Jerome Powell encerra hoje, 14, seu mandato como presidente do Federal Reserve (Fed), após oito anos à frente do banco central dos Estados Unidos. Indicado pelo presidente Donald Trump, seu primeiro mandato iniciou em fevereiro de 2018. Powell deixa como legado a defesa da independência do Fed em meio a fortes pressões políticas e críticas pela condução da inflação. Ele continuará como membro do conselho de governadores até 2028.
A trajetória até o comando do Fed
Quando Donald Trump anunciou, em novembro de 2017, a indicação de Jerome Powell para presidir o Federal Reserve, a escolha foi recebida sem sobressaltos pelos mercados, que viam Powell como um nome de continuidade em relação à gestão de Janet Yellen. A troca marcou uma quebra de tradição: pela primeira vez em quatro décadas, um presidente do Fed em primeiro mandato não foi consultado a continuar.
Sem formação acadêmica em Economia, Powell destoava do perfil tradicional dos chefes do Fed. Formado em Ciência Política pela Universidade de Princeton e em Direito pela Universidade de Georgetown, construiu carreira entre Wall Street e Washington, com passagens pelo banco Dillon, Read & Co., pelo Departamento do Tesouro no governo de George H. W. Bush e pelo The Carlyle Group.
Sua aproximação definitiva com o Federal Reserve ocorreu em 2012, quando atraiu a atenção do governo Obama por seu trabalho nos bastidores para persuadir os republicanos do Congresso a aumentar o teto da dívida. Powell consolidou a imagem de dirigente pragmático e moderado, preocupado tanto com estabilidade financeira quanto com emprego e crescimento.
Primeiro mandato
Entre 2018 e 2019, Jerome Powell conduziu a continuidade do ciclo de alta de juros iniciado na gestão de Janet Yellen, em meio à escalada da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China promovida por Donald Trump.
Em julho de 2019, o Federal Reserve alertou que a incerteza comercial e a fraqueza da economia mundial poderiam afetar o crescimento dos EUA — cenário agravado pela guerra tarifária iniciada por Trump contra Pequim. A combinação entre a desaceleração do crescimento global e as tensões comerciais elevou a volatilidade nos mercados e aprofundou o desgaste entre Donald Trump e Jerome Powell.
O embate contrastava com o discurso adotado pelo presidente norte-americano no anúncio da indicação de Powell ao comando do Fed, em 2017, quando Trump o definiu como um líder “forte”, “comprometido” e “inteligente”. Com o avanço das tensões econômicas, porém, o presidente passou a pressionar publicamente por cortes agressivos nos juros, acusando o banco central de frear a economia norte-americana.
Naquele mesmo mês, o Fed promoveu o primeiro corte de juros desde a crise de 2008. Em meio aos sinais de desaceleração global, Powell iniciou um ciclo de cortes preventivos, citando riscos externos e incertezas provocadas pela guerra comercial. Ainda assim, Trump manteve os ataques ao presidente do Fed, chegando a compará-lo a “um jogador de golfe ruim”.
Em 2020, com a explosão da pandemia de Covid-19, o Fed reduziu os juros para perto de zero, comprou U$ 2 trilhões de títulos do Tesouro e criou linhas emergenciais de crédito. As ações de Powell ajudaram a evitar um colapso mais profundo da economia no auge da pandemia nos EUA. A economia desacelerou após o ciclo de alta de juros, mas o desemprego não disparou como muitos analistas previam.
Na recuperação pós-pandemia, em 2021, Powell argumentava que a alta de preços era “transitória”, resultado de gargalos nas cadeias de suprimento e da reabertura da economia. Naquele mesmo ano, Powell teve seu mandato renovado pelo então presidente Joe Biden.
Segundo mandato
A avaliação do Fed, porém, mostrou-se equivocada à medida que a inflação ganhou força no país. Com gargalos logísticos persistentes, pressão nos preços e a Guerra da Rússina na Ucrânia aumentando o preço do petróleo, os Estados Unidos passaram a registrar inflação cerca de 8% ao ano. As críticas ao banco central cresceram, com analistas acusando o banco central de ter demorado para reagir ao avanço dos preços.
Diante desse cenário, o segundo mandato de Powell foi marcado por uma guinada brusca na política monetária. A partir de 2022, o Fed abandonou o discurso da inflação “transitória” e iniciou um dos ciclos de aperto monetário mais agressivos das últimas décadas, promovendo sucessivas altas de juros para tentar conter a inflação.
Entre 2023 e 2024, Powell manteve os juros em patamar elevado por mais tempo, defendendo que a inflação precisava retornar de forma sustentável à meta de 2%. Apesar disso, a economia norte-americana mostrou resiliência acima do esperado.
No ano seguinte, Powell manteve uma postura cautelosa, reforçando reiteradamente que “não havia pressa” para iniciar cortes, já que, segundo ele, a economia norte-americana seguia resiliente, com mercado de trabalho sólido e inflação ainda acima da meta de 2%.
