O estresse observado na semana passada nos mercados de juros e de títulos públicos deu espaço a um alívio na sessão de ontem, na esteira de uma atuação inesperada do Tesouro Nacional. Em uma intervenção histórica, o Tesouro cancelou os leilões previstos para esta semana e recomprou R$ 12 bilhões em papéis prefixados e R$ 15,4 bilhões em títulos indexados à inflação. O movimento agressivo ajudou a acalmar os mercados, que registraram um movimento intenso de queima de prêmios de risco, embora as taxas futuras sigam em níveis bastante elevados.
Antes mesmo da abertura dos negócios, o Tesouro emitiu um comunicado em que informou o cancelamento de leilões prefixados e de NTN-Bs previstos para esta semana e anunciou uma atuação para “oferecer suporte ao mercado de títulos públicos, assegurando seu bom funcionamento e o de mercados correlatos”. Somente ontem, foram recomprados R$ 27,4 bilhões em papéis — uma atuação bastante expressiva. Como base comparativa, todo o programa de recompras do Tesouro em dezembro de 2024, período de alto estresse com a situação fiscal, teve R$ 9,5 bilhões de volume financeiro.
A intervenção ocorreu após o mercado de juros ser alvo de uma turbulência na sexta-feira, com uma disparada das taxas futuras na sessão, em um movimento de pânico entre os agentes diante de revisões de cenário e de expectativas para os juros com o avanço dos preços do petróleo. Na ocasião, os mercados foram alvo de movimentos de “stop-loss” — encerramento automático de posições para limitar perdas —, o que retroalimentou a disparada das taxas, ao se ter em vista que o principal “cavalo” dos gestores brasileiros era a aposta na queda dos juros futuros.
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Com o posicionamento técnico do mercado bastante carregado, a ação do Tesouro ajudou a conter o pânico dos agentes na sessão de ontem. “Foi uma atuação prudente”, observa um gestor de renda fixa de uma importante casa carioca. “O Tesouro agiu rápido e o movimento de hoje mostra que o mercado estava ‘engasgado’ e com muito ‘stop’ para digerir. Foi bom para quebrar a dinâmica negativa que foi criada na semana passada.”
Para o estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital, a intervenção do Tesouro “salvou o mercado”. “Vejo como um evento diferente de outras atuações, como a de dezembro de 2024, por exemplo. Desta vez, o Tesouro foi rápido e evitou uma piora generalizada do mercado”, afirma.
O executivo nota, em particular, que o Tesouro concentrou as operações de ontem nos vencimentos até 2031 nos leilões de prefixados, enquanto na recompra de NTN-B as operações foram até o ano de 2035, sem entrar nos vértices ultralongos. “A parte intermediária da curva estava sofrendo mais, porque, além do exterior, havia uma mudança bem importante na visão sobre a política monetária, com o Banco Central cortando menos os juros”, observa Vital.
No fim das contas, o movimento surtiu efeito. Na sexta-feira, os juros futuros dispararam ao longo de toda a curva. Durante a sessão, alguns vencimentos chegaram a subir mais de 0,5 ponto percentual (50 pontos-base) — em um sinal de estresse no mercado. Ontem, as taxas encerraram o dia em queda firme: a do DI para janeiro de 2028 recuou de 13,855% para 13,55%; e a do DI para janeiro de 2031 cedeu de 14,11% para 13,725%.
Movimento semelhante foi observado nas NTN-Bs, que também tinham sofrido com um salto dos juros reais na semana passada e na sexta-feira, principalmente. O alívio de ontem, inclusive, impressiona, já que nesse mercado os movimentos costumam ser, de forma geral, menos agressivos em relação à dinâmica dos juros futuros.
Na sessão de ontem, o alívio foi bastante relevante no mercado secundário de títulos públicos. A taxa da NTN-B com vencimento em maio de 2030 recuou 30,6 pontos-base, ao passar de 8,039% para 8,003%, de acordo com dados da Anbima. Alívio semelhante foi visto também em títulos ultralongos. A taxa da NTN-B para maio de 2055 recuou 24,1 pontos-base, ao passar de 7,393% para 7,152%.
“Em momentos de pânico por conta da guerra, qualquer fluxo pode ser muito importante, em especial o do Tesouro, que é o maior agente no mercado de juros”, observa o sócio e gestor de renda fixa da Legacy Capital, Gustavo Pessoa. “É natural e necessário que o Tesouro entre [no mercado] nesses momentos de falta de liquidez e de movimentos abruptos para dar estabilidade ao mercado.”
Para Pessoa, dada a dinâmica dos ativos financeiros nos últimos dias, todos os ingredientes necessários para haver uma intervenção estavam dados.
Ainda assim, o Tesouro pegou de surpresa os participantes do mercado ao anunciar a intervenção. “Eu achava que uma intervenção era possível, mas a ação em si me surpreendeu positivamente. O Tesouro foi muito mais ágil do que no fim de 2024, por exemplo. Na sexta-feira, o mercado ficou totalmente disfuncional. O petróleo estava subindo bem pouco naquele momento e não havia tantas novidades assim no front da guerra. Os juros aqui explodiram porque ninguém tinha espaço para absorver os ‘stops’”, afirma o diretor da tesouraria de um grande banco em condição de anonimato.
O tesoureiro de outro grande banco observa que o mercado até imaginava uma postura mais ativa do Tesouro, mas que a intervenção anunciada foi muito boa. “É muito importante o Tesouro ser mais ativo, como se mostrou hoje [ontem], principalmente porque ele veio colocando muito risco no mercado”, lembra o executivo, ao fazer referência às fortes emissões de títulos prefixados e de NTN-Bs desde o início do ano passado.
“Essa postura de agora ajuda a reduzir os riscos de cauda de ausência de liquidez”, diz o tesoureiro em condição de anonimato.
O mercado, agora, segue atento a possíveis novas intervenções do Tesouro nesta semana. Para esta terça-feira, continua previsto o leilão de LFTs, os títulos indexados à taxa Selic, que costumam ser definidos como os papéis preferidos dos agentes em tempos de crise.
Fonte: Valor Econômico
