Com a esperada retomada nas fusões e aquisições (M&A) não se concretizando, os fundos de private equity continuam repletos de investimentos que precisam ser vendidos. Especialistas do setor afirmam que os family offices, ao buscarem exposição ao mercado privado, podem se tornar uma fonte inesperada de compradores.
Poucos especialistas apontam algo além da confusão política como explicação para o fracasso desse boom — o que gerou incerteza no mercado e travou os preços. Dados da S&P Global Market Intelligence mostram que a taxa de cancelamento de negócios apoiados por private equity subiu para 14,6% no primeiro trimestre, marcando o terceiro trimestre consecutivo de alta. O valor total de M&As cancelados foi de US$ 131 bilhões no primeiro trimestre, comparado a US$ 45,5 bilhões no mesmo período de 2024.
Segundo o CEO de uma empresa de private equity, isso aumenta a pressão para levantar fundos e devolver dinheiro aos investidores: quanto menos dinheiro os investidores têm, menos eles conseguem comprar ativos para gerar liquidez aos vendedores.
“É como um entupimento. Todos pensávamos que este seria o ano em que isso começaria a destravar, mas de certa forma continua tudo igual. Os vendedores precisam ser mais realistas quanto às expectativas de preço e aceitar as perdas. Mas isso não está acontecendo.”
Em vez disso, as empresas estão vendendo apenas os melhores negócios, pois ainda conseguem obter prêmios e bons retornos.
Fontes indicam que os family offices, por não estarem sujeitos a muitas das restrições enfrentadas pelos fundos de private equity, têm a oportunidade de ocupar parte desse espaço, adquirindo ativos no momento certo. Nos EUA, as famílias gerenciam US$ 5,4 trilhões — mais do que o valor sob gestão dos fundos de private equity, segundo a S&P.
“O poder dos Single Family Offices (SFOs) e dos Multi Family Offices (MFOs) realmente cresceu nos últimos dois ou três anos. Eles estão agindo como grandes casas de investimento agora, com um nível de sofisticação que nunca se viu antes,” disse Peter Hughes, fundador e CEO do Apex Group. “Acredito que eles vão absorver parte dessa demanda.”
As famílias possuem vantagens em relação aos fundos de private equity que as favorecem neste cenário: não têm ciclos de captação, metas de distribuição, ciclos contínuos de compra e venda, ou preocupação com taxa interna de retorno (IRR). Em vez disso, segundo fontes, podem fazer aquisições estratégicas de longo prazo — verdadeiras geradoras de caixa — que permanecem em seu balanço.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a operação da família Mars para tornar a Kellanova (antiga Kellogg’s) uma empresa de capital fechado. A transação deve ser concluída nos próximos meses com uma avaliação de US$ 36 bilhões — mais de 16 vezes o lucro da companhia.
Observadores do setor afirmam que as famílias também ganham outros benefícios com essas aquisições: assentos nos conselhos, influência e a chance de ampliar redes de relacionamento. E esse modelo pode ser atrativo para as empresas, já que as famílias oferecem uma abordagem mais amigável ao fundador — diferente de investidores agressivos focados em desmembrar e maximizar lucros de curto prazo.
“Os family offices têm uma proposta mais atrativa para CEOs de empresas privadas que estão considerando obter liquidez a partir do negócio que construíram,” disse Charles Otton, chefe da área de Patrimônio Familiar e Institucional Global do UBS. “As empresas podem hesitar em vender para um fundo de private equity hostil. Assim, alguns family offices estão se posicionando de forma muito inteligente, dizendo: ‘somos um capital familiar de longo prazo, seríamos um proprietário ou parceiro natural para você, e não um fundo de private equity voraz’.”
A PwC divulgou recentemente um estudo sobre os negócios realizados por family offices no mundo, que também aponta uma mudança em direção a transações maiores e mais complexas, exigindo mais capacidade operacional e profissionais especializados. Segundo a PwC, também está crescendo o número de “club deals” — investimentos feitos por famílias em conjunto, em vez de aportes em fundos com gestão terceirizada.
Como o Private Equity — e Wall Street — Erraram na Leitura do Mercado?
“No início do ano, todos pensavam que a nova administração seria muito positiva: do ponto de vista regulatório, esperava-se uma onda de IPOs, mais fusões e maior atividade nos mercados de capitais,” disse o CIO de uma grande gestora de ativos alternativos. “Mas isso não aconteceu. A confiança dos CEOs está no chão, e é difícil imaginar uma reversão no curto prazo.”
Com a contínua volatilidade, o risco de avaliação incorreta dos ativos se torna uma grande preocupação. As empresas de private equity podem precisar vender, mas também não querem abrir capital e correr o risco de fracassar ou aceitar um preço que comprometa o IRR. Por outro lado, os compradores temem pagar caro demais.
Algumas exceções vêm ocorrendo. No mês passado, a Global Payments adquiriu a Worldpay da FIS e da GTCR por US$ 24,5 bilhões, por exemplo. Tudo isso indica a necessidade de reavaliar o valor dos negócios em meio à disrupção e sugere que os fundos de PE talvez precisem esperar um pouco mais para ver os efeitos das tarifas e da agenda de desregulamentação.
A situação econômica ainda pode mudar: as fusões e aquisições podem se recuperar e a SEC pode revisar as regras de IPOs, tornando mais atraente ser uma empresa de capital aberto. Mas, por enquanto, existe uma grande lacuna — e as famílias podem preenchê-la.
Fonte: Institutional Investor
Traduzido via ChatGPT