Embates com Trump e a defesa da independência do Fed
A relação entre Jerome Powell e Donald Trump se deteriorou rapidamente após a chegada de Powell ao comando do Federal Reserve. Embora tenha sido indicado pelo próprio Trump em 2017, o chairman passou a ser alvo constante de críticas da Casa Branca à medida que o Fed elevava os juros e resistia às pressões por uma política monetária mais agressiva.
Durante o primeiro mandato do republicano, Trump acusou o banco central de atrapalhar o crescimento econômico norte-americano e chegou a afirmar que o Fed era “o maior problema” da economia dos EUA. Em diferentes momentos, pressionou Powell por cortes rápidos nos juros, alegando que as taxas elevadas prejudicavam o mercado imobiliário, os investimentos e a competitividade da economia norte-americana.
O embate ganhou força entre 2018 e 2019, período marcado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, desaceleração do crescimento global e aumento da volatilidade nos mercados. Enquanto Trump defendia cortes rápidos nos juros para estimular a economia e fortalecer sua agenda política, Powell mantinha uma postura cautelosa diante dos riscos inflacionários e da necessidade de preservar a credibilidade do Fed.
As tensões entre Jerome Powell e Donald Trump atingiram um novo patamar nos anos finais do mandato do chairman do Federal Reserve. Além das críticas públicas à política de juros do Fed, Trump passou a cogitar abertamente a possibilidade de afastar Powell do cargo, movimento que gerou preocupação nos mercados e reacendeu o debate sobre a independência do banco central norte-americano.
Segundo informações da Bloomberg, reproduzidas pela Exame, aliados do presidente discutiram internamente hipóteses de demissão ou enfraquecimento político de Powell, em meio à insatisfação da Casa Branca com a manutenção dos juros em patamar elevado. Trump chegou a afirmar publicamente que Powell era “atrasado”, “idiota” e “estúpido”, acusando o Fed de impedir um crescimento mais acelerado da economia norte-americana.
Especialistas ouvidos pela Bloomberg destacaram que uma eventual remoção de Powell representaria um movimento sem precedentes na história moderna do banco central norte-americano e poderia desencadear uma disputa judicial, já que a legislação dos EUA protege a independência do Fed e não prevê a destituição do chairman por divergências sobre política monetária.
Em resposta às pressões, Powell reforçou repetidamente a autonomia institucional do Federal Reserve e afirmou que decisões sobre juros deveriam ser tomadas com base em critérios econômicos, e não políticos. Em entrevistas e audiências públicas, o chairman argumentou que a independência do banco central é essencial para preservar a credibilidade da política monetária e a estabilidade financeira dos Estados Unidos.
Investigações e pressões políticas sobre o Fed
Nos meses finais de sua gestão à frente do Federal Reserve, Jerome Powell passou a enfrentar uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ), em meio ao aumento das tensões entre o banco central norte-americano e o governo de Donald Trump. A apuração envolvia os custos das reformas de dois prédios históricos do Fed em Washington — o edifício Marriner S. Eccles e outra estrutura localizada na Constitution Avenue — cujo orçamento ultrapassou em cerca de US$ 700 milhões a previsão inicial, chegando a aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
O Fed argumentou que os custos extras decorreram da alta nos preços de materiais e mão de obra, além da necessidade de remover amianto, chumbo e contaminações tóxicas identificadas durante as obras. Ainda assim, aliados de Trump passaram a usar o caso para ampliar as críticas ao chairman e pressionar o banco central em meio às divergências sobre juros.
Powell afirmou publicamente que a investigação representava um movimento “sem precedentes” e sugeriu que as pressões estavam ligadas à postura independente adotada pelo Fed na condução da política monetária.
Em resposta, Trump voltou a atacar Powell publicamente, afirmando que o chairman “não era muito bom no Fed” e cogitando novamente sua substituição. As ameaças de afastamento reacenderam o debate sobre a independência do banco central norte-americano, já que a legislação dos Estados Unidos prevê que dirigentes do Fed só podem ser removidos por “justa causa”, e não por divergências sobre política monetária. Apesar da escalada política, o Departamento de Justiça encerrou posteriormente as investigações sem adotar medidas contra Powell.
Transição no Fed preocupa investidores
Agora, Powell deixará a presidência do Fed, mas continuará como governador da instituição até janeiro de 2028, em uma tentativa de dificultar interferências políticas mais agressivas sobre o banco central.
A decisão é incomum e foi interpretada em Washington como uma forma de preservar a independência da autoridade monetária, de acordo com dados divulgados pela Bloomberg.
O novo indicado de Trump para a presidência do Fed, Kevin Warsh, é crítico da demora do banco central em reagir à inflação pós-pandemia. Ele classificou a resposta como um erro grave de política monetária.
A chegada de Warsh também aumenta as expectativas sobre uma possível mudança de postura do banco central nos próximos anos, principalmente na relação com o governo e na condução desses juros.
Fonte: Exame