Por Eduardo Magossi, Matheus Prado, Victor Rezende, Arthur Cagliari e Augusto Decker — De São Paulo
26/04/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
A combinação entre dados de atividade fracos e inflação resiliente nos Estados Unidos manteve os mercados globais pressionados ontem, na medida em que agentes enxergam cortes de juros cada vez mais distantes e começam até a temer cenário de estagflação à frente. Localmente, declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), deram algum apoio à retirada de prêmios da curva de juros. E a aprovação do pagamento de parte dos dividendos extraordinários da Petrobras limitou as perdas do Ibovespa.
No fechamento, o rendimento da T-Note de 2 anos subiu a 5,008%, de 4,941%, e o yield de 10 anos avançou a 4,709%, de 4,646%. O dólar subiu 0,28% ante o real, a R$ 5,1620, e o Ibovespa recuou 0,08%, aos 124.645 pontos, apesar da alta de 2,40% das ações PN da Petrobras. A taxa do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 caiu de 10,34% para 10,335%; e a do contrato para janeiro de 2027 passou de 10,925% para 10,94%.
Embora o número cheio do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA tenha surpreendido negativamente, ao mostrar um crescimento de 1,6% em base anualizada no primeiro trimestre contra uma estimativa bem mais alta, de 2,4%, o deflator dos gastos com consumo (PCE) assustou os agentes, com o núcleo em um processo de aceleração bastante evidente, ao passar de 2% no quarto trimestre de 2023 para 3,7% nos primeiros três meses deste ano.
“Os dados mantiveram investidores preocupados com o fato de o Federal Reserve [Fed, banco central americano] ter ainda muito mais trabalho a fazer para domar a inflação antes de iniciar o processo de normalização dos juros”, afirma Ian Lyngen, da BMO Markets. A precificação do mercado sobre juros voltou a ser apenas de um corte até o fim do ano, diz, bem distante dos três apontados pelo Sumário de Projeções Econômicas do Fed divulgado em março.
Segundo o CME Group, no fim da tarde de ontem, 44,4% das apostas majoritárias apontavam para um corte de 0,25 ponto em setembro, enquanto 42% apontavam para manutenção em setembro ante 30% de quarta-feira. Já a aposta majoritária de 40% do mercado acreditava que o Fed realizará apenas um corte este ano, ante 33,7% ontem. A expectativa de dois cortes em 2024 caiu de 34% para 29%.
“Não há certamente nada no perfil de crescimento e inflação neste momento que sugira que o Fed tem qualquer urgência em cortar os juros. O Fed preferiria arquitetar um pouso suave, que é o argumento mais forte para iniciar a normalização antes que a inflação volte ao objetivo. Dito isto, Powell precisa restabelecer a estabilidade de preços mais do que evitar uma recessão”, disse Lyngen.
Apesar da desaceleração do PIB do primeiro trimestre, o sentimento é que a economia segue firme por enquanto. “A economia pode ter desacelerado um pouco no primeiro trimestre, mas permanece em terreno firme”, aponta Michael Gaspen, economista do Bank of America (BofA). O executivo diz que o PIB de 1,6% – ante esperados 2,4% pelo consenso – é resultado de uma queda no crescimento do comércio e de estoques, que são categorias voláteis em que grandes oscilações tendem a ser revertidas nos trimestres subsequentes. “Nós preferimos focar nas vendas finais a consumidores que cresceram 2,8%, comparado com os 3,5% do segundo semestre de 2023.”
Paul Ashworth, economista-chefe para América do Norte da Capital Economics, tem a mesma opinião. “O PIB trimestral veio abaixo do esperado em seu menor resultado em quase dois anos, mas o avanço de 6,1% (ajustado pelo dólar atual) nas vendas finais para consumidores particulares mostra que ainda há muito impulso subjacente positivo”, disse.
O susto com a inflação americana pressionou a curva de juros doméstica durante boa parte da sessão e manteve as taxas de longo prazo em alta ao longo de todo o dia. O movimento decorre, ainda, de um leilão de títulos prefixados que passou longe da perfeição. O Tesouro Nacional manteve uma oferta reduzida de papéis, mas mesmo assim não fez uma colocação integral dos títulos, o que pode sugerir algum desconforto com o nível elevado de prêmios que tem sido exigido pelo mercado.
“Achamos que o Tesouro não quis esticar as taxas. Ou seja, apesar da demanda, ele não aceitou pagar prêmio para quem entrou no leilão e exigiu ainda mais”, diz o trader de renda fixa de um banco.
O chefe da tesouraria de outro banco nota que os dados americanos ajudaram a puxar para cima toda a curva de juros prefixados e, assim, a demanda pelos papéis mapeada pelo Tesouro antes da divulgação do PIB dos EUA diminuiu. “E nesse caso o Tesouro optou por colocar menos. Na hora em que o leilão saiu, os dados já causavam estresse na curva e a demanda não estava mais lá.”
Houve algum alívio durante a tarde, com as declarações de Arthur Lira, à “GloboNews”. O deputado disse que nunca colocou “pautas bomba” em votação e que não fará isso no seu mandato. “Não foi a Câmara que pautou o quinquênio”, afirmou Lira, ao mencionar a PEC em discussão no Senado que pode ter impactos relevantes sobre as contas públicas.
Fonte: Valor Econômico