Por Marsílea Gombata — De São Paulo
24/06/2022 05h02 · Atualizado há 5 horas
Depois do impulso dos serviços e do setor agropecuário no primeiro trimestre, a economia brasileira deve amargar o segundo semestre de 2022 e o ano de 2023 difíceis. Isso porque o efeito da reabertura tende a se normalizar e os estímulos fiscais que impulsionaram o setor devem cessar. No lugar disso, a perspectiva é de contração da massa de rendimentos e os efeitos de uma política monetária contracionista, afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Em sua edição de junho, o Boletim Macro alerta para a desaceleração da economia nos próximos trimestres. Apesar de revisar sua projeção de Produto Interno Bruto (PIB) para 2022 de 0,7% para 0,9%, por causa de informações relativas ao segundo trimestre, o FGV Ibre afirma que o crescimento deve ser menos robusto no segundo semestre, com contração da atividade. “Na nossa visão, as notícias boas para o consumo se concentraram neste primeiro semestre, e tudo indica que a massa de rendimentos do segundo semestre deve ter contração forte”, afirma Silvia, em entrevista ao Valor.
No lugar de impulsos que contribuíram para boas notícias nesse início de ano, efeitos defasados da política monetária devem ditar o rumo da atividade, afirma. “Não é que esses efeitos já não estejam atuando. Estão, mas ainda há forças contrárias atenuando o impacto negativo da política monetária. Saindo de cena esses fatores positivos, a gente espera que no segundo semestre o efeito da política monetária se intensifique”, diz.
A tendência, argumenta a economista, é convivermos com inflação alta e juros na casa de dois dígitos pelo menos até o fim de 2023. “Infelizmente o processo inflacionário doméstico e internacional tem sido mais persistente e levado a uma piora das expectativas inflacionárias”, diz. “Acho que está mais claro que será necessário puxar o freio de mão por muito tempo para fazer com que a inflação volte para a meta.”
Na conversa, Silvia também destaca fatores estruturais que explicam a dificuldade de o país crescer a taxas mais altas, ressaltando o problema crônico da baixa produtividade. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: O PIB do primeiro trimestre deu uma injeção de ânimo. Mas olhando adiante temos mais ou menos motivos para comemorar?
Silvia Matos: Acho que veio um pouco abaixo da expectativa do mercado, bem em linha com a nossa previsão de 0,9%, por fatores temporários que explicam esse resultado mais forte no início do ano. O setor de serviços viria forte porque em fevereiro e março a atividade voltou e teve um crescimento muito forte em serviços intensivos em trabalho, que são os prestados às famílias e que estavam muito abaixo do patamar pré-pandemia. Do lado de serviços, a economia ainda tem o impulso de mais alguns meses, mas a gente avalia que há também muitos sinais de desaceleração. Um outro fator relevante para o primeiro trimestre foi a contribuição do setor externo para o crescimento. E já há perspectiva de essa contribuição começar a entrar em terreno negativo diante não apenas da desaceleração da economia mundial, mas também porque é natural no início de ano ter uma contribuição maior do setor agropecuário. Mas esperamos que isso vá se arrefecer ao longo do ano.
Valor: É por isso que no boletim o FGV Ibre fala em desaceleração nos próximos trimestres e em 2023?
Silvia: Sim. Principalmente pelo consumo das famílias, que foi forte no primeiro trimestre e deve ser positivo no segundo também, devido aos esforços do governo em manter o consumo com extensão e ampliação do auxílio, antecipação do 13º, liberação do FGTS, e por uma normalização da cesta do consumidor, que volta a consumir serviços que têm peso de 50% na cesta. Então seria natural o consumo ainda dar essa contribuição, apesar dos desafios pela frente, como a inflação muito alta. Um outro aspecto positivo é que essa é uma economia muito intensiva em trabalho, então a gente tem visto uma geração de emprego muito forte, o que é um fator positivo e ajuda a atenuar a renda muito deprimida. Isso ajuda a massa salarial a ter um resultado um pouco mais positivo. Mas, na nossa visão, as notícias boas para o consumo se concentraram neste primeiro semestre, e tudo indica que a massa de rendimentos do segundo semestre deve ter contração forte.
