Por Gabriel Shinohara e Alex Ribeiro — De Brasília e São Paulo
03/05/2024 05h02 Atualizado há 3 horas
O investimento direto no país (IDP) somou US$ 23,3 bilhões no primeiro trimestre deste ano, maior resultado para o período desde 2017. O mês de março, que registrou o maior resultado para o mês desde 2012, em US$ 9,6 bilhões, contribuiu para o resultado.
O IDP é considerado a forma mais estável de financiamento das contas externas. Em 12 meses, caiu de US$ 75,2 bilhões (3,76% do Produto Interno Bruto) em março do ano passado para US$ 66,5 bilhões (2,98% do PIB), mas ainda está em um nível superior ao déficit das transações correntes.
No acumulado de 12 meses em março deste ano, o déficit foi de US$ 32,6 bilhões (1,46% do PIB). Em março de 2023, o acumulado estava em US$ 49,3 bilhões (2,46% do PIB). O chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, ressaltou que o déficit é baixo para as condições da economia do país e está “integralmente financiado pelos capitais de longo prazo, principalmente o IDP”.
O IDP inclui valores de participação no capital, operações intercompanhia (empréstimos de matriz no exterior para filial no Brasil, subtraídas amortizações pagas ao exterior) e lucros reinvestidos. Rocha, do BC, ressaltou que as operações intercompanhia foram as principais responsáveis pelo aumento do IDP em março, passando de US$ 2,5 bilhões no mês em 2023 para US$ 5,5 bilhões neste ano.
Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, a recuperação do IDP foi a surpresa positiva do trimestre. A economista ressalta que o ingresso líquido equivalente a 3% do PIB no acumulado de 12 meses é um patamar “bastante confortável”, considerando o déficit em conta corrente. “Apesar do movimento mais negativo no mercado, que alerta para uma percepção de risco maior do investidor estrangeiro, tanto pela alta dos juros como pela desvalorização cambial recente, o Brasil ainda deve continuar atraindo investimento direto suficiente para manter as contas externas superavitárias”, disse.
No primeiro trimestre, o saldo em transações correntes foi de déficit de US$ 14,4 bilhões, ante US$ 12,6 bilhões no mesmo período de 2023. Nessa comparação, o número é impactado principalmente pela conta de serviços, que teve déficit de US$ 10,7 bilhões em 2024 ante US$ 7,6 bilhões nos primeiros três meses de 2023.
Fernando Rocha, do BC, ressaltou que essa conta de serviços está registrando um aumento da corrente de comércio. Ele destacou também que a explicação da dinâmica dos serviços tem mudado nos últimos meses, com maior peso do aumento do déficit sendo explicado pelos serviços de propriedade intelectual (como pagamentos de licença para distribuição de software) e pela conta de telecomunicação, computação e informações.
O sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luís Otávio Leal, ressaltou que o saldo das transações correntes em março, de déficit de US$ 4,6 bilhões, contra superávit de US$ 700 milhões em março de 2023, tem entre seus fatores o aumento de despesas com viagens, gastos com transportes e aluguel de equipamentos, “todos reativos à recuperação da economia e da renda”. A expectativa, segundo o economista, é que o déficit chegue a US$ 45 bilhões no final deste ano, ou 2% do PIB.
As transações correntes também foram impactadas pelo resultado da balança comercial de bens, que teve superávit de US$ 12,5 bilhões no primeiro trimestre, e da conta de renda primária, composta por receitas e despesas de remuneração de capital – lucros e juros -, que teve déficit de US$ 16,5 bilhões no mesmo período.
Fonte: Valor Econômico
