPOs da história – entre eles Saudi Aramco, Alibaba, SoftBank, NTT, Visa, AIA Group, Enel, Facebook, GM e ICBC – foi, em geral, mais positiva do que negativa nos 12 meses seguintes ao lançamento das ofertas.
Em relatório, a equipe de estratégia global do BofA, liderada por Michael Hartnett, destaca que os IPOs do Alibaba e do banco ICBC foram acompanhados por fortes altas das ações chinesas entre três e 12 meses após as operações. Já as ofertas da Visa e da seguradora AIA Group foram seguidas por um desempenho mais fraco dos índices locais cerca de seis meses depois.
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O gestor de renda variável da RPS Capital Thalles Franco reconhece que as aberturas podem drenar a liquidez dos mercados e afetar o Brasil “por tabela”, mas avalia que a baixa participação do país em índices globais poderia “proteger parcialmente” o mercado acionário local se fatores relevantes se mantiverem positivos no momento dos IPOs.
“Por ter um peso menor nos índices globais, o Brasil depende mais de outras variáveis, como apetite por emergentes, commodities e cenário eleitoral. Assim, o país poderia sofrer menos por essa migração de capital para as techs americanas”, afirma Franco.
A baixa representatividade do Brasil nas carteiras globais ajuda a dimensionar o potencial impacto sobre as alocações. Os mercados emergentes respondem por cerca de 10% dos portfólios globais de ações. E, dentro desse universo, a América Latina representa aproximadamente 8% e o Brasil, algo próximo a apenas 5%, observa a diretora-executiva e estrategista de mercados globais do J.P. Morgan Asset Management, Gabriela Santos. “Ou seja, o Brasil representaria 0,5% de uma carteira de ações globais, levando em conta uma alocação neutra em Brasil”, observa.
Nesse contexto, a estrategista da asset do J.P. Morgan destaca que os recursos absorvidos pelas grandes aberturas de capital nos EUA tendem a sair principalmente dos mercados asiáticos, especialmente de empresas de tecnologia de Taiwan com forte exposição ao segmento de semicondutores.
De acordo com Santos, essas ofertas têm impacto sobretudo em relação ao apetite dos investidores por inteligência artificial, que possui uma competição mais forte entre companhias de países como EUA, Taiwan e Coreia do Sul.
“Acho que o Brasil participa indiretamente do tema de inteligência artificial via commodities. Porém, eu acho que não é diretamente a maneira que os investidores estão pensando em investir no tema de inteligência artificial”, acrescenta a executiva.
Mesmo em meio ao entusiasmo com o setor de inteligência artificial e com as aberturas de capital bilionárias, o grau de exuberância do mercado americano tem sido novamente alvo de questionamentos sobre a formação de bolhas.
Ferreira, da XP, no entanto, minimiza o temor de parte do mercado de que o momento atual guarde semelhanças com a bolha da internet dos anos 2000, que culminou em uma forte correção das ações de tecnologia. Segundo o estrategista, a principal diferença é que, há duas décadas, muitas empresas do setor ainda não geravam lucro, enquanto os múltiplos atuais não configuram um cenário característico de bolha.
“Vai depender muito da dinâmica de crescimento dos lucros e da capacidade de monetizar todo o capex [investimento] realizado pelas empresas de inteligência artificial. Se as ‘big techs’ colocarem um pé no freio nos investimentos, aí sim pode haver um efeito em cascata. Mas, enquanto a música estiver tocando, não vejo muito paralelo com uma bolha”, afirma Ferreira.
Fonte: Valor Econômico