Não acho que o crescimento será muito diferente de 1% em 2022; está mais perto de 1% do que de 2%”
Valor: O que deve ocupar o lugar desses impulsos que contribuíram para boas noticias nesse início de ano, como normalização dos serviços, estímulos fiscais e alta dos preços das commodities?
Silvia: Serão, principalmente, os efeitos defasados da política monetária. Não é que já não estejam atuando. Estão, mas ainda há forças contrárias atenuando o impacto negativo da política monetária. Saindo de cena esses fatores positivos, a gente espera que no segundo semestre o efeito da política monetária se intensifique. Infelizmente temos dados defasados em relação a crédito, por causa da greve [dos servidores] no Banco Central, mas indicadores como o Serasa e de sondagem do consumidor mostram um quadro bem preocupante em termos de endividamento das famílias e orçamento apertado. Então, esse impulso do consumo das famílias desse semestre deve ter uma contribuição negativa adiante.
Por outro lado, sabemos que o investimento é muito penalizado por esse cenário de incerteza doméstica. Além da questão internacional que impacta não apenas o Brasil e o mundo, com a política monetária muito mais apertada, também há o fato de estarmos em um ano de eleição com muita incerteza sobre como será a política fiscal, qual vai ser a política econômica do próximo governo. E, no curto prazo, há uma preocupação excessiva e em conseguir aumentar a popularidade do governo, o que dificulta o controle da inflação, aumentando o risco fiscal e tornando o cenário ainda mais desafiador para o próprio investimento e o crescimento como um todo.
Valor: Conviveremos com um período de inflação e juros altos por muito tempo? Qual o impacto disso na atividade?
Silvia: Infelizmente o processo inflacionário doméstico e internacional tem sido mais persistente e levado a uma piora das expectativas inflacionárias. Estamos vendo uma inflação muito acima do centro da meta [de 3,25%] do ano que vem, e o próprio Banco Central tem sinalizado isso. Acho que está mais claro que será necessário puxar o freio de mão por muito tempo para fazer com que a inflação volte para a meta. Estamos muito distantes da meta e dependemos também do cenário internacional e do cenário doméstico, principalmente do fiscal. O desafio para o Brasil e para o mundo de trazer a inflação para um patamar baixo será realmente difícil. O cenário mais provável será manter juros [altos] por um tempo mais prolongado para colher uma inflação mais baixa.
Isso significa custos para a atividade. Não dá para olhar 2022 em termos de atividade sem olhar 2023. Por enquanto temos um crescimento em torno de 0,3% para 2023, mas uma inflação podendo ainda ser alta, dependendo do que sair em termos de redução de impostos no curto prazo. Não apenas em 2023, mas provavelmente em 2024 ainda teremos efeitos negativos sobre atividade, já que o Banco Central talvez só consiga reduzir os juros no fim de 2023 ou início de 2024. E, como a política monetária demora alguns trimestres para fazer efeito, provavelmente colheremos menos crescimento em 2024 do que poderíamos se a gente tivesse expectativa inflacionária para 2023 não tão acima do centro da meta.
Valor: A ideia de juros de um dígito, então, ficou para trás?
Silvia: Pelas nossas contas, vamos conviver pelo menos em 2023 com juros acima de dois dígitos. Teria de haver um cenário muito favorável lá fora, no sentido de a inflação desacelerar bastante [para isso não acontecer]. Mas ainda não sabemos como será do ponto de vista de inflação e crescimento, não está claro quando o mundo conseguirá desacelerar a inflação mundial. Também depende de questões domésticas aqui. Colocando tudo na conta, o que a gente consegue ver como cenário central é que somente em 2024 a gente consiga reduzir mais essa taxa de juros para menos de dois dígitos.
