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O ambiente macroeconômico difícil vai manchando neste ano o desempenho das grandes varejistas abertas, com uma primeira leva de balanços do segundo trimestre que mostrou aumento dos reflexos negativos sobre os resultados pelo alto endividamento da população afetando vendas. As companhias falam em insolvência sob controle, mas já alertaram que há no país um cenário de aumento da inadimplência das famílias pelos indicadores gerais.
Esse cenário mais duro tem afetado até mesmo o mercado de comércio alimentar – teoricamente menos vulnerável à retração inicial na demanda do que aqueles dependentes de crédito -, além de vestuário e calçados, eletrônicos e tecnologia, afirmaram os comandos em conversas com analistas na semana passada.
Empresas abriram detalhes de medidas internas que devem ser tomadas na segunda metade do ano, período em que estará aberta a disputa eleitoral, para tentar estancar a desaceleração ou melhorar o resultado final.
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Haverá maior rigor nas despesas até o fim do ano, como afirma o GPA, dono do Pão de Açúcar, e o Magazine Luiza se prepara para fechar acordos com mais plataformas concorrentes para tentar melhorar a venda on-line, em retração no primeiro semestre. Ainda há a política do “rouba-monte”, como afirma a atacadista Assaí, que vai acelerar a abertura de farmácias em suas lojas neste ano, com a exploração de um novo segmento, para voltar a crescer mais rápido.
A Renner disse na sexta-feira (7) aquilo que não fará para tentar melhorar seus números fracos de abril a junho: descartou a hipótese de conceder mais crédito pela sua financeira Realize. “Seguimos com originação cautelosa, mais seletiva”, disse a analistas Daniel dos Santos, vice-presidente de finanças.
A empresa inclusive alertou, em seu relatório de resultados, que em 30 de junho o país tinha 83,7 milhões de brasileiros inadimplentes versus 77,8 milhões um ano antes, “representando cerca de metade da população economicamente ativa, conforme Mapa de Inadimplência da Serasa ”.
O mau humor do mercado contaminou o desempenho dos papéis do setor no pregão da sexta-feira (7), que passou parte do dia liderando a lista de maiores baixas do Ibovespa – ações de Renner, Magalu e Assaí estiveram de manhã em forte queda. As três ações fecharam o dia com recuos de 8%, 3,72% e 2,94%, respectivamente.
Esse movimento impacta no curto e médio prazos a performance do Índice de Consumo (Icon), principal indicador que reune ações de grande varejistas do país, além de papéis de empresas de serviços. Nos últimos seis meses, o Icon recuou 17,27%, calculou o Valor, fechando na sexta-feira com 2.830 pontos No mesmo intervalo, o Ibovespa teve perda menor, de 7,37%. No acumulado de 2026, o Icon teve desvalorização de 9% e o Ibovespa subiu 7%.
Segundo Alexandre Santoro, CEO do GPA, em carta de abertura do balanço do segundo trimestre, o ambiente macroeconômico permaneceu difícil, “marcado pelo aumento do endividamento das famílias, assim como da taxa de inadimplência, e por uma maior disputa pela renda disponível entre consumo, despesas financeiras e novas categorias de gastos discricionários, como as plataformas de apostas”.
O executivo ainda afirmou que a empresa, que está em recuperação extrajudicial, toca um plano de eficiência, com reduções de despesas e de investimentos, entregando pouco mais de 50% do esperado neste plano até agora, e isso deve passar também por um maior rigor nas despesas operacionais.
A receita líquida do GPA caiu 9,6% de abril a junho frente a 2025, e o prejuízo líquido cresceu 16%, para R$ 252 milhões.
No Assaí, a receita cresceu 0,9%, para R$ 19,1 bilhões – abaixo do ritmo da inflação do período, impactada pelo recuo no volume e pela troca de marcas mais caras pelas mais baratas, disse a rede em teleconferência. Em um exemplo apresentado durante a teleconferência na sexta-feira (7), um carrinho de compras com 91 quilos de produtos custaria R$ 830 com marcas líderes e R$ 437 com marcas alternativas – ou seja, com as trocas frequentes pela população, há forte perda no valor faturado pela rede.
O lucro líquido do Assaí mais que dobrou, para R$ 537 milhões, por conta de créditos tributários e melhores resultados financeiros.
No segmento de moda, a Copa do Mundo e o macro ruim derrubaram as vendas das redes abertas, mostram os relatórios do segundo trimestre.
Num segmento em que a compra por impulso é cada vez mais um fator importante, disputar a atenção com os jogos em diferentes horários – e num ambiente com menos recursos circulando na economia – foi particularmente duro para as varejistas.
