Por Eduardo Magossi, Valor — São Paulo
25/04/2024 12h05 Atualizado há 13 horas
A desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre dos EUA é um ‘lobo em pele de cordeiro’, está escondendo um forte avanço dos gastos de consumo e não levará o Federal Reserve (Fed) a cortar os juros mais cedo, avaliam os economistas do Wells Fargo, Tim Quinlan e Shannon Seery Grein. Não é à toa que o índice de preços de gastos com consumo (PCE) disparou 3,4% no período.
“É tentador ver a atual desaceleração no PIB como uma indicação bem-vinda de que um crescimento forte está finalmente dando lugar ao peso inevitável de taxas de juros mais elevadas e, portanto, dado necessário para justificar eventuais cortes de taxas por parte do Fed”, analisam os economistas, em relatório enviado a clientes após a divulgação dos indicadores.
Segundo eles, apesar do crescimento ter ficado quase um ponto percentual abaixo das expectativas (1,6%, ante expectativa de 2,4%), não existe uma justificativa legítima para uma orientação mais branda da política monetária. Na verdade, eles pontuam que, apesar do resultado final do PIB ter sido mais fraco, os detalhes revelados pelo desmembramento do dado principal mostram “mais do mesmo em termos dos fatores que impedem um ambiente de juros mais baixos”.
“Os consumidores ainda estão gastando, apenas priorizando atividades no setor de serviços. Os gastos com bens não duráveis estagnaram no trimestre, enquanto os gastos com bens duráveis de alto valor desaceleraram a uma taxa anualizada de 1,2%. Isso não foi suficiente para compensar a categoria de serviços, muito maior, onde os consumidores não pouparam despesas no primeiro trimestre”, afirmam.
Segundo os economistas, os gastos com serviços dispararam a uma taxa anualizada de 4% no trimestre, o aumento mais rápido registrado desde “a farra alimentada por estímulos em 2021”. Excluindo 2020 e 2021, os gastos com serviços só ultrapassaram os 4% três vezes nas últimas duas décadas: uma vez em 2014 e duas vezes em 2004.
“Juros mais altos destinam-se a arrefecer a demanda dos consumidores. O problema para o Fed é que não está funcionando”, alertam.
Os economistas também calculam que, com o núcleo do índice de preços de gastos com consumo (PCE) do primeiro trimestre batendo os 3,7%, implica em um aumento de 0,4% no núcleo do PCE de março – a ser divulgado amanhã – acima do consenso de 0,3%. “Os serviços, excluindo energia e habitação, aumentaram a uma taxa anualizada de 5,1% no primeiro trimestre, a mais rápida em um ano”.
Para os economistas, isto indica que, embora os juros mais elevados possam estar restringindo os gastos com bens com custos de financiamento mais elevados, “as famílias continuam a fazer todos os esforços para continuarem a gastar”. A diretora do Fed, Michelle Bowman, disse recentemente que, embora as pessoas possam estar gastando menos em bens, elas continuam gastando muito dinheiro em “viagens para ver o eclipse”.
Quinlan e Grein, do Wells Fargo, apontam que o número final do PIB foi mais fraco porque o comércio enfrenta obstáculos. “As exportações líquidas exercem um peso de 0,86 ponto percentual sobre o número principal. Sem esse obstáculo, o número teria ficado alinhado com as estimativas de consenso”, afirmam.
Fonte: Valor Econômico