Investimento generalizado, que permeia toda economia, acaba sendo menor do que poderia, devido a incertezas”
Valor: Por que, de maneira geral, o FGV Ibre está mais pessimista que agentes de mercado como bancos no que diz respeito a projeções?
Silvia: De maneira muito resumida, acho que por dois aspectos. O primeiro é o consumo das famílias bem mais forte tendo um componente muito temporário pela composição. E agora vamos ver essa desaceleração. A massa de rendimentos terá uma contração muito forte após os efeitos mais temporários. Estamos vendo o governo muito preocupado em reduzir a inflação ou conseguir mais estímulos, o que pode ser visto como forma de buscar atenuar esse choque. E há ainda os efeitos defasados da política monetária. Esses estímulos perdem tração porque temos uma inflação muito elevada. Quando tiramos os fatores temporários nesse primeiro semestre, o cenário fica bem mais negativo no segundo semestre. Não acho que o crescimento será muito diferente de 1% em 2022; está mais perto de 1% do que de 2%, na minha avaliação. Com a redução do aperto monetário no fim do ano que vem, quando a gente espera alguma acomodação de inflação, o crescimento para 2024 também fica em torno de 1% ou 1,5%, ainda baixo. No Brasil, estamos no cenário de juro real doméstico de fatores domésticos bem pressionados, de muita incerteza fiscal contaminando esses juros de equilíbrio. Enquanto não encontrarmos equilíbrio entre gastos sociais necessários para uma economia que está sofrendo tantos choques dentro do controle de gastos e retomar o superávit primário de forma não temporária, teremos de conviver com juros altos. O crescimento de 2024 dependerá muito desses fatores, e há mais riscos negativos do que positivos. Dependerá muito das cenas dos próximos capítulos do próximo governo. O legado de 2022 para 2023 é um carregamento estatístico bem negativo, com a política monetária muito apertada no início do ano. O cenário positivo seria mais para o fim de 2023 e para 2024. Porque está na conta que 2023 será ruim.
Valor: Tentando olhar para questões conjunturais e estruturais, o que tem impedido a economia brasileira de crescer?
Silvia: É muito claro que o que faz o Brasil crescer pouco é a [baixa] produtividade, cujo nível pré-pandemia não foi recuperado. Há um amplo debate sobre como conseguir essa eficiência econômica, mas basicamente sabemos que precisamos melhorar o ambiente de negócios e que ter equilíbrio macroeconômico é condição necessária, mas não suficiente, para o crescimento. Sem equilíbrio macro, com juros baixos, contas públicas no lugar e juros reais mais baixos, fica difícil ter um crescimento contínuo elevado. Por outro lado, não adianta ter equilíbrio macro e uma economia disfuncional do ponto de vista micro. Já foi levantada desde o governo Michel Temer a necessidade de uma reforma tributária. Tanto que estamos passando um momento de querer reduzir o ICMS na marra, quando seria muito importante fazer uma discussão dele no contexto de reforma tributária. Estudos do Observatório da Produtividade Regis Bonelli do FGV Ibre deixam muito claro que, enquanto a gente não tiver uma reforma tributária, as empresas sofrerão para buscar algum subsídio e, se isso não terá impacto sobre produtividade, irá gerar crises fiscais recorrentes. Toda vez que o Estado é chamado para cumprir o papel de uma política social mais atuante, tem de mudar as regras do jogo. O Estado é muito suscetível aos grupos de interesse. Então, quando surge uma política social, ela vem com todos os aspectos que deixam de ser sociais, ou seja, com vários grupos de interesse que conseguem achar um espaço no orçamento público, limitando o papel do Estado para atuar de maneira mais justa e com políticas mais eficientes. O diagnóstico dos nossos estudos é claro e o receituário também. O problema é conseguir lidar com todas essas políticas que afetarão grupos de interesse. Esse é o grande desafio do Brasil.
