Por Matheus Prado — De São Paulo
17/07/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
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Na medida em que profissionais do mercado passam a enxergar um cenário político, fiscal e macroeconômico mais favorável ao Brasil, cresce a expectativa por um patamar de juro real menor e, consequentemente, uma maior atratividade para a bolsa, já que a taxa é usada para calibrar projeções de lucratividade das empresas. No longo prazo, normalmente quando o juro real cai as ações tendem a subir.
Isso é o que mostra um exercício de projeções realizado por Carlos Sequeira, chefe da área de análise e pesquisa do BTG Pactual para a América Latina. Mesmo após a rápida recuperação do Ibovespa, dados mostram que existe espaço para que a bolsa continue se valorizando com a queda das taxas.
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O executivo nota que existe um debate sobre o atual patamar do juro neutro no Brasil, mas quase 70% dos economistas questionados pelo time macro do BTG disseram que a taxa neutra de longo prazo deve variar entre 4,0% e 5,0% – enquanto o Banco Central alterou sua projeção para 4,5%. No último governo, a média foi de 4,4%, chegando a 3,0% após a aprovação da Reforma da Previdência.
“E, embora não possamos determinar com precisão a taxa neutra, o exercício estima o valor justo do Ibovespa a partir de cenários para juro real, inflação e crescimento real do PIB. O juro real, medido pela NTN-B 2035, encerrou junho em 5,25%, ante 6,2% em março. Vemos espaço para que as taxas continuem caindo, especialmente se o governo conseguir mostrar formas de ampliar as receitas. Além disso, dados macroeconômicos recentes indicam atividade mais forte do que o esperado e números inflacionários mais positivos”, diz.
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O prêmio para possuir ações (Lucro/Preço menos o juro real de 10 anos) recuou para 4,6% no fim de junho (contra 5,8% no final de abril), mas permanece um desvio padrão acima da média histórica.
Assim, segundo o levantamento, em um cenário com o juro real a 4,5% (contra os 5,3% atuais), crescimento real do PIB de 1,5% e inflação de 3,5%, seria possível alcançar um múltiplo Preço/Lucro justo de 11,1 vezes (sem Vale e Petrobras), o que levaria o Ibovespa para um patamar próximo a 132 mil pontos.
Já em uma conjuntura ainda mais benigna, com taxa real em 4,0%, PIB em 1,5% e inflação de 3%, o múltiplo P/L justo avançaria para 12,7 vezes (em linha com a média histórica de 12,4 vezes) e o Ibovespa poderia tocar os 151 mil pontos. Por outro lado, com o juro real a 5%, PIB em 1% e inflação de 4%, o múltiplo justo cairia para 9,5 vezes e abriria espaço para o índice recuar até os 111 mil pontos.
Sequeira pondera que o forte desempenho entre abril e junho naturalmente impulsionou os “valuations” das ações brasileiras, que agora são negociadas em um patamar próximo de dez vezes o P/L sem Vale e Petrobras, e oito vezes se as exportadoras de commodities forem incluídas. Apesar disso, continuam um desvio padrão abaixo de sua média histórica de 12,4 vezes P/L sem Petro e Vale, e 10,9 vezes contemplando as gigantes da bolsa.
“Vale e Petrobras são ações ‘pesadas’ e dependem das cotações do minério de ferro e do petróleo, o que tira parte da consistência desse tipo de análise. Ademais, como o Ibovespa está muito voltado para a pauta de queda dos juros no momento, estamos focados nisso. A melhora das expectativas macro pode dar fôlego para setores como varejo, bens de capital e utilities avançarem ainda mais”, diz.
Para que a bolsa estenda seus ganhos, no entanto, é preciso que consiga atrair fluxo consistente, algo que ainda é um problema devido ao patamar do juro curto. O investidor estrangeiro teve em junho seu melhor mês de aportes no segmento secundário (ações listadas) da B3 desde janeiro, com entrada de R$ 7,8 bilhões. Mas Sequeira enxerga apetite limitado.
“As taxas dos EUA estão altas, com chances ainda baixas de cortes neste ano, e as perspectivas da China decepcionam. Isso pode estar impulsionando a redução do apetite por ações de mercados emergentes em geral, e ações brasileiras em particular. Mas um ambiente político/fiscal estável e mais previsível e taxas de juros menores podem atrair investidores estrangeiros de volta ao país”, opina.
Nota, ainda, que os fundos de ações locais registraram saída líquida em 18 dos últimos 19 meses, com perdas de R$ 109,2 bilhões, o que impede uma maior entrada de recursos na bolsa. Entre os multimercados, o nível de alocação em renda variável atingiu 9,7% em maio, ainda distante dos 15,6% registrados em junho de 2021, mas ensaiando recuperação após tocar os 9,4% em abril.
“Entre investidores de varejo, o interesse na bolsa aumentou novamente em maio e junho e a participação do grupo no volume de negócios da B3 atingiu 13,8%, após ter recuado a 12,7% no mês anterior. O número chegou a ser 16,4% em 2022. Dada a probabilidade de cortes na taxa de juros de curto prazo no segundo semestre, esperamos que os investidores de varejo voltem ao mercado de ações.”
Fonte: Valor Econômico

