Laboratório de bens de consumo para a saúde, uma cisão da GSK, conseguiu o maior valor de um registro de ações em Londres em mais de dez anos
Por Judith Evans — Financial Times, de Londres
19/07/2022 05h01 Atualizado há 6 horas
Em seu primeiro dia de negócios em bolsa, a Haleon, unidade de bens de consumo para a saúde desmembrada da GlaxoSmithKline (GSK), conseguiu o maior valor de um registro de ações em Londres em mais de dez anos, que tornou fabricante da pasta de dentes Sendodyne e dos analgésicos Panadol a maior fabricante independente de bens de consumo de saúde no mundo.
As ações da Haleon abriram cotadas a 330 pence ontem, o que lhe conferiu um valor de mercado de 30,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 36,2 bilhões), maior lançamento em bolsa em Londres desde a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Glencore, em 2011, de 37 bilhões de libras.
A cotação catapulta a empresa diretamente ao time das 20 maiores do índice referencial do mercado acionário britânico FTSE. Mesmo levando em conta seu endividamento de 10 bilhões de libras, o valor ainda é bem inferior ao de 50 bilhões de libras oferecido em 2021 pela Unilever para comprar a empresa.
Chris Beckett, chefe de análise de renda variável na gestora de recursos Quilter Cheviot, disse que o preço dado pelo mercado está “sem dúvida, no limite inferior da faixa à qual se aglutinavam as expectativas”, embora tenha acrescentado que “se trata de um setor e de uma empresa atraentes nas quais ter exposição, dadas suas características defensivas num momento em que a volatilidade vem trazendo tensão aos mercados.”
Além de estar se lançando em meio à agitação dos mercados, a nova empresa precisará lidar com o impacto da inflação sobre os consumidores, embora o executivo-chefe da Haleon, Brian McNamara, tenha salientado que seus produtos gozam de forte fidelidade à marca.
“Esta é uma empresa incrível, com 100% de foco na saúde do consumidor, que é mais relevante do que nunca na saída da pandemia; temos menos exposição a custos relacionados a commodities [do que rivais do setor] e a desafios ambientais, [e] nossa pegada de carbono é menor”, acrescentou.
O objetivo do desmembramento é deixar a GSK – que tem enfrentado pressão de investidores ativistas – livre para se concentrar em medicamentos de receita médica e vacinas. Pelos termos da operação, os acionistas da GSK receberam uma ação Haleon para cada papel que possuem.
A Haleon, um empreendimento conjunto com a Pfizer, é a única empresa do setor de saúde do consumidor com ações em bolsa disponível para investidores, embora concorra contra a Reckitt Benckiser, que fabrica o Strepsil e tem uma área saúde do consumidor que gerou 35% de sua receita líquida total em 2021, e contra a divisão de saúde do consumidor da Johnson & Johnson, que também conta com planos de desmembramento para 2023.
As ações da GSK recuavam 19,5%, cotadas a 13,83 libras na manhã de ontem em Londres, reflexo da redução no valor após a cisão. A fabricante de medicamentos e vacinas promoverá uma consolidação de suas ações para trazer o preço de volta ao nível anterior à divisão.
O desmembramento vem sendo um grande teste para Emma Walmsley, executiva-chefe da GSK desde 2017, que com a operação promete não apenas dar mais liberdade para a Haleon investir em marketing e novos produtos, mas também resolver o “perene fraco desempenho” da área farmacêutica, ao deixá-la com um balanço mais forte.
Beckett disse que a diferença entre o valor de mercado alcançado pela Haleon e a oferta da Unilever traria mais questionamentos por parte dos investidores. “Caberá à administração da Haleon justificar por que eles rejeitaram a oferta”.
A GSK e a Pfizer, somadas, mantiveram participações equivalentes a US$ 15 bilhões na Haleon, da qual pretendem se desfazer em novembro, após o fim de um período formal de proibição à venda.
A Haleon, cujo presidente do conselho de administração é Dave Lewis, que é ex-executivo-chefe da Tesco [varejista], projeta um crescimento anual de vendas de 4% a 6%, embora a maioria dos analistas estime números no limite inferior dessa faixa.
Uma das metas é reduzir a dívida ao longo do tempo, mas o executivo-chefe McNamara ressaltou que nos próximos dois anos o grupo tem poder de fogo para promover uma aquisição estratégica por ano de empresas de alto crescimento e de valores entre 50 milhões e 100 milhões de libras.
A Haleon destacou que espera se beneficiar de tendências de longo prazo, como o envelhecimento da população mundial e as pressões enfrentadas pelos sistemas públicos de saúde, que estimulam consumidores a procurar resolver mais problemas de saúde por conta própria.
Fonte: Valor Econômico