Valor: Esses problemas respondem também por que a economia cresce a ritmo lento desde 2014?
Silvia: Com certeza. Fazem com que nosso crescimento seja baixo independentemente das condições internacionais. Só para complementar, há um outro fator que talvez ajude a explicar o baixo crescimento pós-recessão é pré-pandemia é que, mesmo com equilíbrio macro no sentido de ter juros baixos, inflação controlada, contas públicas mais em ordem devido à regra do teto de gastos e algumas reformas que avançamos, algo que faz colhermos menos do que plantamos é a incerteza na economia, principalmente a de cunho político. O cenário que a gente vive hoje é muito polarizado e com muita incerteza. Essa falta de credibilidade afeta muito o investimento. Temos visto o investimento no Brasil até se recuperando em setores nos quais o retorno é alto, como commodities e os que sofreram estímulos, como o setor da construção civil, em que a política monetária foi favorável e houve bastante crédito. Mas aquele investimento mais generalizado, que permeia toda economia, acaba sendo menor do que poderia por conta de incertezas e por questões estruturais desse ambiente de negócios muito disfuncional. Na nossa visão, a reforma tributária teria que ser a grande reforma do governo de Jair Bolsonaro. Fizemos a reforma da Previdência e já estávamos próximo do gol para iniciar a reforma tributária. Mas, por diversos motivos, não avançamos. E continuamos colhendo menor crescimento do que poderíamos se já tivéssemos avançado nessa reforma.
Valor: Como os recentes episódios envolvendo a Petrobras entram nessa equação de incerteza e baixo investimento que vemos se repetir?
Silvia: Os eventos mais recentes mostram dois aspectos. O primeiro é que há riscos de as empresas sofrerem alguma forma de intervenção, apesar de a probabilidade não ser tão alta. Do ponto de vista de comunicação para investidores estrangeiros, isso é muito negativo. É negativo para a mensagem que a gente quer passar como país seguro para investimentos. E, o que acho mais relevante e se mostrou continuamente ao longo dessa saída da pandemia, é a mudança das regras fiscais, ou seja, as regras do jogo podem ser mudadas. O teto deixou de ser crível, quando o grande benefício de uma regra do teto é a questão da credibilidade, de o mercado acreditar que aquela regra vai vigorar pelo menos por um período e que haverá redução dos gastos e superávit primário novamente. Na situação que estamos vivendo hoje não está claro que vamos conseguir ter superávit primário nos próximos anos. Logo, não sabemos se a dívida será sustentável. Porque temos certeza que o juro real será alto e o crescimento será baixo, mas o quanto ele será alto ainda está depende muito da política fiscal. Essa incerteza sobre as contas públicas e de sustentabilidade fiscal aumenta o risco e piora o cenário de taxa de juros, porque ela embute também o risco que existe na economia, e isso é ruim para o próprio crescimento e para o investimento. Cria-se, então, um círculo vicioso negativo de menos crescimento, menos arrecadação, e um desafio muito grande porque a tensão é alta e a necessidade de gastos sociais continua. O grande desafio é equilibrar sustentabilidade fiscal e gastos sociais. Infelizmente, o resultado dessa equação tem sido burlar as regras, e não necessariamente para um bom fim do uso desses recursos públicos. A gente está vendo agora a possibilidade de usar um orçamento altíssimo para dar subsídio, por exemplo, para gasolina. Do ponto de vista social e de eficiência, é algo que está fora de qualquer estudo. É muito populista. Então podemos gastar, desde que haja outros interesses e questões eleitorais de curto prazo. E isso tem consequências. Talvez o único lado bom de tudo isso é que o cobertor é tão curto que logo aparecem os efeitos de políticas fiscais equivocados de curto prazo.
Fonte: Valor Econômico
