Por Marcos de Moura e Souza — De São Paulo
03/01/2024 05h00 Atualizado há uma hora
Mesmo para um país acostumado a conviver com inflação alta, as projeções para os preços ao consumidor na Argentina para os primeiros meses deste ano são surpreendentes. Economistas consideram cenários em que entre janeiro e março a inflação mensal estará perto dos 30%.
A disparada já pode ter começado em dezembro. Os dados oficiais ainda não foram publicados, mas algumas estimativas apontam para uma alta de 20% a 30% no último mês de 2023. Em novembro, a inflação mensal tinha fechado em 12,8%. Em outubro tinha ficado em 8,3%. As inflação anual poderá superar os 200%.
O salto de 12% para possíveis 30% coloca em risco a parte da população mais pobre na Argentina – cujo poder aquisitivo já precário derrete ainda mais rapidamente.
Outro risco: o consumo tende a perder força e empresas na Argentina poderão se ver na circunstância de reduzir produção e, consequentemente, cortar postos de trabalho, diz o economista Sebastián Auguste, diretor do Centro de Pesquisas em Finanças da Universidade Torcuato Di Tella.
Mesmo mergulhada em uma crise prolongada, a Argentina registra taxas de desemprego relativamente baixas. Enquanto no Brasil, o desemprego ronda os 8%, no país vizinho a taxa ficou em 5,7% no terceiro trimestre. O quanto o aquecimento repentino da inflação vai produzir uma onda de demissões é ainda tema para especulações e preocupações.
Com aceleração da inflação, o consumo caiu 8,4% na 3ª semana de dezembro
O certo é que o consumo já se mostrou mais fraco em dezembro, sob o peso da rápida aceleração da inflação. No mês de festas e tradicional data de aumento no volume de compras, o consumo na terceira semana de dezembro na Argentina caiu 8,4% em relação à semana anterior e 38,4% em comparação à terceira semana de dezembro de 2022, segundo a consultoria Focus Market. O Índice de Confiança do Consumidor, calculado pelo centro de pesquisas da Torcuato Di Tella, apontou um recuo de 16,2% em dezembro.
Diminuição de consumo, em muitos casos, funciona como antídoto contra inflação. Menos demanda, menos pressão sobre preços. Mas a Argentina é diferente.
“Inflação pode estar ligada a distintas razões. Uma razão típica é o aquecimento da demanda. Mas não é o que se passa na Argentina”, lembra Sebastián Auguste. Ele e outros economistas destacam ao menos dois fatores para a disparada dos preços em dezembro e a possível sequência de altas neste início de ano.
O primeiro fator: a forte expansão monetária conduzida no ano passado pelo governo de Alberto Fernández, num movimento que foi entendido como uma tentativa de dar um impulso ao consumo para fortalecer o candidato governista às vésperas das eleições presidenciais. Não adiantou, o peronista Sergio Massa acabou derrotado por Javier Milei em novembro.
O segundo fator: a liberação de alguns preços que estavam sob rigorosa regulamentação oficial e acumulavam grande defasagem.
A desvalorização do câmbio oficial no fim do ano, primeiro logo após o segundo turno da eleição presidencial e depois da posse de Milei, em 10 de dezembro, também entra no rol dos impulsionadores da inflação.
Eleito prometendo uma receita econômica ultraliberal, a agenda de Milei inclui um arrocho nos gastos públicos (com redução de Ministérios e congelamento de obras públicas, por exemplo), privatizações, redução do déficit fiscal, desregulamentação de preços e abertura de mercado. Ele já alertou que antes que a economia se reorganize, os argentinos devem se preparar para um período de estagflação – inflação elevada e contração econômica.
O problema, alertam analistas, é como passar por um período de salto inflacionário tão expressivo. Com 40% da população na pobreza, a Argentina de Milei mantém, ao menos por enquanto, programas sociais, como o benefício universal por filho.
Fonte: Valor Econômico
