16 Aug 2023 CAROLINA MARINS
Sem conseguir definir preços por causa da turbulência política, produtores e lojistas tiraram produtos de circulação.
Dois dias após as primárias, os argentinos encontraram ontem prateleiras vazias e tiveram dificuldades para comprar itens essenciais nos mercados. A razão foi a forte reação à vitória do libertário Javier Milei e a desvalorização do peso. Sem conseguir definir preços diante da turbulência, produtores e lojistas tiraram mercadorias de circulação.
Diante da incerteza de um triplo empate – entre Milei (30%), a oposição tradicional de centro-direita (28,3%) e o governo peronista (27%) – o peso argentino perdeu 20% do valor e o dólar oficial saltou para 365 pesos – dos 298 que valia na sextafeira, antes da eleição. No mercado paralelo, o dólar ultrapassou a barreira dos 700 pesos.
A consequência chegou ao bolso da população. Muitos fornecedores, principalmente de produtos importados ou com preços atrelados ao dólar, preferiram suspender as vendas. “Ontem, o único insumo que tinha preço eram as sacolas. Os preços não mudaram, mas como são cotados em dólar, o valor em pesos subiu tanto quanto a desvalorização”, afirmou um fornecedor ao jornal Clarín.
“A vitória de Milei foi fora de todas as expectativas. Para os mercados, isso gera incerteza”, explica o economista da Universidade Católica Argentina Juan Carlos Rosiello. “Por isso, os preços subiram. O câmbio deu um salto.”
Com a desvalorização, a inflação se acelerou. “Tudo o que tem a ver com importação, desde remédios a carros, foi retirado de circulação com a justificativa de que não havia preço”, disse Rosiello. O Indec, instituto de estatísticas da Argentina, publicou ontem que a inflação de julho foi de 6,3%. No entanto, com a desvalorização, a de agosto deve ficar em dois dígitos.
CONTENÇÃO. Para impedir que a desvalorização afete ainda mais o consumidor – o que prejudicaria a candidatura do ministro da Economia, Sergio Massa – o governo convocou empresas e supermercados a conter as remarcações. Lojistas e distribuidores de alimentos receberam novas tabelas. Para piorar, ontem terminou o controvertido programa Preços Justos de Massa, que tentou um congelamento até as primárias.
Na tarde de ontem, jornais argentinos chegaram a noticiar que o governo havia suspendido as exportações de carne por 15 dias para pressionar os produtores, mas o Ministério da Agricultura negou. O medo é que, com a desvalorização, o valor da carne salte nos açougues.
A desvalorização da moeda, feita no dia seguinte às prévias, era algo que o governo do presidente Alberto Fernández vinha tentando evitar havia meses. O resultado foi a proliferação de cerca de 20 tipos de câmbios diferentes na Argentina.
O FMI exigia uma correção dessa anomalia para liberar recursos para o país. JUROS. Com o risco de impacto na candidatura de Massa, que já é prejudicado pela baixa popularidade de Fernández e de sua vice, Cristina Kirchner, a desvalorização só veio depois da votação de domingo.
Outra ação do governo foi elevar a taxa de juros em 21 pontos, para 118% ao ano, na intenção de impedir que os argentinos recorram ao dólar diante da crise.
A economia argentina carrega o peso da emissão monetária e da enorme dívida pública, situação agravada em 2018, no governo de Mauricio Macri, quando o FMI concedeu US$ 57 bilhões em empréstimo, um dos maiores da história da instituição.
Ao assumir o cargo, em 2019, Fernández renegociou o empréstimo, penando para pagar as parcelas ao FMI e cumprir, ao mesmo tempo, as metas de redução do déficit fiscal em um contexto de 40% de pobreza, com parte da população dependente de auxílios estatais.
Milei quase não cita a dívida argentina em suas propostas, mas garante que não terá problemas com os credores, porque seu programa fiscal é mais agressivo do que o do FMI. “Por orientação ideológica, Milei deve pagar o FMI e não vai dar calote”, diz Rosiello.
Fonte: O Estado de S. Paulo