Para completar o quadro, isso ocorreu no momento em que o governo federal decidiu cortar, após maio, o imposto de importação de 20% sobre os produtos vindos do exterior, com impacto direto nos itens de vestuário da China, que passaram a entrar em maior volume no Brasil.
Dados publicados pelas grandes cadeias mostram que a Renner foi a que mais sentiu os efeitos, seguida da C&A e da Riachuelo, de acordo com cálculos do Valor.
Segundo demonstrações financeiras, em receita de vestuário, Riachuelo teve alta de 8,9%, C&A, de 5,6%, e Renner, 2,5%. Em vendas “mesmas lojas” (pontos em operação há mais de 12 meses), chama a atenção o “gap” entre o índice deste ano e de 2025. No ano passado, a C&A cresceu em mesmas lojas 17,1% e caiu para avanço de 4,1% agora.
Na Riachuelo, o ritmo diminuiu para pouco mais da metade, de 15,8% no ano passado para 7,8% de alta de abril a junho. A Renner teve o maior recuo entre bases comparáveis no segundo trimestre entre todas as cadeias: alta de 1,5% neste ano, versus avanço de 18,6% em 2025.
A alta base de comparação naturalmente tende a “puxar” um pouco para baixo o número deste ano, mas chamou a atenção dos analistas o tamanho do tombo de 2026. “A Copa teve efeito no fluxo das lojas até o final dos jogos, e com o Brasil caindo [do torneio], isso melhorou um pouco, mas o impacto continuou até o final”, disse André Michel Farber, diretor-geral da Riachuelo.
O presidente da C&A, Paulo Correa, afirmou a analistas na quarta-feira (5) que, nas outras Copas, havia queda na demanda e o resto dos dias era próximo do normal, e neste ano foi diferente. “Houve impacto na venda em todas as semanas, mesmo depois de o Brasil eliminado.”
“Nosso crescimento seria maior se não fosse a Copa. Houve impactos, mas tenho preocupação também com a atividade econômica. De qualquer forma, tenho um olhar positivo para o semestre”, disse.
É pouco provável que a desaceleração na venda tenha relação apenas com o período dos jogos, por isso as empresas mencionaram o efeito macroeconômico do desaquecimento da demanda. De qualquer forma, nesse ambiente de incertezas, o mercado deve aguardar os dados do terceiro trimestre para conseguir quantificar o efeito do desaquecimento que acabou se misturando com o impacto dos jogos.
A revisão da Renner, anunciada na quinta-feira (6), reduzindo projeção de crescimento de receita líquida para 2026 – a estimativa caiu de 9% a 13% para 4% a 8% – diante do desempenho de vendas abaixo do esperado no segundo trimestre, é uma forma de se antecipar a esse cenário mais duro do que se previa.
Beneficiado pela Copa do Mundo, o Magazine Luiza acelerou a demanda por televisores, itens de linha branca (refrigeradores, microondas) e móveis, em 39%, 15% e 10%, respectivamente, nas lojas físicas.
Além disso, a operação de loja da varejista cresceu 10,3% de abril a junho frente a 2025. Porém, isso não foi o bastante para sustentar a venda total do grupo no trimestre.
De abril a junho, a receita líquida do Magalu caiu 2,6%, para R$ 8,9 bilhões, com impacto da piora na demanda on-line, que pesa mais nos números da companhia. O comércio eletrônico encolheu quase 12% e o canal representa 65% das vendas.
“Listar produtos em parcerias de terceiros é iniciativa de curto prazo para retomar o crescimento on-line com rentabilidade”, disse a analistas na sexta-feira Frederico Trajano, CEO da empresa. A partir de outubro, a empresa, que começou em junho a vender na Amazon, terá o selo Prime em seus produtos, e vai oferecer serviços logísticos para a plataforma.
Trajano disse ainda que a rede deve anunciar novas parcerias nos próximos meses, “ou até das próximas semanas”. Fontes do setor passaram a considerar a hipótese de acordo com Mercado Livre. “Acreditamos que conseguiremos retomar o crescimento do on-line, que foi um pouco prejudicado neste primeiro semestre com rentabilidade”. O prejuízo da rede cresceu 197%, para R$ 72 milhões de abril a junho.
Trajano ainda falou em “centenas de iniciativas” para fazer automação e de mais revisão de despesas. “Nós estamos com contratações congeladas desde o início do ano. Também estamos com muito controle em todas as contas, utilizando as nossas iniciativas de gestão matricial de despesas. Estamos com consultoria nos apoiando e ainda temos muito a colher em redução de despesas, há um espaço muito grande.” (Colaborou Vitória Nascimento)
Fonte: Valor Econômico