Por Talita Moreira e Álvaro Campos — De São Paulo
10/02/2023 05h01 Atualizado há 2 horas
O resultado combinado dos três grandes bancos privados brasileiros encolheu em 2022, num reflexo direto do aumento do risco do crédito e, mais recentemente, do caso Americanas. Itaú Unibanco, Bradesco e Santander lucraram juntos R$ 64,366 bilhões, o que representa uma queda de 7,31% em relação ao ano anterior.
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A crise da varejista, que eclodiu um mês atrás após a revelação de “inconsistências contábeis”, fez estrago nos balanços do quarto trimestre. Entre outubro e dezembro, o lucro somado dessas instituições financeiras ficou em R$ 10,952 bilhões, 37,96% inferior ao do mesmo período de 2021.
Foi determinante para essa queda a decisão dos bancos de já reforçar suas reservas para fazer frente às perdas de crédito que deverão ter com a companhia. Itaú, Bradesco e Santander têm, juntos, exposição de R$ 11,4 bilhões à varejista e constituíram provisões de R$ 7,2 bilhões para lidar com o caso. Não à toa, as instituições financeiras travam uma guerra na Justiça para buscar responsabilizações pelo que consideram ter sido uma fraude. Enquanto Itaú e Bradesco foram mais conservadores e provisionaram 100%, o Santander só separou 30% da sua exposição para cobrir eventuais perdas.
Mas a debacle da Americanas é apenas um capítulo da história. Ao todo, os três grandes bancos tiveram R$ 32,05 bilhões em despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) no quarto trimestre e R$ 88,526 bilhões no ano passado todo, com aumentos de 126,09% e de 80,21% em relação aos períodos equivalentes em 2021. O volume de 2022 foi maior, inclusive, que o de 2020, início da pandemia, quando sobravam incertezas e os bancos fizeram um provisionamento extraordinário para se preparar para o que vinha pela frente.
O que aconteceu no ano passado é que o crédito continuou forte, em meio à reabertura da economia, mas o efeito da política monetária para combater a inflação começou a ser sentido – sobretudo no segundo semestre.
Com isso, a carteira de crédito dos três grandes avançou 9,67%, para R$ 2,606 trilhões. Só que a inadimplência, que havia caído às mínimas históricas no auge da pandemia, voltou a crescer. Ou seja, o risco aumentou. De um lado, isso demandou mais provisões – o que explica o aumento das despesas com essa finalidade. De outro, os bancos passaram a ficar mais seletivos nas concessões de empréstimos e financiamentos depois de terem acelerado em linhas mais arriscadas e de maior spread.
“Houve aumento rápido e relevante da inflação, com aumento das taxas de juros maior que o inicialmente antecipado, impactos no ciclo de crédito e um ambiente global de grande instabilidade política e econômica”, afirmou o Bradesco em suas demonstrações contábeis, divulgadas ontem.
Os fatores que permeiam as demonstrações financeiras dos três bancos são os mesmos, mas há bastante variação entre os resultados. Com lucro anual de R$ 30,786 bilhões, o Itaú foi o de melhor desempenho. A instituição financeira é a menos exposta à Americanas e também ao segmento de baixa renda, que sentiu mais a inflação. Na outra ponta, ficou o Bradesco, com lucro de R$ 20,68 bilhões, afetado pelas duas questões.
Em todos os bancos, a piora na inadimplência está concentrada no segmento de pessoa física, especialmente em linhas como cartão de crédito e cheque especial. Em pequenas e médias empresas há um aumento mais tímido.
No Itaú, o vice-presidente financeiro, Alexsandro Broedel, disse que houve crescimento na inadimplência, “mas um crescimento bastante controlado”, dentro do que o banco já vinha sinalizando. Segundo ele, o banco imagina uma normalização já no primeiro trimestre de 2023 principalmente do lado pessoa física, do varejo.
Já o CEO do Santander, Mário Leão, afirmou que não espera que a inadimplência de pessoa física continue piorando. Em pessoa jurídica (PJ), ele disse que não vê nenhum sinal de que os balanços das médias e grandes empresas estão se deteriorando. “A taxa de juros mais alta por mais tempo acaba afetando o custo financeiro das empresas, mas por enquanto não estamos vendo nenhum sinal de problema.”
De fato, entre as grandes companhias a inadimplência segue muito próxima das mínimas históricas. O caso da Americanas, por exemplo, ainda não aparece nos indicadores porque o crédito não está atrasado há mais de 90 dias, mas isso já deve ser sentido nos balanços do primeiro trimestre. Além disso, após esse episódio os bancos estão olhando com lupa as demonstrações financeiras das grandes companhias em busca de detectar sinais antecipados de problemas. Com a possível nova recuperação judicial da Oi e outras empresas grandes em dificuldades, como Light e CVC, esse é o segmento no qual se começa a acender uma luz amarela.
Mesmo com esse cenário, os bancos – com exceção do Santander – conseguiram aumentar a margem financeira. No combinado do trio, o indicador avançou 6,59%, para R$ 210,77 bilhões, no ano passado. A inflação medida pelo IPCA foi de 5,79% em 2022. O avanço veio principalmente das operações com clientes, que refletem o crédito, enquanto a margem com o mercado penalizou o Santander e o Bradesco pelo efeito da rápida elevação da taxa Selic sobre os balanços dessas instituições.
A inflação também afeta as despesas operacionais dos bancos, especialmente por causa do reajuste nos salários dos bancários. Esses gastos subiram 6,37% em 2022, para R$ 126,46 bilhões. As receitas de tarifas até têm se recuperado, ainda surfando a reabertura da economia após a pandemia, mas isso não tem sido suficiente e o índice de eficiência de todos piorou um pouco. (Colaboraram Guilherme Pimenta, de Brasília, e Rita Azevedo, de São Paulo)
Fonte: valor Econômico

